ANIVERSÁRIO DE BRASÍLIA

Um engenheiro florestal na luta pela defesa do Cerrado

A degradação do bioma, que pode chegar a 90% do original, ameaça o abastecimento de água e a qualidade de vida na capital, exigindo políticas públicas eficazes, avalia César Victor, colaborador da Fundação Pró-Natureza (Funatura)

No coração do Brasil, onde o Cerrado se estende como a savana mais rica em biodiversidade do planeta, a preservação ambiental deixou de ser apenas uma pauta ecológica para se tornar uma questão de sobrevivência. Apesar dessa relevância, o avanço da urbanização e da agropecuária tem imposto pressões crescentes. Estimativas apontam que entre 50% e 80% da cobertura original do Cerrado já foi degradada ou convertida para uso humano, enquanto menos de 4,5% da área está protegida por unidades de conservação. Essa contínua fragmentação de habitats compromete não apenas fauna e flora, mas até mesmo a vida urbana na capital.

É nesse contexto que vozes como a de César Victor ganham volume, ao chamar atenção para a relação direta entre conservação da vegetação nativa, segurança hídrica e qualidade de vida no Distrito Federal. Segundo o engenheiro florestal e colaborador da Fundação Pró-Natureza (Funatura), o bioma é conhecido como "berço das águas" justamente por concentrar nascentes de importantes bacias hidrográficas brasileiras. "Em um território pequeno, temos nascentes que alimentam três grandes bacias: a do São Francisco, a do Tocantins-Araguaia e a do Paraná", afirma. 

O especialista ressalta que essa riqueza, no entanto, está sob constante ameaça. Para ele, o principal problema é a ocupação desordenada do território. "A expansão urbana, muitas vezes em áreas impróprias, tem provocado desmatamento, comprometimento de nascentes e até o desaparecimento de veredas", diz. "Essa ocupação irregular é a grande causa da perda de qualidade ambiental no Distrito Federal."

Além das pressões locais, César Victor aponta que o Cerrado sofre com uma desvalorização histórica em comparação a outros biomas. "Existe uma percepção equivocada de que o Cerrado é menos importante que a Amazônia, o que não é verdade", critica. "O Cerrado é riquíssimo em biodiversidade, em água e em carbono. Ainda assim, as políticas públicas permitem níveis muito maiores de desmatamento aqui." Segundo ele, esse cenário é agravado por incentivos econômicos. "Nós acabamos incentivando o desmatamento por meio de políticas voltadas ao agronegócio e à mineração. Em muitos casos, isso é legalizado."

A relação entre a conservação ambiental e a segurança da população também é destacada pelo engenheiro. "Preservar o Cerrado é proteger áreas de recarga de aquíferos, nascentes e veredas. Isso garante segurança hídrica para o presente e para o futuro", afirma. Ele defende o fortalecimento de políticas públicas voltadas à criação e manutenção de unidades de conservação. "É fundamental ampliar essas áreas e garantir uma gestão eficiente."

O cenário atual do DF já apresenta sinais de alerta, com regiões em estágio avançado de degradação. "Existem áreas com capacidade de suporte praticamente esgotada, mas que ainda recebem pressão para novos loteamentos e expansão urbana", aponta. Para ele, instrumentos como o zoneamento ecológico-econômico e o Plano Diretor de Ordenamento Territorial (Pdot) deveriam ser respeitados com mais rigor. "O Pdot tem sido alterado de forma a permitir mais desmatamento, o que agrava o problema."

Engajamento

César Victor também não descarta novas crises hídricas nos próximos anos. "As mudanças climáticas já estão em curso, com aumento de temperatura e irregularidade nas chuvas", explica. "Se continuarmos com políticas que incentivam a expansão urbana sobre áreas sensíveis, a tendência é de piora. Em alguns anos, certamente enfrentaremos novas crises de abastecimento."

Apesar dos desafios, o especialista reconhece que o DF possui uma base legal robusta para a proteção ambiental. "Temos instrumentos como o Código Florestal, o zoneamento ecológico-econômico e diversas leis voltadas à proteção dos recursos hídricos", afirma. "O problema, muitas vezes, é a falta de vontade política e de recursos para implementar essas políticas de forma efetiva."

Carlos Vieira/CB/D.A Press - Caderno de Brasília. Funatura - A importância de preservação do cerrado e dos recursos hidrográficos do DF. Na Foto Cesar do Espirito Santo.

Para o futuro, César Victor defende uma abordagem integrada. "Precisamos de gestão conjunta entre unidades de conservação, governo, sociedade civil e setor produtivo", diz. "Também é essencial ampliar os investimentos em estrutura, pessoal e fiscalização." Ele reforça que a participação da sociedade é indispensável. "Não é possível preservar o Cerrado apenas com ações do poder público. É preciso engajamento coletivo."

Ao projetar os próximos anos, ele faz um alerta e um apelo. "O crescimento da cidade precisa ser organizado e compatível com a preservação ambiental", afirma. "Se não cuidarmos do Cerrado, vamos perder qualidade de vida. O Cerrado é um tesouro que ainda temos. Cabe a nós garantir que ele continue existindo para as próximas gerações."

O especialista também destaca o vínculo afetivo e cotidiano com a cidade como elemento central para a preservação. "Brasília é a minha casa, é onde minha família vive, onde construí minha trajetória. Por isso, é fundamental que ela seja bem cuidada", diz. "Uma cidade que não preserva suas áreas verdes perde qualidade de vida rapidamente." 

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