Entrevista

'Bons filmes autorais podem ser populares', diz diretor de O agente secreto

Cineasta Kleber Mendonça Filho fala da expectativa em relação ao Oscar 2026 e comemora a marca de 2 milhões de espectadores no Brasil

A primeira lembrança do Oscar na mente do cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho é a cerimônia de 1979, que assistiu com a mãe na casa de uma amiga. "Foi quando Superman (de Richard Donner), que eu tinha assistido, ganhou na categoria Montagem ou Efeitos Especiais (prêmio especial de Efeitos Visuais). Foi, também, quando vi cenas de filmes que eu não podia ver na época, como O expresso da meia-noite e O franco-atirador (de Michael Cimino, vencedor na categoria de Melhor Filme naquele ano)".

Outra lembrança marcante do diretor de O agente secreto, que concorre a quatro estatuetas douradas em 2026, é o Oscar de 1991. "Tinha certeza de que Os bons companheiros, do (Martin) Scorsese, iria ganhar múltiplos prêmios (tinha seis indicações e ganhou apenas o de Ator Coadjuvante, com Joe Pesci) e, com certeza, o de Melhor Montagem. Mas quem venceu foi Dança com lobos (de Kevin Costner). Ali entendi que essas coisas podem não ser justas e, muitas vezes, não são. Aquilo me ensinou muito", observa.

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Por isso, o espírito de Kleber Mendonça para a presença de seu filme na maior premiação da indústria cinematográfica, a ser realizada em Los Angeles em 15 de março, é o de "participar de uma conversa" com outros realizadores de produções que se destacaram mundialmente nos últimos meses. "Estou me sentindo muito à vontade e confortável de participar dessa conversa", revela, em entrevista ao Estado de Minas, antes de nova rodada de divulgação do longa-metragem nos Estados Unidos. Maior sucesso de bilheteria dos longas dirigidos por Kleber, O agente secreto bateu, nesta semana, a marca a 2 milhões de espectadores no Brasil. "Esses 2 milhões me deixam muito feliz porque é exatamente o que eu sempre quis colocar em prática. Sempre achei que bons filmes autorais podem ser filmes populares", afirma o diretor de O som ao redor, Aquarius, Retratos fantasmas e Bacurau.

O que O agente secreto está fazendo no Oscar? Que cinema - e que cultura - ele representa?

O agente secreto é um filme brasileiro que tem tido exposição internacional e uma carreira de muito prestígio. Acho que fizemos um bom filme, e há outros bons filmes nessa temporada. Estou me sentindo muito à vontade e confortável de participar dessa conversa.

Como viu a indicação na inédita categoria Melhor direção de elenco? O que representa mostrar dezenas de rostos brasileiros nas telas de todo o mundo?

Significa exatamente isso que você perguntou. Acho que cada filme traz uma quantidade potencialmente interessante, importante e relevante de "caras". Quando vejo um filme britânico, espero ver as caras da Grã-Bretanha. Dependendo do cineasta, posso até adivinhar que tipo de rostos vamos ver. A mesma coisa com filmes da União Soviética ou da Austrália — onde se torna dramático, porque tem a população branca e a população dos nativos, as First Nations. Penso muito quando faço um filme, porque sou brasileiro, sou completamente fascinado pelo povo brasileiro. Então, desde O som ao redor, penso muito nas caras, nos corpos, no tipo de gente que vai aparecer. Eu me sentiria preso, claustrofóbico, se mostrasse só um tipo de brasileiro. Sempre estive muito feliz desde o processo de casting feito com Gabriel Domingues. O som ao redor tem essa multiplicidade de caras; Aquarius também, mesmo sendo focado na personagem de Sônia Braga, ela interage com muita gente. Bacurau, codirigido por Juliano Dornelles, foi onde realmente acho que consegui meu "mestrado". É um filme que tem um tesouro humano cristalino. E agora, isso está muito evidente e comentado em O agente secreto, com essa indicação (ao Oscar de Melhor elenco).

