Nascida como Yvonne Lara da Costa, em 13 de abril de 1921, no Rio de Janeiro, ela teve uma infância profundamente ligada à música. Filha de pais que frequentavam ranchos carnavalescos, cresceu em um ambiente onde o samba e o choro eram presenças constantes. Ainda jovem ficou órfã e foi criada por familiares que incentivaram sua formação musical, aprendendo a tocar cavaquinho e fazendo aulas de canto.
Apesar da forte inclinação artística, sua vida profissional começou em outra área. Dona Ivone formou-se em enfermagem e serviço social, atuando na área da saúde, com destaque para o trabalho em hospitais psiquiátricos ao lado da reconhecida médica Nise da Silveira. Ela exerceu práticas ligadas à terapia ocupacional e à humanização do tratamento de pacientes, contribuindo para avanços na reforma psiquiátrica brasileira.
Só após se aposentar, na década de 1970, passou a se dedicar integralmente à carreira musical. Sua entrada definitiva no samba ocorreu por meio do universo das agremiações carnavalescas. Ligada ao tradicional Império Serrano, Dona Ivone Lara fez história ao se tornar a primeira mulher a integrar a ala de compositores de uma escola de samba.
No mesmo ano, conquistou projeção ao assinar, ao lado de Silas de Oliveira e Bacalhau, o clássico samba-enredo “Os Cinco Bailes da História do Rio”, marco que rompeu barreiras de gênero em um ambiente até então dominado por homens.
Ao longo das décadas seguintes, Dona Ivone Lara consolidou-se como uma das maiores compositoras do samba, construindo uma obra marcada por lirismo, sensibilidade e profunda ligação com as raízes do samba, ao lado de nomes como Beth Carvalho.
Nesse percurso, teve em Délcio de Carvalho seu principal parceiro criativo, com quem assinou algumas de suas obras mais emblemáticas. Entre suas canções mais conhecidas estão “Sonho Meu”, “Alguém Me Avisou” e “Acreditar”, que atravessaram gerações e ganharam novas leituras na voz de grandes intérpretes.
“Sonho Meu”, por exemplo, foi gravada pela primeira vez por Maria Bethânia em dueto com Gal Costa no álbum “Álibi”, lançado em 1978, tornando-se um marco na difusão da obra da compositora. Em 1981, a cantora baiana faria participação na faixa 'Sereia Guiomar', do álbum 'Sorriso Negro'.
Já Caetano Veloso também contribuiu para ampliar o alcance de seu repertório ao gravar músicas como “Alguém Me Avisou”, ao lado de Gilberto Gil e Maria Bethânia em outro álbum da irmã, “Talismã”, ajudando a projetar ainda mais o nome de Dona Ivone Lara no cenário nacional.
Foi justamente nos anos 1970, já madura, que Dona Ivone Lara ganhou maior projeção como intérprete, lançando discos e se apresentando em shows por todo o Brasil. Sua carreira fonográfica inclui álbuns importantes como “Samba, Minha Verdade, Minha Raiz” e “Sorriso Negro”.
Além do reconhecimento do público, sua trajetória também foi celebrada institucionalmente. O dia 13 de abril, data de seu nascimento, foi instituído como o Dia Nacional da Mulher Sambista, uma homenagem à sua contribuição histórica para a valorização feminina no samba. Ao longo da vida, recebeu diversos prêmios e homenagens, incluindo desfiles, como o Império Serrano de 2012, e projetos musicais dedicados à sua obra
Até os últimos anos de vida, Ivone Lara manteve-se ativa, realizando apresentações e sendo reverenciada por artistas de diferentes gerações, de Zeca Pagodinho a Diogo Nogueira. Assim, seu legado permanece vivo na música brasileira, nas rodas de samba e na memória cultural do paÃs.