Música

Reco do Bandolim mistura chorinho com suingue candango

Reco do Bandolim e o filho Henrique Neto carregam a missão de manter o gênero musical vivo na capital do país e transformar o Clube do Choro numa referência nacional entre os instrumentistas e cantores

Reco do Bandolim e o filho, Henrique Neto: quando a nova e a velha geração se encontram para falar de música -  (crédito:  Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Reco do Bandolim e o filho, Henrique Neto: quando a nova e a velha geração se encontram para falar de música - (crédito: Carlos Vieira/CB/D.A Press)

Apesar de ser chamada de capital do rock, Brasília sempre foi conhecida como a capital do choro. Um dos grandes responsáveis pelo surgimento do interesse no ritmo na cidade é Reco do Bandolim, fundador da Escola Brasileira de Choro Raphael Rabello, a primeira no gênero em todo o país, e presidente do Clube do Choro.

Reco chegou à capital em 1963 quando o pai, deputado estadual na Bahia, se tornou deputado federal. Logo depois, com o golpe militar, o trabalho do pai foi muito perseguido e Reco conta que cresceu nesse ambiente de tensão. "A gente via a Universidade de Brasília (UnB) nascendo com aquele espírito de Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira, um projeto de Oscar Niemeyer, Lucio Costa. Havia um projeto extraordinário para essa cidade, era um negócio exuberante. Mas, em seguida, veio esse golpe militar e os militares acharam que aquilo era uma coisa perigosa e acabaram com tudo. Nós crescemos nesse ambiente", descreve.

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Nos anos 1970, ele tocava guitarra na banda Carência Afetiva, que tinha com o irmão, e era conhecido como Jimmy Reco, por tocar todo o repertório de Jimmy Hendrix. "Essa febre da guitarra veio de Woodstock, era uma forma de protesto", comenta. O choro apareceu na sua vida numa viagem para a Bahia, em 1972, quando em um show de Moraes Moreira, integrante dos Novos Baianos, ouviu a canção Noites cariocas, de Jacob do Bandolim. "Eu, um jovem morando na capital da República, nunca tinha ouvido falar em choro. Eu fiquei paralisado e, quando cheguei em Brasília, comecei a procurar em todas as escolas de música e nenhuma contemplava o choro", conta.

Manifestação

A partir desse momento, Reco começou a ouvir choro e a tocar bandolim por contra própria. Buscava uma maneira de trazer a manifestação musical tipicamente carioca para a capital. "Quando a gente começou com as atividades do Clube do Choro, eu me lembro que era uma casa que recebia pessoas muito mais velhas, não tinha jovem nenhum e eu comecei a pensar numa maneira de seduzir a juventude, porque achei injusto que os jovens não tomassem conhecimento desse gênero tão especial e não tivessem acesso a essa riqueza", explica Reco. Para isso, criou o projeto Caindo no choro e chamou Pepeu Gomes, integrante dos Novos Baianos, para tocar bandolim na cidade.

"Botamos um anúncio bem grande escrito: Pepeu Gomes cai no Choro. Veio a juventude, gente da UnB querendo ver ele tocar guitarra, mas quando chegaram, viram o Pepeu com aquele cabelão, tocando o bandolim. Eu fiquei olhando para a fisionomia da juventude, as pessoas estavam apaixonadas por aquilo que estavam vendo", relembra Reco.

Desde então, Reco conseguiu disseminar o choro não só na capital, mas dentro de casa. Henrique Neto, filho de Reco, é atualmente o diretor da Escola Brasileira de Choro Raphael Rabello e toca violão de sete cordas. "Eu sempre recebi Dominguinhos, Moraes Moreira, Hamilton de Holanda e tinha uma relação pessoal de amizade com todos eles. Henrique foi criado desde pequenininho vendo o pessoal tocando", relembra Reco. Um dia, Reco chegou em casa e Henrique interpretava um choro no bandolim. Era Noites cariocas, a canção que deu início a tudo.

Esforço

Henrique estava conectado com o choro desde sempre e acompanhou todas as etapas do Clube. "Eu lembro da gente vindo aqui aos domingos para limpar o Clube do Choro. Confesso que não gostava na época, eu queria estar jogando bola com meus amigos. Mas tinha que vir, porque os instrumentistas tinham essa missão. Mas depois criei uma relação de muito amor com o choro, por ter participado de todo esse esforço", afirma.

Reforçando que Brasília é capital do choro, Henrique se conectou com a cidade por meio da música. "Vendo a paixão das pessoas daqui, toda a transformação no cenário cultural que o Clube do Choro promoveu e a escola também. Comecei a tocar aqui e conheci muito da cidade, depois que eu me tornei músico", destaca. "Esse trabalho levou a me apaixonar mais por Brasília também. Percebendo a minha forma de compor e de me relacionar com a música, Brasília se reflete dentro desses espaços abertos, essa cidade modernista. O traço do Niemeyer reflete também na nossa forma de fazer música", afirma Henrique.

Como diretor da Escola Brasileira de Choro, Henrique Neto é diretamente responsável pela nova geração de brasilienses na música. "Eu era a nova geração, quando tinha 13 anos, passei por esse período dos novos talentos, dos jovens redescobrindo o choro. Uma música centenária sendo redescoberta por adolescentes. E, hoje, estou na função de apresentar o choro para os jovens", reflete. "Quando comecei a tocar o choro era música de pessoas mais velhas, mas hoje você vê muitos jovens tocando, se interessando por choro, misturando o choro com outros gêneros contemporâneos", conta.

Reco do Bandolim também destaca que o choro tem ganhado seu espaço cada dia mais. "Fico impressionado em como uma cidade futurista, veio se apaixonar por esse gênero centenário. Isso diz respeito ao que está no sangue. É uma coisa muito boa de se ver nos finais de semana, tudo quanto é lugar tem gente tocando bandolim, a juventude mesmo está tocando samba e choro. Isso é um ganho fantástico", destaca.

 


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postado em 21/04/2026 04:37
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