A queda de um menino autista de 4 anos do 10º andar de um prédio residencial em São Paulo não é apenas um episódio dramático que mobilizou equipes de resgate e profissionais de saúde. O caso, que terminou com a criança viva, mas gravemente ferida, escancara uma realidade pouco compreendida fora do círculo familiar: a rotina de vigilância permanente, exaustiva e solitária vivida por muitas famílias que convivem com o autismo, especialmente quando se trata de crianças não verbais.
O acidente ocorreu no fim de dezembro e ganhou repercussão nacional após a mãe do menino relatar, em entrevista ao programa Fantástico no domingo (1º/2), a dor e o impacto emocional provocados não apenas pela queda, mas também pelas reações públicas ao episódio.
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“As pessoas não sabem o que é conviver com um autista”, desabafou. Segundo ela, a supervisão constante faz parte do cotidiano, mas não elimina totalmente os riscos, sobretudo quando o comportamento da criança é imprevisível e marcado pela exploração do ambiente sem percepção de perigo.
O menino caiu após acessar a janela de um banheiro do apartamento onde mora com a família. Ele foi socorrido consciente e levado ao hospital, onde passou por cirurgia após sofrer fraturas graves nas pernas. O estado de saúde é estável, mas o processo de recuperação ainda é longo. O caso segue sob apuração para esclarecer as circunstâncias do acidente.
Mais do que discutir responsabilidades imediatas, situações como essa revelam lacunas na compreensão social sobre o autismo. Crianças no espectro, especialmente aquelas com dificuldades de comunicação, podem apresentar comportamentos impulsivos ou exploratórios que exigem adaptações rigorosas no ambiente doméstico. Ainda assim, mesmo com medidas de segurança, acidentes podem acontecer, o que costuma desencadear uma onda de julgamentos dirigidos às famílias, sobretudo às mães.
A mãe do menino relata que, além do trauma do acidente, enfrentou comentários que reforçam a culpabilização individual, ignorando a complexidade do cuidado. O episódio, segundo ela, expõe o isolamento vivido por muitas famílias, que lidam diariamente com sobrecarga emocional, vigilância constante e falta de apoio estrutural.
No Brasil, embora o autismo seja reconhecido legalmente como uma deficiência e haja avanços nas políticas públicas, o suporte oferecido às famílias ainda é considerado insuficiente por especialistas e entidades da área. Falta orientação acessível sobre segurança doméstica, redes de apoio comunitário e acolhimento efetivo no sistema de saúde e na sociedade em geral.
Estresse comparável ao de soldados em guerra
Viver em constante alerta, tentando equilibrar cuidado e proteção, em um contexto ainda marcado pela desinformação e pelo julgamento leva as famílias a um estado crítico de exaustão crônica.
Um estudo realizado pela University of Wisconsin–Madison (EUA) identificaram que mães de pessoas autistas vivenciam níveis de estresse crônico que, em marcadores fisiológicos, se assemelham ao estresse observado em soldados em zonas de combate.
A pesquisa analisou experiências diárias de mães de filhos com transtorno do espectro autista, medindo indicadores como eventos estressantes frequentes, interrupções no trabalho e padrões hormonais associados ao estresse. Em comparação com mães de crianças sem deficiência, aquelas que cuidam de filhos autistas relataram mais eventos estressantes por dia, maior fadiga e menos tempo para si.
Com isso, os perfis de cortisol dessas mães, um hormônio ligado à resposta ao estresse, mostraram padrões semelhantes aos registrados em populações submetidas a estresse prolongado, como militares em serviço ativo.
Esses achados ajudam a explicar, com base científica, por que as mães atípicas experimentam desgaste físico e emocional intenso ao longo do tempo e reforçam a necessidade de políticas e redes de apoio que considerem esse impacto profundo na saúde e na qualidade de vida familiar.
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