Você falou, ao receber o Globo de Ouro, que os jovens realizadores norte-americanos devem registrar o que está acontecendo no país deles neste momento. Por quê?

Na verdade, a dedicatória foi para os jovens cineastas. É claro que penso, em primeiro lugar, no Brasil: meninos e meninas que estão desenvolvendo ideias, pensando em fazer cinema, em pegar uma câmera e fazer alguma coisa, escrever. Mas, como eu estava nos Estados Unidos, também dediquei aos jovens cineastas de lá. Acho que, toda vez que existe um momento de crise, abrem-se janelas muito largas para você olhar para esse momento. Isso, geralmente, nos traz muitas possibilidades de tensão, de dramaticidade. Acho que é um grande momento para fazer cinema, para fazer observações sobre a vida em sociedade.

Seus dois longas de ficção mais recentes não se passam nos dias de hoje. O projeto ficcional que você pretende desenvolver, no Recife pré-nazismo, também não. Filmar o tempo presente pode ser menos estimulante do que recriar o passado ou imaginar um futuro próximo?

Talvez eu esteja, de fato, me sentindo muito atraído pela ideia de desconfigurar o presente. Fazer um filme como Bacurau, que se passa no futuro, coloca você um grau acima da realidade, o que é muito prazeroso e muito saudável também. Acho que a própria ideia de borrar a lógica da sociedade — piorá-la de alguma forma, repensá-la — e, também, fazer a mesma coisa em direção ao passado, é algo que me estimula muito. Mas isso não descarta a possibilidade de eu querer fazer um filme que se passe no presente e, da mesma maneira, borrar a realidade do presente com o cinema. Tenho um interesse muito grande em unir o realismo extremo com o cinema extremo.

Qual foi a sequência mais complexa de filmar? E qual a sua cena favorita?

O filme todo foi muito complexo de filmar. Mas acho que a complexo de ter 110% de processamento e raciocínio é a sequência de Elsa entrevistando e pegando o depoimento de Armando no apartamento do (Cinema) São Luiz.. Aquilo ali tinha uma responsabilidade enorme minha. Acho que os atores também sentiam essa responsabilidade, mas eu estava ali como diretor, roteirista e montador, administrando cada olhar, cada palavra, cada frase. Pedi ao Wagner que pensasse muito. É, também, uma sequência que se passa em três tempos históricos: 1977, 1974 e 2024/2025, no futuro. E tem um momento que acho que ilustra muito bem a sua pergunta: eles estão conversando, a plateia no (Cinema) São Luiz faz uma gritaria por causa de A profecia, eles param de conversar, viram a cabeça e ouvem. E a Flávia, no futuro, também ouve e vira a cabeça. Então, foi a sequência mais complexa, ao meu ver, e exigiu uma concentração muito grande de todos nós: de Felipe Fernandes e Leonardo Lacca como diretores assistentes, dos atores, de Evgenia (Alexandrova, diretora de fotografia). Foi, realmente, uma grande conquista ter filmado e a montagem ter dado certo. Mas eu destacaria também a perseguição a pé no final, no Centro da cidade. De maneira parecida com a entrevista no apartamento, cada plano ali precisava ser carregado de tensão, brutalidade, violência e energia. Não é fácil manter essa peteca no ar.

O produtor Rodrigo Teixeira afirmou que não vê o Brasil de volta ao Oscar nos próximos anos. Concorda com a visão dele? O que é preciso fazer para ter uma presença constante em festivais como Cannes e em prêmios como Globo de Ouro e Oscar?

