Ainda criança, Beth conviveu com nomes importantes da canção brasileira, como Sílvio Caldas, Elizeth Cardoso e Aracy de Almeida, amigos de seu pai, João Francisco Leal de Carvalho. A música fazia parte do cotidiano: sua avó tocava instrumentos de corda, sua mãe era pianista clássica e sua irmã Vânia também se dedicava ao canto. O despertar artístico veio cedo, impulsionado pelo contato com esse universo. Na infância, ela fez balé por vários anos e, na adolescência, passou a estudar violão.
Ao frequentar diferentes bairros do Rio de Janeiro, ela teve contato direto com rodas de samba e ensaios de escolas, experiências que moldaram sua identidade musical. Inicialmente influenciada pela bossa nova, sobretudo após ouvir João Gilberto, começou a cantar e compor ainda nos anos 1960, participando de shows e movimentos musicais que buscavam novos caminhos para a canção brasileira.
A projeção nacional de Beth Carvalho se deu em 1968, quando conquistou o terceiro lugar no III Festival Internacional da Canção ao interpretar a música “Andança”, composta por Danilo Caymmi, Paulinho Tapajós e Edmundo Souto. O sucesso da canção abriu caminho para o lançamento de seu primeiro álbum, batizado com o nome da canção e que marcou o início de uma trajetória ascendente.
A partir da década de 1970, Beth Carvalho passou a lançar discos regularmente e a emplacar sucessos de autores importantes que se tornariam clássicos, como “Vou Festejar” “Coisinha do Pai”, “Folhas Secas”, “As Rosas Não Falam” e “Camarão que Dorme a Onda Leva”.
Beth Carvalho exerceu um papel fundamental na valorização de compositores que conheceu ao frequentar rodas de samba e em sua busca por repertório diretamente nas comunidades. Foi responsável, por exemplo, por levar obras de Cartola e Nelson Cavaquinho a um público mais amplo, contribuindo para o reconhecimento desses mestres.
A artista era frequentadora assídua do bloco Cacique de Ramos e teve papel central na difusão de uma nova linguagem dentro do samba, associada ao surgimento do pagode carioca.
Ao incorporar instrumentos como o banjo adaptado, o tantã e o repique de mão em seus discos e shows, ajudou a popularizar essa sonoridade em todo o país. Essa contribuição lhe rendeu o apelido de “Madrinha do Samba”, refletindo sua importância tanto na preservação quanto na renovação do gênero. Em 1978, lançou álbum 'Pé no Chão', considerado um marco ao introduzir o som inovador desse universo.
Ao longo da carreira, Beth acumulou números expressivos, com mais de 30 discos gravados, premiações importantes, incluindo discos de ouro e platina, e apresentações em diversas cidades do Brasil e do exterior. Levou o samba a palcos internacionais, passando por países da Europa, América e África, além de participar de festivais de prestígio como o de Montreux.
Sua ligação com o carnaval e com as escolas de samba sempre foi intensa. Identificada com a Estação Primeira de Mangueira, Beth manteve presença constante nas quadras e desfiles, sendo profundamente respeitada nesse universo. Em 1984, tornou-se enredo da Unidos do Cabuçu, que conquistou o título naquele ano.
Na vida pessoal, Beth foi casada com o ex-jogador de futebol Édson Cegonha, com quem teve sua única filha, Luana Carvalho, que seguiu carreira artística como cantora e atriz. Ela também se destacou por seu posicionamento político, apoiando lideranças e movimentos alinhados às causas populares, além de participar de iniciativas em defesa da cultura brasileira.
A partir de 2010, a artista passou a enfrentar sérios problemas de saúde, especialmente relacionados à coluna vertebral, que comprometeram sua mobilidade. Chegou a se apresentar deitada em shows, demonstrando resistência e compromisso com a música. Beth Carvalho morreu em 30 de abril de 2019, aos 72 anos, após um período de internação no Rio de Janeiro. A notícia gerou ampla repercussão no meio artístico, político e cultural, com homenagens de nomes consagrados da música brasileira.