MADRID

Brasileiro integra 'Comissão da Verdade' da Espanha

Grupo de 20 especialistas investigarão violações de direitos humanos cometidas durante a guerra civil e a ditadura franquista

Caldas:
Caldas: "Muito importante buscar a verdade para curar essa ferida" - (crédito: Material cedido ao Correio)

O brasileiro Roberto de Figueiredo Caldas será um dos 20 integrantes de uma comissão responsável por investigar os crimes cometidos durante a Guerra Civil Espanhola e a ditadura liderada pelo general Francisco Franco, entre 1939 e 1975. A iniciativa, instituída em abril de 2025 por meio de um decreto, é do Conselho da Memória Democrática da Espanha. 

Ex-juiz da Corte Interamericana de Direitos Humanos, da qual também foi presidente, Caldas tem experiência em casos relacionados a períodos ditatoriais, inclusive no Brasil, e considera que  a comissão é uma oportunidade do povo espanhol se reconciliar com o próprio passado.

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“Num primeiro momento, os ânimos podem se acirrar, porque familiares e agentes do regime não querem que a verdade venha à tona”, analisa. “Mas toda sociedade, para se desenvolver, tem que ultrapassar o silêncio tóxico.”

Assim como na versão brasileira de 2012, a iniciativa da Espanha também ficou conhecida como “Comissão da Verdade”. O juiz espanhol Baltasar Garzón Real foi indicado como presidente do grupo, que conta com especialistas em direitos humanos, cientistas políticos, historiadores e comunicadores nacionais e internacionais. 

Por meio de testemunhos, documentações e análises de outras experiências internacionais, o conselho produzirá, após 18 meses, um relatório sobre as violações de direitos humanos cometidas pelo regime franquista, notório apoiador da Itália fascista e da Alemanha nazista durante a 2ª Guerra Mundial. Ainda não há data para o início dos trabalhos do colegiado. 

“É muito importante buscar a verdade para curar essa ferida. Se calcula que entre 100 mil e 150 mil pessoas estão entre os desaparecidos do período”, aponta Roberto Caldas. “A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que mais de 100 mil pessoas foram enterradas em valas comuns sem identificação”. 

Ministro da Política Territorial e da Memória Democrática, Ángel Víctor Torres, e demais membros do Conselho da Memória Democrática
Ministro da Política Territorial e da Memória Democrática, Ángel Víctor Torres, e demais membros do Conselho da Memória Democrática (foto: Reprodução La Moncloa)

Ele destaca que uma das linhas de investigação é o esclarecimento de fatos e o estabelecimento de indenizações pelo Estado para que as violações cometidas não se repitam. “Não será um trabalho fácil”, declara o ex-juiz. 

Roberto Caldas afirma que recebeu o convite como uma missão honrosa. “Atuarei com muito respeito, dedicação e prudência para que, de fato, consigamos pacificar e passar a limpo a história”, diz. 

Guerra civil espanhola 

O conflito se iniciou em 1936, após o levante falangista liderado por Francisco Franco contra o governo de centro-esquerda de Manoel Azaña, que contava com o apoio de anarquistas e comunistas.

Combatentes estrangeiros, incluindo brasileiros, ingressaram nas brigadas antifascistas e estiveram em combate direto durante a guerra. Com o apoio aberto de países do Eixo, as tropas de Franco tomaram o controle do país em 1939, às vésperas da Segunda Guerra, e só saíram do poder em 1975, com a morte de Francisco Franco.

A guerra civil deixou um saldo de cerca de 500 mil mortos e ficou eternizada na pintura Guernica, de Pablo Picasso. O regime de extrema-direita, que se seguiu ao conflito, foi caracterizado pelo forte apoio da igreja católica e pela perseguição violenta de opositores.

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postado em 07/04/2026 22:40 / atualizado em 07/04/2026 23:36
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