Uma equipe internacional de cientistas concluiu, entre abril e junho de 2023, uma das explorações geológicas mais importantes dos últimos anos. A Expedição 399 do Programa Internacional de Descoberta Oceânica (IODP) perfurou a crosta oceânica e coletou o mais longo núcleo de rochas do manto já obtido, com quase 1,5 km. A missão, realizada no Oceano Atlântico, está revolucionando o entendimento sobre a formação da Terra e os processos que moldam o planeta.
A operação utilizou o navio de perfuração JOIDES Resolution no Atlantis Massif, uma montanha submarina na Cordilheira Mesoatlântica. A escolha do local foi estratégica: falhas tectônicas na região expuseram rochas profundas do manto muito mais perto da superfície do fundo do mar. Isso tornou o acesso viável, já que a crosta oceânica é naturalmente mais fina que a continental.
Por que a missão foi tão importante?
Até esta expedição, o conhecimento sobre o manto era baseado em estudos indiretos, como ondas sísmicas, ou na análise de rochas expelidas por vulcões. Coletar amostras de rochas do manto que afloraram, mas que não foram alteradas pela atmosfera, permite analisar sua composição química e propriedades físicas com uma precisão sem precedentes, oferecendo respostas diretas sobre a dinâmica interna do nosso planeta.
A perfuração aprofundou um buraco já existente, o U1309D, atingindo 1498 metros abaixo do fundo do mar. As condições foram extremas, com alta pressão e temperaturas que chegaram a cerca de 140°C. A tecnologia a bordo do navio foi crucial para suportar esse ambiente hostil e garantir que as amostras fossem trazidas à superfície sem contaminação.
Principais objetivos e descobertas
- Investigar a origem da vida: Analisar como a interação entre a água do mar e as rochas do manto (um processo chamado serpentinização) gera hidrogênio e metano, compostos que podem ter sido o combustível para as primeiras formas de vida na Terra. O local é próximo ao famoso campo hidrotermal Cidade Perdida (Lost City).
- Caracterizar a biosfera profunda: Identificar os limites da vida microbiana em ambientes de alta pressão e temperatura, explorando um ecossistema único que existe sem luz solar.
- Entender a formação da crosta oceânica: Estudar o ciclo de vida de uma falha tectônica que expõe o manto, o que ajuda a compreender a dinâmica das placas e o ciclo do carbono no planeta.
A expedição foi um sucesso, alcançando uma fronteira geológica importante e abrindo um novo capítulo na exploração do nosso próprio planeta. As descobertas estão reescrevendo o que sabemos sobre a geologia da Terra e fornecendo uma visão muito mais clara das forças que operam sob nossos pés, com implicações que vão da origem da vida aos ciclos climáticos globais.










