Pesquisa

Trabalho de pesquisador da Embrapa deixa legado para o amanhã

Mais do que resgatar alimentos do passado, o trabalho de Nuno Madeira propõe uma ressignificação

Inovação nem sempre significa criar algo inédito — em muitos casos, exige recuperar o que foi deixado para trás. Essa lógica orienta a trajetória do agrônomo Nuno Rodrigo Madeira, de 54 anos, que mora em Brasília desde 2002. Nascido no Rio de Janeiro, ele se mudou para a capital para ingressar na Embrapa Hortaliças, no Gama, onde construiu uma trajetória singular ao apostar em um campo historicamente marginalizado pela ciência agronômica. 

Em um cenário dominado por grandes cadeias produtivas e monoculturas, seu trabalho reposiciona as chamadas plantas alimentícias não convencionais (PANC) como alternativas estratégicas para o futuro da alimentação.

O ponto de inflexão na carreira aconteceu em 2006, quando passou a ser curador de uma coleção de germoplasma de hortaliças não convencionais. "A partir daí, percebi que a preservação dessas espécies não poderia se restringir ao armazenamento em coleções científicas. A conservação efetiva se faz pelo uso", afirma o pesquisador, destacando que o esforço envolve tanto o cultivo quanto a promoção do consumo dessas plantas.

Para Nuno, o alcance dessa proposta extrapola os limites da agronomia convencional e dialoga com diferentes áreas do conhecimento. "O trabalho nasce a partir dos quintais produtivos, tem forte aderência com a agricultura urbana e o paisagismo produtivo, é naturalmente de base agroecológica, multidisciplinar com forte diálogo com a nutrição e ciências da saúde e com a culinária e a gastronomia", descreve.

Nesse processo, espécies antes tratadas como secundárias ganham novo protagonismo. Madeira chama atenção para o fato de que muitas dessas plantas — como Araruta, Mangarito, Ora-pro-nóbis, Taioba, Bertalha, Almeirão-roxo, Língua-de-vaca, Peixinho-da-horta e Inhame-cará — foram progressivamente excluídas da alimentação cotidiana. 

"A perda dessas referências em nossos hábitos alimentares foi ocorrendo lentamente, resultado da urbanização e da verticalização das cidades, da globalização e da massificação da alimentação", analisa. Ao mesmo tempo, ele aponta que esse movimento trouxe consequências concretas para a saúde e para a diversidade alimentar.

Nesse sentido, Brasília aparece como elemento estruturante da trajetória de Nuno. O pesquisador destaca que a configuração da cidade favorece o diálogo entre campo e cidade, potencializando a difusão dessas culturas. "Brasília é uma cidade única, por sua pluralidade, um tanto cosmopolita, um tanto regional, muito urbana, mas também muito agrícola", afirma. Essa característica, segundo ele, cria um ambiente propício para conectar produtores, consumidores e diferentes expressões culturais ligadas à alimentação.

A experiência na capital também ampliou o escopo de sua atuação. Madeira reconhece que, ao longo do tempo, foi necessário expandir o diálogo para além do público técnico. "Dialogar para além da agronomia, não só para agricultores e técnicos da área, mas para cidadãos comuns", pontua, ao destacar a importância de tornar o conhecimento acessível sem perder a consistência científica.

Um episódio específico ajudou a consolidar essa percepção. Em 2008, Nuno participou de uma mesa redonda sobre alimentos tradicionais num evento de gastronomia ligado ao Slow Food no Brasil. O encontro reuniu mais de 600 pessoas e contou com a presença de chefs de diferentes regiões — de Brasília, Pirenópolis e Tiradentes — além dele, então ainda em início de trajetória na pesquisa sobre hortaliças não convencionais. 

Após as exposições, o debate foi marcado por manifestações emocionadas do público e dos profissionais, que destacaram a ausência histórica de apoio científico a essas espécies e reconheceram, naquele momento, uma mudança de postura institucional. "Aquelas declarações me fizeram perceber que eu estava no caminho certo para tentar fazer a diferença, de forma simples mas consistente, de forma coletiva e persistente", relata.

Mais do que resgatar alimentos do passado, o trabalho de Madeira propõe uma ressignificação. Ele próprio sintetiza essa lógica ao relacionar tradição e inovação. "Nosso trabalho tem sido justamente sensibilizar as pessoas", diz, ao enfatizar a importância de reconectar as novas gerações com a origem dos alimentos e com formas mais diversas de produção e consumo.

Ao projetar o futuro, o pesquisador mantém o vínculo com essa proposta, ainda que em outra escala. "Aposentado, mas sempre plantando um quintal produtivo", afirma, ao indicar que o legado que busca consolidar ultrapassa a atuação institucional. Em um contexto de desafios climáticos e alimentares crescentes, sua trajetória aponta para um caminho em que inovação e passado deixam de ser opostos — e passam a operar como parte da mesma estratégia de futuro.

Ed Alves CB/DA Press -
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