Análise

Alexandre Garcia: Faz de conta

"É muito ruim ser pessimista, mas quem sente necessidade de anunciar aos quatro ventos digitais que é feliz já está se entregando"

Quase todos os brasileiros acreditam que foi Charles de Gaulle o autor da frase "O Brasil não é um país sério". Não foi. Quem pronunciou a foi o próprio embaixador do Brasil na França, Carlos Alves de Souza Filho, depois de ter sido recebido pelo presidente francês. O que comprova que não somos um país sério. Naqueles tempos da Guerra da Lagosta, com Jânio Quadros e João Goulart, éramos apenas sem seriedade. Hoje, somos também um país de faz de conta. Faz de conta que o contrato de R$ 129 milhões é só da senhora Viviane Barci de Moraes. Faz de conta que o Tayayá é um resort digno de investimentos milionários, como se no Caribe estivesse. Faz de conta que escrever no papel um código de ética vai ter o condão de moralizar o Supremo Tribunal Federal.

Vivemos a era do faz de conta. Faz de conta que queriam dar golpe de Estado sem armas e sem força militar. Faz de conta que senhorinhas com Bíblia e senhora com batom iram derrubar o governo. Faz de conta que merece 14 anos de prisão o idoso que doou um pix de R$ 500 para ajudar a pagar um ônibus para Brasília com manifestantes de Blumenau. Faz de conta que Filipe Martins desembarcou na Flórida em dezembro de 2022. Estou usando o faz de conta como um eufemismo. Fingir acreditar no que não é, na verdade, é uma forma de mentir para si mesmo.

Enfim, mentir, como tem sido propalado pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, é recebido como forma de esperteza, que é aplaudida e não vaiada. Ou, como não é um país sério, com gente achando graça disso: "A gente tem que mentir". "Minha mãe me ensinou que a verdade engatinha e a mentira voa". "O Brasil tem 25 milhões de crianças de rua". São algumas pérolas que não vão levar à ordem escrita na bandeira, tampouco à consequência da ordem, que é o progresso. Enquanto isso, no Parlamento, homem faz de conta que é mulher e fingimos acreditar, com medo de que não acreditar no faz-de-conta pode ser crime. No Senado, fazem de conta que a Constituição não exige notável saber jurídico e planejam perguntar fofocas sobre o Master na sabatina do advogado-geral da União, Jorge Messias, para o STF. Santo ilusionismo!

Com o governo gastando mal os impostos, fazemos de conta que imposto não é parte do nosso trabalho, não é o nosso dinheiro. Temos medo de assaltos, de balas perdidas. Medo do arbítrio do Supremo, medo de matricular nossos filhos em universidade pública, mas fazemos de conta que somos felizes assim. É muito ruim ser pessimista, mas quem sente necessidade de anunciar aos quatro ventos digitais que é feliz já está se entregando. Ser feliz não é transmitido pela boca, mas pelas atitudes. Aí, somos vítimas do nosso faz de conta. Quem aceita o fingimento não está contribuindo para mudar o rumo. O voto deste ano não pode de novo fazer de conta que vai melhorar.

 

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