Futuro, planejamento e ousadia. Para Daniela Bittencourt, de 48 anos, pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), as três palavras se relacionam tanto a Brasília quanto ao fazer científico, área à qual se dedica há pelo menos 20 anos. Hoje, ela é um nome de peso em pesquisas de ponta, como a biologia sintética, e, mais recentemente, nos estudos com a planta cannabis. Apesar de nascida em Uberaba (MG), ela tem a capital federal como base. Foi aqui que uniu formação científica, atuação institucional e compromisso com temas estratégicos para o Brasil.
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"A cidade nasceu de uma visão ambiciosa de país, e essa ideia de imaginar o que ainda não existe dialoga bem com a pesquisa científica. Trabalhar com inovação exige exatamente isso: pensar adiante, questionar limites e construir caminhos novos com responsabilidade, sem perder o compromisso com a ética, a inclusão e o interesse público", diz a secretária executiva do Comitê Permanente de Assessoramento de Pesquisa em cannabis.
Para ela, a ciência não é um campo estático, mas um organismo vivo que exige adaptação e, acima de tudo, um propósito social claro. "Minha trajetória sempre foi marcada pela curiosidade científica e pelo interesse em compreender a vida em profundidade, desde os sistemas biológicos mais complexos até suas aplicações práticas para a sociedade", explica, reforçando que sua entrada na Embrapa, em 2007, foi o passo decisivo para unir a pesquisa de laboratório à estratégia de Estado.
Além do laboratório
Em solo brasiliense, ela encontrou o ambiente ideal para exercer ciência de impacto, capaz de gerar inovação e responder a desafios concretos do país. Diferentemente de outros polos acadêmicos, a capital oferece a Daniela uma proximidade única com os centros de decisão. Para a pesquisadora, o fazer científico no Distrito Federal ganha uma camada institucional robusta, na qual o laboratório precisa dialogar constantemente com ministérios e agências reguladoras.
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"Estar aqui significa atuar em um ponto de convergência. Brasília me ensinou que o avanço científico depende de redes, de cooperação e, principalmente, de coragem para defender agendas inovadoras, mesmo quando elas ainda enfrentam resistências", observa a pesquisadora.
Ao assumir o protagonismo em temas de vanguarda, como a biologia sintética e os estudos com cannabis, Daniela passou a ocupar um espaço de liderança que exige tanto rigor técnico quanto resiliência política. Ela encara o pioneirismo com uma serenidade estratégica, compreendendo que pavimentar novos caminhos na capital federal exige paciência para substituir o preconceito pela evidência. "Pavimentar esse caminho não é apenas defender um tema, mas ajudar a criar bases para que ele seja tratado com responsabilidade, segurança e relevância para o país", avalia.
Nesse processo de desmistificação, Daniela assume também um papel de mentoria para as novas gerações. "Trabalhar com temas cercados de tabu exige preparo técnico, mas também maturidade para lidar com resistências, interpretações equivocadas e até julgamentos precipitados. É importante estudar profundamente, construir credibilidade, dialogar com diferentes públicos e manter clareza sobre o propósito do trabalho. A ciência tem justamente esse papel: lançar luz sobre temas complexos e substituir o preconceito pela evidência", orienta.
Polo de pesquisa
Além do rigor técnico, há uma forte conexão afetiva e ambiental em seu trabalho. Daniela enxerga o potencial do Cerrado não apenas como um cenário, mas como um ativo estratégico para a soberania nacional. Suas pesquisas atuais propõem um modelo de desenvolvimento que respeita a biodiversidade local enquanto busca inovação de alto valor agregado.
"Durante muito tempo, pensamos na expansão agrícola apenas em termos de ocupar terra. O desafio agora é ocupar espaços de inteligência. No caso da cannabis, estamos construindo as bases técnicas para uma cadeia produtiva segura, rastreável e adaptada à realidade brasileira, articulando agricultura, saúde, indústria e políticas públicas", pontua.
A visão de Daniela sobre o futuro da cidade é tão estruturada quanto o Plano Piloto. Daqui a uma década, ela projeta uma Brasília que não apenas abriga o poder, mas que exporta inteligência e regulação científica para o mundo. "Gostaria de ver o tema da cannabis tratado com naturalidade e responsabilidade, sob uma perspectiva agrícola e industrial consolidada", projeta.
Para a cientista, o legado de JK de integrar o país ganha, agora, uma nova versão. Se em 1960 a integração foi territorial, as pesquisas de Daniela propõem uma integração pela inteligência, na qual o coração do Brasil se torna o motor de uma soberania tecnológica.
