FÓRUM DA SAÚDE

Triagem neonatal amplia diagnóstico da fibrose cística, mas desigualdades regionais persistem

Coordenador executivo do Registro Brasileiro de Fibrose Cística, Luiz Vicente Ribeiro, destaca avanço do teste do pezinho, mas alerta para falhas na segunda coleta e no teste do suor, especialmente no Norte e Nordeste

A triagem neonatal tem se consolidado como o principal instrumento para o diagnóstico precoce da fibrose cística no Brasil, mas ainda enfrenta gargalos importantes, especialmente nas regiões Norte e Nordeste.

Professor titular do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da USP e coordenador executivo do Registro Brasileiro de Fibrose Cística, Luiz Vicente Ribeiro classificou a triagem neonatal como um divisor de águas no enfrentamento da doença no país. Segundo ele, os dados mostram avanço consistente desde 2012.

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“Cada vez mais a triagem neonatal é o elemento diagnóstico mais importante para estabelecer o diagnóstico da fibrose cística. Em 2023, mais de 90% dos diagnósticos já foram realizados por meio da triagem”, afirmou. Para o especialista, trata-se de “um dado muito positivo”, que demonstra o caráter transformador do programa.

O tema foi destaque no 1º Painel Diagnóstico Precoce e Triagem Neonatal, durante o evento Fórum da Saúde: Da triagem ao cuidado — A fibrose cística no Brasil, realizado pelo Correio Braziliense, em parceria com a Vertex Farmacêutica.

A fibrose cística é uma doença genética rara, crônica e sem cura. Também conhecida como mucoviscidose, é considerada uma das enfermidades hereditárias mais graves e comuns na infância. Transmitida por herança autossômica recessiva, a condição afeta múltiplos órgãos, principalmente os sistemas respiratório e digestivo, podendo também comprometer o fígado e o sistema genital-urinário. De caráter progressivo, exige acompanhamento contínuo e pode provocar complicações severas ao longo da vida.

A principal consequência da triagem neonatal é a redução significativa da idade ao diagnóstico, destaca Ribeiro. “A idade do diagnóstico é muito menor quando a gente usa a triagem neonatal como mecanismo diagnóstico. Ela fica perto de dois meses de vida, contra quatro anos, que é a mediana de idade dos pacientes com diagnóstico clínico”, explicou. “Quatro anos pode parecer pouco, mas é muito tempo para pessoas com fibrose cística. Muitas podem já ter doença pulmonar avançada e impacto importante no prognóstico.”

Teste do pezinho

Apesar dos avanços, o modelo brasileiro ainda enfrenta entraves. O processo começa com o teste do pezinho, realizado entre o terceiro e o quinto dia de vida. Se houver alteração, o recém-nascido precisa ser reconvocado para uma segunda dosagem antes dos 30 dias de vida. Persistindo a suspeita, é encaminhado para um centro especializado para realizar o teste do suor, considerado confirmatório.

“Essa segunda dosagem demanda contato com os familiares e deslocamento para realizar o teste do suor. Esse talvez seja o grande calcanhar de Aquiles da nossa situação hoje, especificamente em algumas partes do Brasil”, alertou.

Dados de um estudo realizado na Bahia ilustram o desafio. “Cerca de 82% dos recém-nascidos realizaram a primeira coleta, mas a segunda já cai para 76% entre aqueles que precisavam. Há em torno de 20% de perdas diagnósticas, o que é um número grande”, afirmou. Ele ponderou que o cenário pode ser ainda mais crítico em outros estados do Norte e Nordeste.

Desigualdades regionais

De acordo com o professor, os registros nacionais evidenciam desigualdades regionais. “A proporção de pessoas diagnosticadas pela triagem neonatal é significativamente menor nas regiões Norte e Nordeste quando comparadas com o resto do Brasil. E isso impacta na mediana de idade ao diagnóstico, que é maior nessas regiões”, disse.

Para Ribeiro, os dados indicam uma situação que exige revisão. “A gente precisa repensar esse aspecto. Esses estados com dificuldade no programa de triagem, basicamente associada à obtenção da segunda amostra e do teste do suor, precisam de um pensamento novo. Talvez rever o protocolo ou, em algumas regiões, adotar alternativas.”

Ele também defendeu a ampliação da capacidade para realização do teste do suor. “O teste do suor precisa ser expandido e melhor compreendido em como está funcionando. Ele depende não apenas de equipamentos, mas de insumos e de pessoas treinadas para realizar os testes”, afirmou.

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