Direitos Humanos

FGV: mais pobres sofrem maior impacto na pandemia

A pesquisa Desigualdade de Impactos Trabalhistas na Pandemia, mostrou de forma ampla a desigualdade na pandemia no Brasil

Agência Brasil
postado em 09/09/2021 18:03 / atualizado em 09/09/2021 18:04
 (crédito: REUTERS/Amanda Perobelli)
(crédito: REUTERS/Amanda Perobelli)

A pandemia da covid-19 provocou um choque de grandes proporções não só pela sua intensidade como pela sua abrangência geral e as pessoas foram impactadas em diferentes estratos sociais, localidades e aspectos de suas vidas, mostra a pesquisa Desigualdade de Impactos Trabalhistas na Pandemia, coordenada pelo diretor da Fundação Getúlio Vargas Social (FGV Social), Marcelo Neri. Segundo o levantamento, a pressão maior ficou para os mais pobres.

A intenção dos pesquisadores foi mostrar "uma visão ampla e atual da desigualdade de impactos trabalhistas da pandemia no Brasil". O estudo divulgado hoje (9), indicou, que na média de 2019 a proporção de pessoas com renda abaixo da linha de pobreza era de 10,97%, antes da pandemia, o que representa cerca de 23,1 milhões de pessoas na pobreza.

No melhor ponto da série, em setembro de 2020, por causa do auxílio emergencial com valor mais alto, o número de pessoas abaixo da linha de pobreza caiu para 4,63%, ou 9,8 milhões de brasileiros. Já no primeiro trimestre de 2021, momento de suspensão do auxílio emergencial, mas devolvendo o Bolsa Família, atingiu 16,1% da população, ou 34,3 milhões de pobres.

Na visão dos pesquisadores, "os dados mostram um cenário desolador no início de 2021, quando em seis meses o número de pobres é multiplicado por 3,5 vezes, correspondendo a 25 milhões de novos pobres em relação aos seis meses anteriores". Com o retorno do auxílio emergencial, embora em valores menores, e com duração limitada a partir de abril de 2021, o percentual cai para 12,98%, ou 27,7 milhões de pobres, patamar pior do que antes da pandemia.

Renda

De acordo com a pesquisa, a renda individual média do brasileiro, entre informais, desempregados e inativos está atualmente 9,4% abaixo do nível registrado no final de 2019. Na metade mais pobre da população, a perda de renda atingiu -21,5%, o que conforme o estudo configura o aumento da desigualdade entre a base e a totalidade da distribuição.

Ao longo da pandemia, a queda de renda entre os 10% mais ricos ficou em -7,16%, e representa menos de 1/3 da queda de renda da metade mais pobre. Já na faixa que se compara com a classe média no sentido estatístico, a queda de renda ficou em 8,96%, cerca de 2,8 pontos percentuais (p.p) de perda acima do extremo superior.

O professor Marcelo Neri afirmou que o aumento do desemprego foi a causa de pouco mais da metade (-11,5%) da queda de renda de - 21,5% dos mais pobres, muito pelo reflexo do contingente expressivo de trabalhadores que deixou o mercado de trabalho sem perspectiva de encontrar uma vaga ou de exercer trabalho durante a pandemia.

"Nesse forte aumento de desigualdade o principal elemento é a ocupação, em particular o aumento do desemprego é o que explica metade dessa queda de renda dos pobres. Além disso, muita gente saiu do mercado de trabalho porque não pôde exercer uma ocupação ainda por causa da pandemia", afirmou, em entrevista à Agência Brasil.

Desalento

A pesquisa apontou ainda que o efeito desalento ocasionou a queda de renda 8,2 pontos percentuais na metade mais pobre, enquanto na média geral a perda ficou em 4,7 pontos, "sendo a segunda causa mais importante para a deterioração do binômio média e desigualdade trabalhista". A redução de renda dos ocupados por hora, em consequência da aceleração da inflação e desemprego, incluindo a diminuição da jornada de trabalho, também contribuíram para impactar mais fortemente a renda na metade mais pobre.

Segundo a pesquisa, os principais perdedores foram os moradores da Região Nordeste com -11,4% de perda de renda. No Sul atingiu -8,86% . No gênero, as mulheres que tiveram jornada dupla de cuidado das crianças em casa apresentaram perda de -10,35% contra -8,4% dos homens. Por idade, a necessidade de se retirarem do mercado de trabalho por causa de maior fragilidade em relação à covid-19, os idosos com 60 anos ou mais perderam -14,2% .

Desigualdade

O índice de Gini, que mede a desigualdade e já havia aumentado de 0,6003 para 0,6279 entre os quartos trimestres de 2014 e 2019, saltou na pandemia atingindo 0,640 no segundo trimestre de 2021, ficando acima de toda série histórica pré pandemia.

Estagflação

A combinação adversa de inflação alta e desemprego elevado leva à estagflação que é mais um fator de impacto nos mais pobres, em um momento de choques de oferta juntando a pandemia, possibilidade de racionamento e reflexos das manifestações de caminhoneiros causando efeito no abastecimento. A pesquisa mostrou que a recente aceleração das taxas de desemprego e de inflação teve consequências distributivas.

Nos 12 meses terminados em julho de 2021, a inflação dos pobres ficou em 10,05%, 3 pontos percentuais (p.p) maior que a inflação da alta renda, segundo estimativas do Ipea. Nos nossos cálculos, a taxa de desemprego da metade mais pobre subiu na pandemia de 26,55% para 35,98%. Já entre os 10% mais ricos a mesma foi de 2,6% para 2,87%.

"A gente está meio entre a cruz e a espada, com desemprego alto e inflação alta. A gente vai precisar aumentar a taxa de juros e até aumentar o desemprego para desaquecer e tentar combater a inflação. Mas ao fazer isso o desemprego piora. É um pouco um certo cobertor curto, que não só tem que puxar, mas o cobertor encolheu nessa situação de estagflação", observou.

O diretor da FGV Social chamou atenção para a queda de renda ser maior que a do PIB e para o aumento da desigualdade. "Os mais pobres sofreram mais e quando a gente abre o efeito que caracteriza o atual de estagflação, ela também é mais séria entre os mais pobres. Aí por uma série de coisas, como o movimento dos caminhoneiros, o racionamento de energia, são o que a gente chama de choque de oferta e eles são muito ruins porque piora tudo, piora a inflação e o desemprego também", completou.

Perspectiva

O professor destacou que a taxa de juros passa a ser o instrumento para buscar a redução da taxa de inflação, mas junto com o combate vem o aumento do desemprego formando um círculo vicioso, que já produziu impacto nos mais pobres. "Taxa de juros é instrumento para combater a inflação, só que essa situação pode ser vista como o encolhimento do cobertor, que já era curto e em que se perde nas duas frentes. Esse encolhimento, foi ainda maior entre os mais pobres. É uma situação preocupante olhando para frente", disse.

 

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