Um exemplo marcante dessa relação entre ambiente e arquitetura pode ser observado nas tradicionais casas de turfa da Islândia. Elas recebem esse nome porque são cobertas com material orgânico formado pela decomposição lenta de vegetação ao longo de milhares de anos.
Esse tipo de moradia faz parte do que se chama arquitetura vernacular que, diferente dos padrões globais modernos, é um modo de construir desenvolvido de forma espontânea pelas comunidades locais.
Trata-se de uma técnica profundamente ligada ao cotidiano das pessoas, ao clima e aos recursos disponíveis em cada região. À revista Casa e Jardim, o arquiteto Fernando César Negrini explicou de que forma esse modelo funciona na prática.
Segundo ele, a arquitetura vernacular é resultado da combinação entre três fatores principais: o lugar, os materiais disponíveis e o trabalho humano, elementos que juntos formam a identidade de cada território.
De acordo com Ágústa Kristófersdóttir, responsável pela coleção de artefatos do Museu Nacional da Islândia, as casas de turfa passaram a ser utilizadas desde o período inicial de ocupação do país, especialmente entre os séculos 19 e 20.
'As primeiras construções domésticas eram as casas longas, as 'longhouses', mas o formato das casas mudou gradualmente ao longo de muitos séculos, conforme o uso, o layout, o clima e as necessidades sociais evoluíram', explicou ela.
'Essas mudanças foram moldadas pelos materiais disponíveis, especialmente a madeira limitada, pelo clima da Islândia e pelas demandas práticas da vida cotidiana', ressaltou Ágústa.
Tecnicamente, as residências eram erguidas sobre bases de pedra, com paredes de blocos de turfa cuidadosamente empilhados e isolados com terra compactada, enquanto a madeira era reservada apenas para o esqueleto interno e o suporte do telhado.
Uma das grandes vantagens das casas de turfa era o excelente isolamento térmico. As paredes espessas e o telhado vegetal ajudavam a manter o interior protegido do frio intenso e dos ventos fortes típicos do clima islandês.
Inicialmente, no interior dessas habitações, o calor vinha inicialmente de uma fogueira central; posteriormente, ambientes como a baðstofa — espaço que reunia sala e dormitórios — dependiam principalmente da capacidade isolante das paredes e do calor gerado pelas pessoas e, em alguns casos, pelos animais alojados nas proximidades.
'O layout compacto e conectado dos edifícios também ajudava a reduzir a exposição aos elementos', explicou Ágústa. Atualmente, essa identidade arquitetônica enfrenta o risco do apagamento causado pela padronização estética global.
Segundo Negrini, a 'pasteurização' das cidades modernas ameaça extinguir técnicas que carregam séculos de conhecimento coletivo. Para ele, preservar essas técnicas significa manter viva uma herança cultural coletiva e fortalecer o vínculo entre território, cultura e formas tradicionais de construir.