DITADURA

Zuzu Angel criou moda política e enfrentou a ditadura pelo filho há 50 anos

A coragem foi a principal arma de Zuzu, e ela usou a projeção de vestir celebridades para chamar a atenção para a morte do filho Stuart; Hoje, 14 de abril, faz 50 anos da morte forjada no túnel Dois Irmãos, no Rio de Janeiro

Zuleika de Souza Netto, mais conhecida como Zuzu Angel, foi uma das criadoras da moda política no Brasil -  (crédito: Arquivo)
Zuleika de Souza Netto, mais conhecida como Zuzu Angel, foi uma das criadoras da moda política no Brasil - (crédito: Arquivo)

Há 50 anos, a estilista brasileira Zuzu Angel foi assassinada pela ditadura no Brasil. Depois da morte do filho, Stuart Angel Jones, na Base Aérea do Galeão, Zuzu virou um incômodo para os militares. Seus desfiles denunciavam a repressão e a tortura contra os opositores do regime. O legado dessa mãe obstinada virou marca da moda brasileira, ao incluir na concepção das peças aspectos políticos para além da estética.

Mineira, de Curvelo (MG), Zuzu chegou ao Rio de Janeiro com 18 anos para costurar. Em 1940, se apaixonou pelo empresário Norman Angel Jones, com quem teve os filhos Stuart, Hildegard e Ana Cristina.

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Stuart começou a militar na Dissidência Estudantil do Partido Comunista da Guanabara. O grupo, que depois foi denominado MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro), era formado por universitários do Rio de Janeiro que romperam com uma ala mais pacífica da legenda. Em relatório policial de 1970, os militares acusaram Stuart pelo envolvimento no sequestro do embaixador Charles Burke Elbrick. Sob tortura, o ex-guerrilheiro Alex Polari forneceu a localização do militante aos agentes do Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica (Cisa). Stuart foi preso e torturado até a morte.

 

A estilista Zuzu Angel e os três filhos. O menino, Stuart Angel, foi assassinado pela ditadura militar.
A estilista Zuzu Angel e os três filhos. O menino, Stuart Angel, foi assassinado pela ditadura militar. (foto: Arquivo)

Périplo materno

Zuzu começou a buscar informações sobre o desaparecimento do filho com conhecidos e desconhecidos em um tempo em que já tinha carreira no mundo da alta costura. O trabalho como estilista serviu como instrumento para denunciar a morte de Stuart e clamar pelo fim da ditadura militar no Brasil. “Ela estava no auge do sucesso e não teve medo de ir em busca do que achava correto", disse a atriz Patrícia Pillar, que interpretou a estilista no cinema, em entrevista ao jornal O Globo, em 2006.

A coragem foi a principal arma de Zuzu, e ela usou a projeção de vestir Joan Crawford, Liza Minelli e Kim Novak para chamar a atenção. Em uma viagem ao Rio de Janeiro, chegou a pegar um comunicador de avião da aeromoça e bradou aos passageiros sobre os crimes políticos cometidos no Brasil. O histórico desfile-protesto de Zuzu Angel ocorreu no Consulado-Geral do Brasil em Nova York, em setembro de 1971. O ato ganhou as manchetes dos jornais internacionais, denunciando a violência da ditadura contra uma mãe que queria o corpo do filho.

Nessa coleção, chamada Moda Política, por exemplo, havia manchas vermelhas nas peças, pássaros engaiolados e estampas bélicas. Zuzu foi incansável com políticos, celebridades e os próprios militares. “A luta política dela foi temática. Eu me lembro da mamãe toda de preto, ela vestiu luto para bater na porta dos quartéis com minha tia Virgínia”, lembra a filha Hilde em entrevista.

Também reuniu-se com militares e com as esposas de militares para encontrar respostas, em vão. Em 1976, ela deixou uma carta para Chico Buarque em que dizia: “Se eu aparecer morta, por acidente ou outro meio, terá sido obra dos assassinos do meu amado filho”.

Atentado

Uma semana depois da carta enviada ao cantor, no dia 14 de abril de 1976, aos 54 anos, Zuzu Angel morreu em um acidente de carro no túnel Dois Irmãos, forjado pela ditadura militar. Investigações confirmaram que o veículo da estilista foi perseguido e jogado para fora da pista. Uma foto entregue à Comissão Nacional da Verdade mostra o coronel do exército Freddie Perdigão Pereira na cena do crime. Em depoimento, o ex-delegado do Dops, Cláudio Guerra, afirmou que Perdigão estava preocupado em ter sido fotografado no local.

Rio de Janeiro (RJ) - 14/04/1976 - Na foto, preta-e-branca, Perdigão aparece encostado em um poste, com uma camisa clara, levando a mão direita ao rosto, olhando para o carro da vítima.
Rio de Janeiro (RJ) - 14/04/1976 - Na foto, preta-e-branca, Perdigão aparece encostado em um poste, com uma camisa clara, levando a mão direita ao rosto, olhando para o carro da vítima. (foto: Comissão Nacional da Verdade/O Globo)


Um ano depois, Chico escreveu a canção de Angélica para lembrar da amiga. Em um dos versos lamenta: “Quem é essa mulher que canta sempre esse lamento? Só queria lembrar o tormento que fez o meu filho suspirar”.

“A guerra dela foi também uma guerra cultural. Não só porque ela criou a moda política — não existia isso, a moda de protesto político foi inédita — mas por instrumentalizar a costura para transformá-la em bandeira política, em denúncia internacional”, completa Hilde.

Em 2025, foram emitidas as certidões de óbito de Zuzu e do filho, Stuart. A morte de ambos foi atestada como "não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro, no contexto da perseguição sistêmica e generalizada à população identificada como opositora política ao regime ditatorial de 1964 a 1985". As ossadas de Stuart não foram encontradas. De acordo com depoimentos de outros presos da Base Aérea, depois de morto, o corpo do jovem foi jogado no mar.

 

  • Zuleika de Souza Netto, mais conhecida como Zuzu Angel, foi uma das criadoras da moda política no Brasil
    Zuleika de Souza Netto, mais conhecida como Zuzu Angel, foi uma das criadoras da moda política no Brasil Foto: Arquivo
  • Rio de Janeiro (RJ) - 14/04/1976 - Na foto, preta-e-branca, Perdigão aparece encostado em um poste, com uma camisa clara, levando a mão direita ao rosto, olhando para o carro da vítima.
    Rio de Janeiro (RJ) - 14/04/1976 - Na foto, preta-e-branca, Perdigão aparece encostado em um poste, com uma camisa clara, levando a mão direita ao rosto, olhando para o carro da vítima. Foto: Comissão Nacional da Verdade/O Globo
  • A estilista Zuzu Angel e os três filhos. O menino, Stuart Angel, foi assassinado pela ditadura militar.
    A estilista Zuzu Angel e os três filhos. O menino, Stuart Angel, foi assassinado pela ditadura militar. Foto: Arquivo
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postado em 14/04/2026 09:37 / atualizado em 14/04/2026 09:41
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