A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu, ontem, um alerta sobre o risco de pancreatite aguda ligado ao uso indevido de medicamentos agonistas do receptor GLP-1, as conhecidas canetas emagrecedoras. Entre 2020 e 2025, foram 145 notificações de suspeitas de eventos adversos registradas no país, além de seis supostos casos com desfecho de óbito.
Os injetáveis foram desenvolvidos inicialmente para o tratamento do diabetes tipo 2 — e passaram a ser usados também no controle da obesidade. As ocorrências estão ligadas aos medicamentos Ozempic, Mounjaro, Wegovy, Trulicity, Saxenda, Victoza, Rybelsus e Xultophy. No entanto, a Anvisa afirmou que os casos ainda passam por uma avaliação técnica, pois somente as notificações não garantem uma relação direta entre o uso das canetas e os eventos relatados. Além disso, é apontada a possibilidade do envolvimento de produtos falsificados.
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Segundo o órgão, as notificações têm aumentado tanto no cenário internacional como no cenário nacional. "Conhecidos popularmente como canetas emagrecedoras, esses medicamentos devem ser utilizados exclusivamente conforme as indicações aprovadas em bula e sob prescrição e acompanhamento de profissional habilitado", destacou a agência por meio de nota.
O monitoramento médico é motivado pelo risco de eventos adversos graves, incluindo pancreatite aguda, que podem incluir formas necrotizantes e fatais. Apesar do alerta, não houve mudança na relação de risco e eficácia dessas substâncias. "Ou seja, os benefícios terapêuticos ainda superam os efeitos adversos, de acordo com as indicações e modos de uso aprovados e constantes da bula", acrescentou a Anvisa.
Inflamação
Pancreatite é uma inflamação do pâncreas, órgão essencial para a digestão e para o controle da glicose no organismo. Ela pode se manifestar de forma aguda, com início súbito e potencialmente grave, ou crônica, quando o problema se repete ou se mantém ao longo do tempo. Pode causar a perda progressiva da função pancreática e até a morte.
"Existe tratamento. Na maioria dos casos, a pancreatite aguda é reversível, desde que diagnosticada precocemente e tratada adequadamente. O tratamento envolve controle da causa, suporte clínico e, em situações mais graves, internação hospitalar. No caso da crônica, não tem cura definitiva, mas pode ser controlada para evitar progressão e complicações", explica o clínico-geral Leonardo Catizani.
Segundo o médico, o uso inadequado e sem acompanhamento médico desses medicamentos, também pode levar a outros efeitos adversos relevantes, como náuseas intensas, vômitos, desidratação, hipoglicemia, perda excessiva de massa muscular e deficiências nutricionais.
"O uso indiscriminado pode mascarar doenças pré-existentes, atrasar diagnósticos importantes e gerar uma falsa sensação de segurança em relação ao emagrecimento. O principal risco não está no medicamento em si, mas na banalização do seu uso", ressaltou Catizani.
A autoridade reguladora do Reino Unido (MHRA) informou que registrou, entre 2007 e outubro de 2025, 1.296 notificações de pancreatite relacionadas aos usuários desses medicamentos, incluindo 19 óbitos. A preocupação com esses eventos pelo mundo foi um dos motivos pelos quais a Anvisa determinou, em junho do ano passado, que farmácias e drogarias passassem a reter a receita dos clientes.
Estagiário sob a supervisão de Luana Patriolino