Eu não tive acesso ainda à nova safra, mas uma coisa que falei em algumas entrevistas é que eu queria muito que um cineasta, uma realizadora, estivesse terminando a montagem ou trabalhando na mixagem de um filme importante que, daqui a um ano, será muito respeitado e representará o Brasil em vários festivais. Existem muitas outras maneiras de o cinema brasileiro ser prestigiado e reconhecido. E eu acho que temos ido muito bem. Tivemos O último azul (de Gabriel Mascaro), que teve uma performance espetacular no Brasil, 200 mil espectadores, e ganhou Urso de Prata em Berlim. Existem muitas maneiras de fazer sucesso. Sobre o Oscar, eu não sei... Acho que o Oscar exige uma combinação de vários fatores. O agente secreto é um filme fora da caixa, autoral, brasileiro, com quase três horas, mais de 60 personagens, múltiplas camadas narrativas. Mas é, também, o filme de um cineasta que vem construindo uma carreira. Meus outros filmes tiveram muito prestígio. Esse filme foi adquirido pela Neon, esteve no Festival de Cannes, na França, ganhou muitos prêmios e tem tido uma carreira realmente muito forte. Então, ele se encaixa nessa trajetória, mas, não necessariamente, os filmes têm a obrigação de se encaixar nela. O que quero dizer é que existem muitas maneiras de ser um sucesso. Roterdã acabou de apresentar, pela primeira vez em première mundial, Yellow Cake, de Tiago Melo. Vamos ver o que acontece com esse filme, mas já é um dado muito interessante em termos de cinema brasileiro. A gente tem, agora, cinco filmes em Berlim. Então, temos que dar uma olhada. Sobre o Oscar, para mim, é algo tão particular, tão específico, que realmente não sei o que dizer. Mas espero que o cinema brasileiro seja muito visto este ano no Brasil e fora dele.

O agente secreto chegou a 2 milhões de espectadores no Brasil. Imaginava que o filme pudesse ser o seu maior sucesso de bilheteria? Como o crítico Kleber Mendonça explica esse sucesso?

É importante que eu responda essa pergunta, porque, mesmo que a retomada (da produção audiovisual no país) tenha sido marcada por Carlota Joaquina (de Carla Camurati) — que eu acho que é um filme autoral — e pelo sucesso de Central do Brasil, que é um filme autoral de Walter (Salles), acho que nos anos 1990 e 2000 estabeleceu-se um abismo entre o cinema autoral e o cinema comercial brasileiro. O cinema comercial conquistava o público — principalmente, as comédias, que começaram a se chamar comédias globais — e os filmes autorais brasileiros conquistavam prestígio, mas não conquistavam público. Eu nunca acreditei nisso. Sempre achei que bons filmes autorais podem ser filmes populares. E temos muitos exemplos: Memórias do cárcere (de Nelson Pereira dos Santos), acho que foi um filme que foi um sucesso popular; Lúcio Flávio, o passageiro da agonia (de Hector Babenco) é um sucesso popular; Dona Flor e seus dois maridos (de Bruno Barreto) é um sucesso popular. Mesmo na minha carreira de curtas, fiz filmes que eram muito pessoais, mas conquistaram sempre prêmios de público e de crítica. Recife frio foi um grande sucesso de crítica e de público. A ideia de que o cinema autoral implica fazer um filme opaco e distante das pessoas, às vezes, alguns filmes têm esse perfil. Mas podem também (atingir o grande público). E os 2 milhões de O agente secreto me deixam muito feliz porque é exatamente o que eu sempre quis colocar em prática. No lançamento, O som ao redor foi colocado no escaninho do "filme pequeno de arte", porque foi lançado com um orçamento pequeno. Com um lançamento desses, ele imediatamente precisa, por obrigação, vestir a roupa do filme pequeno de arte. Aquarius já teve um lançamento maior, começou a balançar a grade, fez quase 400 mil espectadores. Bacurau furou a bolha. Mas eu sempre me senti um pouquinho frustrado dos filmes não desempenharem esse papel. Tenho essa ânsia, que é uma questão de mercado, não do filme em si. Agora, com O agente secreto, acho que é uma prova disso. É o nosso maior lançamento. Conseguiu um prestígio internacional muito grande e agora chega a 2 milhões de espectadores. A gente deve, em breve, fazer três vezes mais que o Bacurau. Estou muito feliz desse filme tão pessoal, tão particular, tão brasileiro, com tantas camadas de história, tantos sotaques, ter esse resultado.

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