Cidades

É possível criar animais exóticos legalmente no Brasil; veja relatos

Amantes de araras, tucanos, papagaios, cacatuas, jabutis e cobras relatam paixão por animais. Até mesmo cobras não venenosas podem ser adquiridas com autorização dos órgãos competentes

Jaqueline Fonseca
postado em 11/07/2020 22:04
 (foto: arquivo pessoal)
(foto: arquivo pessoal)
A bióloga Bruna Rafaela fez cursos no Instituto Butantan e estagiou no Centro de Estudos de Biomoléculas Aplicadas à Saúde (CEBio) da Fiocruz, em Rondônia, onde, entre outras coisas, estuda venenos de serpentesO caso de Pedro Henrique, picado por uma naja na terça-feira (7/7), colocou em evidência o hábito que algumas pessoas têm de criar animais exóticos. Depois do episódio, vários foram apreendidos pela polícia do Distrito Federal ou entregues voluntariamente por seus responsáveis. Nesta sexta-feira (10/7), uma pessoa entregou ao Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Renováveis (Ibama) uma víbora-verde-de-vogel, serpente exótica e venenosa que não tem soro antiofidíco no Brasil.

A legislação ambiental autoriza a criação desse tipo animal exclusivamente para fins comerciais, por instituições farmacêuticas ou para conservação - como quando o animal não tem condições de voltar ao seu habitat. No Brasil, apenas espécies sem veneno podem ser criadas em casa, mediante autorização do órgão ambiental local e do Ibama. A única empresa autorizada a fazer esse tipo de venda no país cobra cerca de R$ 2 mil por filhote de jiboia.

Atualmente, o biólogo e professor universitário Flávio Terrassini possui duas jibóias. No começo do ano, uma terceira serpente de que cuidou por 18 anos morreu. Flávio explica que é possível ter uma cobra legalmente no Brasil. ;Mas, infelizmente, muitas pessoas acabam indo para o lado da biopirataria e importando de outros países, como infelizmente aconteceu no casos do jovem picado pela naja;, observa. As jibóias de Flávio têm um chip de registro junto ao Ibama e são utilizadas para educação ambiental em comunidades, escolas e feiras de ciências. ;A gente administra palestras para orientar a população a não matar esses animais.;

Por meio dessa atividade, ao longo dos últimos anos, nas feiras de ciências, centenas de estudantes tiveram a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre a biologia, as serpentes e outros animais. Uma dessas pessoas foi a jovem Bruna Rafaela. Hoje, aos 24 anos, é graduada em biologia. Fez cursos no Instituto Butantan e estagiou Centro de Estudos de Biomoléculas Aplicadas à Saúde (CEBio) da Fiocruz, em Rondônia, onde, entre outras coisas, estuda venenos de serpentes.
;Houve uma feira de ciências na minha escola e foi uma das barracas que mais chamou a minha atenção... aliás, eu nem lembro do que tinha nas outras barracas, só lembro da barraca da biologia. E lá havia várias Morpho que são borboletas azuis e aquilo me deixou encantada. Tinha várias mariposas belíssimas, tinha as cobras. Os alunos que estavam nas tendas me encantaram. Eu falei: ;Nossa, é isso que eu quero da minha vida;. Ser bióloga mudou minha vida, mudou meu jeito de ver as coisas;, relata a jovem.

Sobre o recente episódio, em que o estudante de medicina veterinária foi picado pela cobra da espécie naja, ela pondera: "Às vezes quem cria esses bichos se acha como um Deus por ter esses animais exóticos, mas, depois, o bicho dá bote e a pessoa pode até morrer;. Questionada sobre a razão que pode levar uma pessoa a esse tipo de aquisição, ela critica: ;Normalmente, as pessoas compram para alimentar o ego mesmo, se sentirem poderosas por ter um animal tão venenoso em casa;.

Quem também não concorda em manter desse tipo de animal peçonhento em casa é o empresário Bernardo Prieto, de 35 anos. Ele mora no Jardim Botânico e cuida de vários animais, muitos deles exóticos. Ele tem cachorros, araras, tucanos, papagaios, cacatuas e até um pônei. Há mais de 30 anos, se dedica à criação, tendo começado com um jabuti e, depois, um papagaio, ainda nos primeiros anos de vida.
Ele diz que ama todos os tipos de animais, mas nunca quis ter um peçonhento. ;Um cachorro pode levar um susto e querer te morder. Estar com dor e você pegar onde ele tá com dor e aí ele pode te morder. Se uma cobra tiver ruim e você pegar nela e ela te picar? O que acontece? Você morre? E aí? É muito perigoso, não concordo.;
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