Covid-19

Presidente do Albert Einstein estima liberação de vacinas em março

Mesmo com candidatas já anunciando eficácia de imunizantes na fase três de testes, o médico Sidney Klajner alerta para o processo de aprovação pelas agências reguladoras, elaboração de logística e adesão popular

Bruna Lima
postado em 26/11/2020 17:53 / atualizado em 26/11/2020 17:54
 (crédito: YouTube/Reprodução)
(crédito: YouTube/Reprodução)

As chances de uma vacina eficaz e segura contra a covid-19 se tornam cada vez mais promissoras. O que parecia ser uma expectativa distante meses atrás, começa a ganhar contornos evidentes de que a humanidade terá acesso a um imunizante em 2021. Por mais que farmacêuticas estejam anunciando resultados animadores, ainda é necessário aprovação por parte das agências reguladoras, bem com elaboração de logística e adesão da população, o que só deve viabilizar a vacina a partir de março. Vale destacar, também, que uma imunização rebanho não é esperada já para o primeiro semestre de 2021. É o que pondera o presidente do Hospital Albert Einsten, o médico Sidney Klajner.

"Estima-se que, para ter a liberação, a chancela da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), isso aconteceria em meados de março do ano que vem, aqui no país. Essa talvez seja a previsão mais realista que eu tenho, participando das conversas com a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), que tem acordo de produção da vacina de Oxford, e também com o Butantan, que tem a intenção e projeto de implementação da fábrica que vai produzir a vacina da CoronaVac", disse Klajner durante participação em videoconferência da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban) nesta quinta-feira (26/11).

A imunização de rebanho por meio da vacina, quando grande parte da população adquire resistência ao vírus de maneira artificial, controlada e segura, é vista pelo médico como chave para permitir que o mundo conviva de maneira normal com a covid-19, assim como acontece com diversas viroses e o H1N1. Apesar de ser definida como "uma luz no fim do túnel cada vez mais próxima", a esperança depositada no imunizante não pode servir como gatilho para que a população se sinta à vontade para abandonar medidas de prevenção do contágio, esclarece.

"Transmitir a sensação de que agora falta pouco e que, então, eu posso afrouxar as medidas de proteção porque a vacina está chegando, isso faz mal. Não podemos abaixar a guarda achando que, já que a vacina vai chegar logo, agora não estamos sob risco", ponderou Klajner, alertando para o novo momento de aumento de casos e o fato de que será necessário uma série de medidas para possibilitar uma imunização em massa. "A distribuição vai depender da logística; dos insumos que giram em torno da administração da vacina, com agulhas, seringas; da capacitação profissional para administração; e um dado que pouco tem se falado, da credibilidade da nossa população em ir tomar a vacina".

Mesmo quando toda a população estiver imunizada, o médico acredita que será necessário incorporar determinados hábitos para evitar transmissão, sobretudo pela demonstração, cada vez mais frequente, de reinfecções e mutações do vírus. "Acredito que depois da pandemia, mesmo com a vacina, a gente continue adotando medidas de proteção para prevenir essa e outras doenças".

Outra abordagem ressaltada pelo médico é de que, mais para frente, talvez se descubra que a combinação de diferentes imunizantes traga uma imunidade mais duradoura, ou que determinadas vacinas sejam mais eficientes para certos grupos. Para se avançar nesse sentido, é necessário, no entanto, que os estudos sejam publicados e os detalhes avaliados para, assim, definir as melhores estratégias vacinais.

Ganhos

Para o presidente do Albert Einstein, o fato de o país ter sido palco de ensaios é uma vantagem que trouxe proximidade com farmacêuticas, possibilitando acordos de transferência de tecnologia. É o caso da CoronaVac e da candidata da AstraZeneca. "O Brasil será base capaz de produzir 300 milhões de doses de vacina ao longo de 2021, o que vai para permitir fornecimento posterior de vacina para América Latina".

Para serem incorporadas, as candidatas da Moderna e Pfizer precisarão vencer uma barreira de logística, de armazenamento, pois exigem temperaturas entre -20 °C e -70 °C. No entanto, Klajner destaca a importância dessas vacinas, baseadas em tecnologia RNA para o mundo. "Entende-se que essas novas tecnologias vão lidar com essa capacidade de mutação do vírus de uma maneira melhor do que as vacinas que já existem até a data de hoje". Por isso, o médico acredita que esta é uma das grandes oportunidades que a pandemia trouxe, "fazer em um tempo extremamente recorde a criação e o teste de vacinas com tecnologias que ainda não existiam".

Lente de aumento

A crise de saúde também deixa uma lição mundial. "A pandemia jogou lente de aumento em tudo que é eficiente e o que não é. Temos que aproveitar a oportunidade do destaque dado naquilo que não é eficiente e trabalhar a eficiência". Nesse contexto, o médico destaca para a necessidade dos cuidados com doenças crônicas, obesidade e com a saúde, de forma geral, a fim de evitar comorbidades que agravam quadros como o da covid-19.

Ainda, citou que o momento lançou luz sobre os cortes nos orçamento de pesquisas, tão necessárias neste contexto pandêmico. "Então existe, sim, uma série de ações que podemos aprender da pandemia para o futuro, uma avenida para trabalhar aquilo que na pandemia ficou exposto de forma muito real".

"Talvez a reflexão que fique é que a ciência tem que ser avaliada como única condição capaz de trazer respostas confiáveis para atuação numa crise de saúde. É necessário valorizar a ciência, o incentivo à pesquisa, a retenção dos nossos pesquisadores aqui", concluiu Klajner.

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