Os laudos que vão determinar a causa da morte da professora Juliana Faustino Basseto na piscina de uma academia na Zona Leste de São Paulo estão sendo elaborados e seguirão para análise pela Polícia Civil. O caso ganhou repercussão nacional porque Juliana, que tinha 27 anos, morreu depois de passar mal enquanto participava de uma aula de natação na academia.
Outras cinco pessoas que estavam na área da piscina no momento da aula também passaram mal e precisaram ser internadas, inclusive o marido de Juliana. Ainda não há informações atualizadas sobre o estado de saúde dessas vítimas, mas algumas foram levadas ao hospital com quadros graves. A Secretaria de Saúde do estado não foi autorizada pelas famílias a divulgar o estado das vítimas.
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Tudo indica que elas tenham sido intoxicadas pelos produtos químicos usados no tratamento da água da piscina. A polícia já ouviu o funcionário que aplicava esse produto na hora do acidente, e ele confirmou que não tinha treinamento para o serviço e que era um faz-tudo da academia, atuava até como manobrista.
Ele estava acompanhado de uma advogada e disse que recebia orientação de um dos donos da academia por WhatsApp sobre como aplicar os produtos na piscina. A delegacia do Parque São Lucas, que investiga o caso, vai colher também o depoimento dos responsáveis pela C4 GYM e, segundo informou a Secretaria de Segurança do estado em nota, fará ainda outras diligências.
A rede de academias onde ocorreu a morte e as intoxicações postou uma nota nas redes sociais em que afirma estar colaborando com as investigações.
Por que a intoxação foi tão grave?
O clínico geral Lucas Albanaz, diretor médico do Hospital Santa Lúcia Gama e doutor em ciências médicas, destaca que produtos usados para desinfetar piscinas — especialmente cloro e substâncias para correção do pH como ácidos — são essenciais para manter a água segura. O risco surge quando eles são manipulados de forma inadequada ou misturados de maneira errada, pois podem reagir e liberar gases tóxicos, como o cloro gasoso ou cloraminas, que irritam muito as vias respiratórias.
"Esses gases, quando inalados em concentrações elevadas, podem causar inflamação aguda das vias aéreas, falta de ar intensa, espasmos brônquicos e até falência respiratória, que é quando os pulmões não conseguem trocar oxigênio adequadamente, podendo levar à morte se não houver intervenção rápida", alerta Albanaz.
Do ponto de vista médico, há duas razões principais que fazem com que esse tipo de exposição possa evoluir para uma condição crítica. A primeira delas é a via de exposição por inalação, uma forma muito eficiente de intoxicação. "Quando gases irritantes alcançam os pulmões, eles atingem diretamente o tecido respiratório, que é extremamente sensível. Substâncias como cloro gasoso reagem com a água da mucosa (o “muco” que reveste nariz, garganta e pulmões), formando ácidos leves que queimam e inflamam o epitélio respiratório. Isso pode rapidamente causar edema (inchaço), dificuldade de oxigenação e, em casos graves, insuficiência respiratória."
A segunda razão é que as reações químicas podem gerar produtos tóxicos inesperados. "Misturar produtos que não deveriam ser combinados pode produzir substâncias que não estavam presentes originalmente no ambiente, como cloro gasoso ou compostos irritantes. Mesmo baixas concentrações desses gases em ambiente fechado podem ser perigosas, especialmente para pessoas com doenças respiratórias prévias ou em atividade física, como em uma aula de natação", destaca o médico.
Quais cuidados tomar para evitar intoxicação?
O doutor Lucas Albanaz relaciona duas formas principais de prevenção: a organização e a técnica no tratamento da água; e a proteção pessoal e ambiental. Veja os pontos elencados pelo médico como primordiais:
Organização e técnica no tratamento da água:
- Sempre seguir protocolos técnicos de tratamento de piscina. O cloro e outros produtos devem ser dosados conforme padrões de qualidade da água e calibrados com base no pH e na alcalinidade corretos; excessos ou desequilíbrios podem causar irritação mesmo sem reação com outros produtos.
- Nunca misturar produtos químicos diferentes sem orientação técnica especializada. Misturar cloro com ácidos, por exemplo, é uma das principais causas de liberação de gases tóxicos.
- Seguir as instruções do fabricante e as normas de segurança para produtos químicos. Não misture água com produtos concentrados — adicione sempre o produto químico à água, e não o contrário, para reduzir reações violentas.
- Manter treinamento adequado e atualizado dos profissionais que manipulam esses produtos. Erros de dosagem, armazenamento ou procedimentos ainda são causas comuns de acidentes.
- Garantir boa ventilação em ambientes fechados com piscinas internas, porque gases ou vapores podem se acumular e atingir concentrações perigosas mesmo sem grande quantidade de produto.
Proteção pessoal e ambiental:
- Colocar sistemas de monitoramento dos níveis químicos da água e alarmes pode detectar desequilíbrios antes que causem sintomas em usuários.
- Sinalizar e bloquear o acesso à piscina se houver odor forte ou sensação de irritação antes que as pessoas entrem na água.
- Em caso de qualquer sintoma respiratório após entrar em contato com a água — como tosse intensa, falta de ar, dor no peito, náusea ou ardência nos olhos — deve-se sair imediatamente da área, buscar ar fresco e procurar atendimento médico emergencial.
Leia a íntegra da nota da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo:
O caso é investigado pelo 42º Distrito Policial (Parque São Lucas). Até o momento, a Polícia Civil foi notificada sobre seis vítimas, sendo uma fatal. A autoridade policial determinou a oitiva de funcionários e responsáveis pelo estabelecimento e realiza outras diligências para o completo esclarecimento dos fatos. Laudos periciais estão em fase de elaboração e serão analisados assim que concluídos.
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