Mais do que uma área verde de preservação ambiental, a Serrinha do Paranoá tem importância vital para a segurança hídrica do Distrito Federal. Com a sanção da Lei nº 7845/2026, que prevê medidas de capitalização do Banco de Brasília (BRB), a Gleba A da Serrinha, de 716 hectares, foi colocada entre as garantias para possíveis empréstimos solicitados pelo banco para socorro financeiro. A medida causou comoção e mobilização da sociedade, que defende a preservação da Serrinha, e trouxe à tona a relevância hídrica e ambiental desse tesouro do Cerrado. No dia 1º de abril, a governadora Celina Leão (PP) anunciou que iria retirar a Serrinha da lista dos imóveis destinados à capitalização do BRB.
Localizada entre a Região Administrativa (RA) do Varjão e a barragem do Paranoá, a Serrinha do Paranoá conta, no total, com 12.431 hectares e 119 nascentes mapeadas, abastecendo grande parte da região norte do Distrito Federal. A estação de captação de água para abastecimento, criada para ser provisória na época do racionamento de 2017, tornou-se permanente e foi duplicada em 2025.
"A relevância estratégica da Serrinha do Paranoá para o Distrito Federal também está na sua configuração geomorfológica singular. Situada em uma área de topo de chapada, a região atua como um divisor natural de águas, cuja estrutura geológica é responsável por captar, armazenar e distribuir o fluxo hídrico para as regiões adjacentes", explica Lúcia Mendes, diretora da Associação Preserva Serrinha e coordenadora do Fórum de Defesa das Águas, do Clima e Meio Ambiente do DF.
A defesa da Serrinha feita pela Associação Preserva Serrinha é a soma das lutas de moradores das diversas comunidades que vivem na região. "A força desse coletivo não é pequena. Foi aqui, irmanada nessa luta em defesa da terra e das águas da Serrinha, que compreendi Chico Mendes. Quando ele disse que, no início, achava que luta era pra salvar uma seringueira, depois percebeu que era pra salvar uma floresta e ao final compreendeu que lutava para salvar a humanidade", relembrou.
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As nascentes da região alimentam todos os córregos, como o Urubu, Jerivá, Palha e Tamanduá, responsáveis pela manutenção da vazão de base do Lago Paranoá, mesmo em períodos de seca extrema. "Comprometer a região da Serrinha do Paranoá é, na prática, reduzir a vida útil e a capacidade de entrega de água potável para a população do DF, tornando o sistema de abastecimento novamente vulnerável a colapsos em períodos de estiagem ou de eventos extremos", alerta Lúcia.
Parque
No último dia 7 de abril, o Governo do Distrito Federal (GDF) criou, por meio do Decreto nº 48.461, o Parque Distrital da Serrinha. O Parque tem uma área de 65,91 hectares e mais uma zona de amortecimento, dividida em quatro frações, que somam 607,27 hectares. A criação do parque causou polêmica entre ambientalistas e sociedade civil, uma vez que a governadora anunciou a criação do parque para proteger a Gleba A, mas a área delimitada para o parque não inclui a área da Gleba.
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O debate e mobilização social em torno da preservação da Serrinha acendeu o alerta para a importância da conscientização ambiental entre a população do DF. "Espero que os brasilienses, de todas as idades, se envolvam mais nos assuntos da cidade. Que conheçam o território onde moramos. Ninguém protege o que não conhece", defendeu Lúcia Mendes. "Não podemos seguir permitindo que decisões estratégicas e que impactam fortemente o futuro e a qualidade de vida sigam sendo tomadas por alguns setores sem a massiva participação da população", acrescentou.
"A Serrinha do Paranoá é um ativo ambiental estratégico e insubstituível para o Distrito Federal. Sua relevância vai além da biodiversidade e conectividade da paisagem, sendo também crítica para a segurança hídrica e resiliência climática da capital", conclui a presidente da associação.
