A recente aprovação da lei que torna o vicaricídio um crime hediondo no Brasil joga luz sobre uma das mais cruéis formas de violência contra a mulher: o assassinato de um filho para causar seu sofrimento. Para as mães que sobrevivem, a perda se transforma em um trauma psicológico profundo, com sequelas que podem durar a vida inteira. O reconhecimento legal é um passo importante, mas a jornada de recuperação dessas mulheres exige atenção e cuidado especializado.
O impacto inicial vai muito além do luto. Muitas mulheres desenvolvem um quadro severo de Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), revivendo o evento através de pesadelos e flashbacks. A dor pode evoluir para uma depressão profunda, ansiedade generalizada e crises de pânico, tornando as atividades mais simples do dia a dia um desafio imenso.
A complexidade desse trauma está na sua origem. A violência foi planejada e executada por alguém em quem a vítima, em algum momento, confiou. Isso quebra a percepção de segurança no mundo e nas relações interpessoais, gerando um estado de hipervigilância constante e um profundo sentimento de isolamento.
O luto que não tem nome
Diferente de outras perdas, o luto no vicaricídio é frequentemente atravessado por um sentimento avassalador de culpa. A mãe pode se questionar se poderia ter evitado a tragédia, um pensamento irracional imposto pela manipulação do agressor. Esse cenário cria o que é chamado de luto complicado, um estado em que a dor da perda não diminui com o tempo e paralisa a vida da sobrevivente.
O ato de matar uma criança para atingir a mãe é a expressão máxima do controle e da posse. Para a mulher que fica, o sofrimento é a arma que o agressor continua usando mesmo após o crime. Por isso, o processo de cura envolve não apenas lidar com a ausência do filho, mas também se libertar da violência psicológica que permanece.
Caminhos para a recuperação após o vicaricídio
A recuperação exige uma abordagem multidisciplinar e uma forte rede de apoio. Embora a jornada seja longa e individual, alguns pilares são fundamentais para ajudar a mulher a ressignificar sua vida. O tratamento adequado é essencial para que a sobrevivente consiga reconstruir sua saúde mental e seguir em frente.
- Acompanhamento psicológico: a terapia é crucial para processar o trauma, lidar com a culpa e aprender a manejar os sintomas do TEPT e da depressão.
- Tratamento psiquiátrico: o uso de medicamentos pode ser necessário para estabilizar o humor e controlar os sintomas de ansiedade, permitindo que a mulher tenha condições de participar ativamente da psicoterapia.
- Grupos de apoio: compartilhar a experiência com outras mulheres que passaram por situações semelhantes ajuda a reduzir o isolamento e a validar os sentimentos, mostrando que ela não está sozinha.
- Rede de suporte familiar e social: o amparo de amigos e familiares, que ofereçam escuta sem julgamento e apoio prático, é vital para a reconstrução emocional e social da sobrevivente.
Canais de denúncia e apoio, como o Disque 180 (Central de Atendimento à Mulher) e centros de referência especializados, também são fundamentais para oferecer orientação jurídica e psicológica, garantindo que a mulher não esteja desamparada durante esse processo.










