Cidades

Naja como a que picou jovem no DF é vendida na internet por até R$ 7 mil

Mensagens monitoradas por ONG revelam lucrativo mercado clandestino de serpentes, como a que picou estudante no Distrito Federal, e de outros animais que atraem cada vez mais os jovens

Hellen Leite
postado em 12/07/2020 07:00
ONG infiltrou-se em 250 grupos de WhatsApp brasileiros dedicados à comercialização de animais silvestres e exóticos, que comercializam najas como a que picou PedroBrasília tem acompanhado uma história que, a princípio, parecia um assustador acidente doméstico, mas mostrou-se algo mais assombroso. Na última terça-feira, Pedro Henrique Santos Krambeck Lehmkuhl, 22 anos, foi picado por uma cobra naja e entrou em coma. Mas, além da equipe médica que agiu para salvar a vida do rapaz, o episódio mobilizou também a Polícia Civil do Distrito Federal e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), que precisaram entender como a serpente, de origem asiática, havia chegado à casa do estudante de medicina veterinária.

A busca pela resposta revelou dezenas de animais mantidos em criadouros clandestinos, incluindo cobras de várias espécies, lagartos, enguias e até tubarões. Um novelo cujo desenrolar parece levar a um esquema de tráfico de animais silvestres na capital do país.

[FOTO1634882]A prática de tráfico internacional de animais ainda não foi comprovada, mas especialistas que atuam no combate a essa atividade veem todos os sinais do crime na história brasiliense. Nos últimos anos, cresceu imensamente o interesse de brasileiros por serpentes exóticas, dando uma nova cara a esse mercado clandestino no país.

;O Brasil, por ser grande detentor de biodiversidade, sempre figurou como exportador de animais exóticos vendidos ilegalmente. O que tem mudado nos últimos anos é o papel do Brasil, que passou a ser, também, importador ilegal de animais;, diz o coordenador-geral da Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas), Dener Giovanini.

Durante cinco meses, a ONG de Giovanini infiltrou-se em 250 grupos de WhatsApp brasileiros dedicados à comercialização de animais silvestres e exóticos e acompanhou mais de 3,5 milhões de mensagens. A maioria dos grupos é intermediada por comunidades do Facebook, que chegam a reunir mais de 100 mil pessoas. Chama a atenção a crescente presença de jovens nas negociações clandestinas. ;Eles têm se tornado, cada vez mais, colecionadores de serpentes. E, como em todo hobby, existem os troféus, que são as mais perigosas, mais peçonhentas e mais difíceis de achar;, diz o coordenador.


"Tráfico de serpentes é uma questão que está intimamente ligada à vaidade e os jovens têm se tornado cada vez mais ;hobbystas; de serpentes. O animal se transforma em troféu. Nesse caso, o troféu são as serpentes mais perigosas, mais peçonhentas e mais difíceis de achar" - Dener Giovanini - coordenador geral da Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas)

Imporante lembrar também que no Brasil é possível fazer a criação de animais exóticos de forma legal.

;Não é barato;

No monitoramento ; ocorrido entre abril e agosto de 2019 e que rendeu uma denúncia encaminhada à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal ;, a ONG descobriu que uma naja africana ou asiática custa até R$ 7 mil no mercado ilegal. Se a cobra for nascida em território brasileiro, em criadouro clandestino, é negociada a preços mais baixos, com um filhote valendo em torno de R$ 1 mil. Em um dos anúncios captados pela Renctas, uma naja de monóculo, a mesma espécie que picou Pedro Henrique, é oferecida com um alerta: ;Não é barato. Não é para quem começou o hobby agora. Tenho casal disponível;.

[FOTO1635469]Cartões de crédito e débito e depósitos em conta bancária são os métodos mais comuns de pagamento, mas relógios e joias também são aceitos em troca ou como parte do valor pago pelos animais. É comum, ainda, os traficantes de serpentes agendarem encontros para a entrega de animais peçonhentos em shopping centers, transportando-os em mochilas.

