Nascido em uma família humilde no bairro de São Cristóvão, Jamelão teve infância marcada por dificuldades financeiras. Trabalhou ainda menino como engraxate e vendedor de jornais para ajudar em casa, em uma realidade comum entre moradores dos subúrbios cariocas do início do século 20. Ainda jovem, aproximou-se da música popular e das rodas de samba que floresciam nos morros e bairros do Rio de Janeiro. Frequentador de gafieiras e ambientes boêmios, começou tocando tamborim e cavaquinho, instrume
A ligação com a Mangueira começou ainda na juventude, quando foi levado à escola pelo sambista Gradim, amigo de nomes históricos da escola como Cartola e Carlos Cachaça. Inicialmente, Jamelão atuou na bateria da escola, tocando tamborim. Aos poucos, porém, percebeu que seu verdadeiro talento estava no canto. O apelido “Jamelão” teria surgido justamente nas gafieiras cariocas, em referência ao fruto de mesmo nome. Mais tarde, a força de sua voz lhe renderia também o apelido de “Gogó de Ouro”.
Durante os anos 1930 e 1940, Jamelão passou por diversas gafieiras e casas noturnas do Rio, construindo reputação como crooner e cantor popular. Um dos momentos decisivos de sua carreira ocorreu em 1945, quando participou do programa de calouros apresentado por Ary Barroso. Interpretando “Ai, que Saudades da Amélia”, composição de Ataulfo Alves e Mário Lago, chamou atenção no rádio e conseguiu oportunidades profissionais em boates, emissoras e gravadoras.
A década de 1950 inaugurou o capítulo mais marcante da trajetória de Jamelão, quando assumiu o posto de intérprete oficial da Mangueira, tornando-se a voz da escola nos desfiles de Carnaval.
A relação atravessaria mais de meio século. Até 2006, sua voz conduziu a verde e rosa na Marquês de Sapucaí e antes dela, nos antigos desfiles da Avenida Presidente Vargas. Sua interpretação intensa ajudou a transformar o papel do cantor de samba-enredo em elemento central dos desfiles.
Jamelão tinha enorme orgulho da função que desempenhava e fazia questão de corrigir quem o chamava de “puxador de samba”. Em uma de suas frases mais conhecidas, dizia: “Não sou puxador. Não puxo carro, não puxo droga, nem puxo saco. Sou intérprete de samba-enredo”. Com personalidade forte, temperamento explosivo e humor muitas vezes sarcástico, Jamelão se tornou figura folclórica do samba carioca. Era conhecido pela sinceridade contundente e pelas respostas atravessadas a jornalistas e dirigent
Ao longo de décadas, Jamelão participou de sambas-enredo históricos da Mangueira e esteve presente em momentos decisivos da evolução do Carnaval moderno. Sambas como “Caymmi Mostra ao Mundo o Que a Bahia e a Mangueira Têm”, de 1986, e “Cem Anos de Liberdade, Realidade ou Ilusão”, de 1988, tornaram-se inesquecíveis também graças à maneira intensa com que eram cantados por ele na avenida.
Embora eternizado pelo Carnaval, Jamelão também teve carreira importante fora das escolas de samba. Gravou dezenas de discos e ficou especialmente conhecido como grande intérprete da obra do compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues, mestre do samba-canção e das músicas de 'dor-de-cotovelo'.
Canções como “Vingança”, “Esses Moços” e “Cadeira Vazia” ganharam interpretações marcantes na voz do cantor. Críticos e pesquisadores da música popular frequentemente o apontam como o principal intérprete da obra de Lupicínio, graças à dramaticidade e profundidade emocional que imprimia às canções.
Ao longo da carreira, o vascaíno Jamelão recebeu diversos prêmios e homenagens. Conquistou repetidas vezes o Estandarte de Ouro como melhor intérprete do Carnaval carioca e, em 1999, foi eleito o Intérprete do Século do Carnaval do Rio de Janeiro. Em 2001, recebeu a Ordem do Mérito Cultural, concedida pelo governo federal em reconhecimento à sua contribuição para a cultura brasileira.
Nos últimos anos de vida, a saúde começou a se fragilizar. Em 2006, sofreu um acidente vascular cerebral que o afastou dos desfiles. O Carnaval de 2007 foi o primeiro em décadas sem sua voz nos sambas da Mangueira. Em 14 de junho de 2008, Jamelão morreu aos 95 anos, no Rio de Janeiro, vítima de falência múltipla dos órgãos. Sua morte provocou forte comoção no universo do samba e do Carnaval. O corpo do cantor foi velado na quadra da Mangueira e recebeu homenagens emocionadas de sambistas, músico