
O soteropolitano Luiz Amorim chegou a Brasília em 1973, quando a cidade tinha apenas 13 anos e ele, 7. Em busca de uma vida melhor, a mãe, recém-separada, chegou à então intitulada Capital da Esperança para trabalhar como diarista, enquanto os seis filhos faziam bicos como engraxates e capinadores para ajudar em casa. Fruto de família humilde, Luiz viu a vida começar a mudar de rumo aos 12 anos, quando começou a trabalhar como açougueiro na Asa Norte.
Morador do Gama, o então adolescente sonhava em viver no Plano Piloto, região onde a mãe trabalhava. "Um dia, um amigo me falou que estavam precisando de um açougueiro na 312 Norte. Eu vim e estou aqui até hoje", conta Luiz. À época, morando nos fundos da loja, ele utilizava do tempo livre para ler. Alfabetizou-se aos 16 anos e, aos 18, leu o primeiro livro, um gibi de filosofia.
"Como nossos clientes eram politizados e tinham um nível cultural muito bom, comecei a conversar com eles sobre o que lia. Eles adoravam, achavam interessante um açougueiro que discute literatura, política e filosofia", relata. Teve ano, ele conta, que chegou a ler de 10 a 15 livros por mês, em meio a obras de Sócrates, Nietzsche e Platão. "O que me davam na mão eu lia. Tinha fome pelos livros", define.
Aos 29, Luiz teve a oportunidade de comprar o estabelecimento em que trabalhava desde a adolescência. Rebatizou o espaço de Açougue do T-Bone e, quase que imediatamente, passou a oferecer aos clientes mais do que os cortes de carnes: ele disponibilizou, de forma gratuita, livros à comunidade. "A gente começou colocando livros aqui no açougue, timidamente. Aí o público foi doando também e, quando nos demos conta, chegavam clientes com caixas cheias para doação", lembra o açougueiro.
A partir da iniciativa, Luiz se tornou responsável por um projeto ainda maior — em 2007, liderou o desafio de levar a literatura para os pontos de ônibus. "Fizemos um acervo bem interessante e montamos uma estante na parada da 712 Norte", relata o açougueiro. "A ideia inicial era manter apenas uma dessas bibliotecas. Porém, houve uma mobilização muito grande, abrimos na parada em frente e assim foi...", rememora.
No auge, foram cerca de 35 pontos de ônibus com as estantes, com uma circulação de 300 mil livros por ano. "Recebemos até uma uma menção na Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) como maior projeto de incentivo à leitura do mundo", destaca Luiz. Até hoje, as paradas da W3 Norte recebem as estantes: "O movimento agora anda sozinho. O pessoal abraçou bastante essa ideia e eles próprios levam novos livros".
Segundo o idealizador do projeto, foram inúmeros depoimentos de leitores que mudaram de vida com auxílio das estantes. "Encontrei muitos servidores públicos que disseram ter sido aprovados em concursos por conta dos materiais disponibilizados. Conheci até mesmo uma mulher que afirmou que os livros a ajudaram durante um momento de depressão profunda", narra.
Noites culturais
A imersão na literatura veio a calhar com o Açougue Cultural, que surgiu em 1997. "Além da convivência que eu tinha com artistas da área da poesia, música e literatura, a 312 Norte sempre teve um ambiente muito fértil para o surgimento de projetos como esse", avalia o soteropolitano. Realizado no próprio estabelecimento, o projeto buscava promover todo o tipo de atividade artística da cidade.
A estreia se deu com o lançamento do livro Conversa de butiquim, do autor e jornalista Fafão de Azevedo. "Foi engraçado, porque a primeira pessoa a chegar nesse dia foi o cineasta Vladimir Carvalho. Eu ainda estava lavando o açougue", ri. "Foi um evento pequeno, com umas 20 ou 30 pessoas. Mas foi interessante, porque conseguimos chamar atenção para os próximos", ressalta.
No terceiro encontro, ele promoveu uma reunião entre os irmãos Clodo, Climério e Clésio Ferreira, com o lançamento do disco Tiro certeiro. "Eles já tinham encerrado a carreira como trio e conseguimos reuni-los. Na ocasião, Clodo me disse: 'Todo mundo vai querer participar desses encontros'. Dito e feito. Ele fez a profecia", brinca o açougueiro.
Jorge Benjor, Zé Ramalho, Tom Zé e Elba Ramalho são alguns dos nomes que se apresentaram nos eventos. "O Fagner, por exemplo, comemorou os 40 anos dele aqui. Ele mesmo que me ligou, pedindo para participar. Eu pensei que era trote", admite. Paralelamente, continuavam os encontros literários, bienais da poesia e teatros de bolso promovidos pelo açougue.
Com a pandemia da covid-19, no entanto, os eventos foram suspensos e, desde então, não retornaram. "Eu vejo que ficou um vazio na cidade. As pessoas ainda nos procuram para saber se vamos voltar", revela Luiz. "Existem nomes que gostariam de ter participado e a gente pensa em fazer um evento para celebrar tudo isso que aconteceu", adianta o açougueiro. Por ora, fica o orgulho de tudo que aconteceu: "Fizemos nosso trabalho, que resultou em um registro muito bom para a cidade". (IB)

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