Ainda segundo levantamento do Renctas, as serpentes que chegam ao Brasil são provenientes, principalmente, da África, Ásia e Austrália, e entram no país pelas fronteiras com Suriname, Guiana e Uruguai. Entre as exóticas regularmente traficadas estão as najas, a king snake (cobra-rei), as mambas-negras e verdes, a víbora-do-gabão e a taipan-do-interior, considerada a espécie mais venenosa do mundo. Essas são serpentes que se adaptam bem ao Brasil, e o monitoramento identificou a queda no preço desses animais, um sinal de que estão sendo reproduzidas em cativeiro no país.

Riscos ambientais

Estima-se que o tráfico de animais silvestres movimente, aproximadamente, US$ 20 bilhões por ano em todo o mundo. O Brasil, acredita Giovanini, é responsável por 15% desse mercado, que, além de expor os animais a situações de maus-tratos, gera uma série de riscos, tanto para quem compra quanto para a população em geral. Animais, quando não manejados adequadamente, podem escapar e entrar em residências. O crime também ameaça o equilíbrio ecológico e eleva os riscos sanitários para a população.

;A interação entre animais e o ser humano não é considerada boa porque animais silvestres podem ser vetores de doenças letais para os seres humanos. A mesma coisa é o inverso, quando o homem invade o habitat do animal, ele também está sujeito a adquirir doenças. É o caso do novo coronavírus, por exemplo, que surgiu, possivelmente, da interação entre o animal silvestre e o homem;, ressalta o biólogo Jair Neto Vieira.

Existe, também, o risco evidente para quem adquire um animal silvestre, como mostrou o episódio com Pedro Henrique. ;É uma situação complexa e grave. A história ocorrida em Brasília serve para alertar pais de jovens e adolescentes, principalmente porque não há soro antiofídico no Brasil para alguns desses animais traficados;, ressalta Marco Freitas, herpetólogo e analista ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

Víbora asiática Trimereresurus, cobra venenosa sem antiofídico no Brasil foi entregue ao Ibama na sexta-feira (10)Freitas diz não ter dúvidas sobre a existência de uma rede de tráfico de animais no DF. ;Brasília está vivendo o caos do tráfico de animais. O que se descobriu não é nem a ponta do iceberg ainda;, afirma. A mesma certeza tem o delegado Willian Ricardo, da 14; Delegacia de Polícia (Gama), responsável pelas investigações iniciadas após o episódio da naja. ;Os envolvidos não disseram como conseguiam as serpentes. Há suspeitas de que, possivelmente, eles iam comercializar as cobras apreendidas;, diz.
"Brasília é cercada por unidades de conservação. Se um animal como a king snake (cobra originária da América do Norte) se adapta ao ambiente do Parque Nacional, por exemplo, ela vai competir, predar e extinguir espécies nativas. O que vai ajudar no desequilíbrio ecológico e levar doenças para as nossas espécies que não têm defesa" - Marco Freitas, herpetólogo e analista ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio)
De janeiro a dezembro de 2019, o Batalhão de Polícia Militar Ambiental (BPMA) resgatou 2.925 animais silvestres em todo o Distrito Federal. Foram 1.274 aves, 980 mamíferos e 671 serpentes. Em comparação com o ano anterior, que somou 2.346 resgates, houve um aumento de 24,68%.

Tanto manter animais silvestres presos quanto traficar são crimes ambientais. A pena varia de seis meses a um ano de detenção, multa e assinatura de termo circunstanciado de ocorrência (TCO), com o compromisso de se apresentar em juízo quando intimado. Em caso de maus-tratos, a multa é de R$ 500 a R$ 5 mil.

; Entrega voluntária

A legislação brasileira permite a criação de serpentes como animais de estimação, contanto que não sejam peçonhentas. Para isso, o interessado deve solicitar autorização ao órgão ambiental estadual (no Distrito Federal, o Instituto Brasília Ambiental) e seguir regras para a criação, como mantê-la em local apropriado.

Quem mantém animais silvestres ou exóticos de forma irregular pode fazer a entrega voluntária ao Ibama em todas as unidades do país, sem sofrer punição. A população também pode denunciar suspeitas de criação pela Linha Verde, no telefone 0800-618080, no 190 ou pelo (61) 9 9351-5736 (telefone e WhatsApp do Batalhão de Polícia Militar Ambiental).

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