
A prisão preventiva da advogada e influenciadora Deolane Bezerra, nesta quinta-feira (21/5), marcou o ápice da Operação Vérnix, uma ação conjunta entre o Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo (MPSP) e a Polícia Civil paulista, na investigação de uma complexa rede de lavagem de dinheiro a serviço da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC).
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Essa é a segunda vez que a influenciadora é levada para a cadeia. Ela já havia sido detida em setembro de 2024 por envolvimento com jogos ilegais e lavagem de dinheiro, em Pernambuco. Deolane, que tem mais de 21 milhões de seguidores em suas redes sociais, foi presa, dessa vez, em sua mansão em Alphaville, em Barueri (Grande São Paulo), sob a acusação de atuar como “caixa do crime organizado”, utilizando sua projeção pública e estrutura empresarial para conferir uma “camada de legalidade” a recursos ilícitos da alta cúpula do PCC, segundo investigação policial.
A Justiça determinou o bloqueio de ativos financeiros que somam R$ 327 milhões, e a apreensão de 17 automóveis de luxo, avaliados em mais de R$ 8 milhões, além de quatro imóveis de alvos da operação. Só de Deolane Bezerra, foram bloqueados R$ 27 milhões em bens e dinheiro.
A investigação que culminou na prisão da influenciadora começou em 2019, quando agentes penitenciários encontraram bilhetes manuscritos na caixa de esgoto das celas de lideranças como Sharlon Praxedes da Silva, o "Maradona", e Gilmar Pinheiro Feitoza, conhecido como "Cigano", na Penitenciária II de Presidente Venceslau. Os papéis revelavam planos de atentados contra autoridades e faziam referência a uma “mulher da transportadora” que levantava endereços de agentes públicos. Essa pista levou à empresa Lado a Lado Transportes, sediada a apenas 300 metros do presídio, cujos donos reais seriam Marcos Willians Herbas Camacho, o “Marcola”, e seu irmão Alejandro Camacho, que geriam o negócio de dentro da cadeia.
A quebra de sigilo do celular de Ciro Cesar Lemos, operador central, e de Everton de Souza, o Player, gestor financeiro, revelou comprovantes de depósitos diretos para contas bancárias de Deolane em contextos de fechamento de contabilidade mensal da facção.
A complexidade do esquema financeiro foi detalhada por movimentações bancárias atípicas e sem lastro econômico. Entre 2018 e 2021, Deolane recebeu em sua conta de pessoa física R$ 1.067.505 por meio de depósitos fracionados sempre abaixo de R$ 10 mil, técnica de lavagem conhecida como “smurfing”, para evitar alertas dos órgãos de fiscalização e controle.
Os investigadores também rastrearam quase 50 depósitos, totalizando R$ 716 mil, feitos a duas empresas da influenciadora por uma suposta companhia de crédito, cujo responsável é um morador da Bahia com renda de apenas um salário mínimo mensal. Para ocultar a origem do dinheiro, a polícia afirma que Deolane chegou a abrir 35 empresas fantasma, todas registradas no mesmo endereço.
O filho mais velho da advogada, Giliard Vidal dos Santos, também foi alvo da operação policial. Sem emprego formal, ele teria movimentado R$ 11 milhões — só em 2023, foram R$ 6 milhões —, apesar de declarar patrimônio de apenas R$ 32,9 mil.
Bolsa de US$ 65 mil
Deolane estava em Roma, onde o promotor de Justiça Lincoln Gakiya planejava prendê-la com o apoio da Interpol, já que o nome da influenciadora constava na lista de Difusão Vermelha. Ela antecipou o desembarque para a tarde de anteontem, mas as autoridades optaram por não prendê-la no Aeroporto Internacional de Guarulhos para não alertar os demais alvos, que incluem parentes de Marcola, como a sobrinha Paloma Sanches Herbas Camacho, que foi detida na Espanha. Horas antes da prisão, a influenciadora ostentou nas redes sociais uma bolsa Hermès de 65 mil dólares (mais de R$ 325 mil).
Em resposta à ação da polícia, a família Bezerra alega que a advogada sofre uma “perseguição” e que a prisão é um “espetáculo” ou “cortina de fumaça” para encobrir problemas políticos do país, sem especificar que problemas seriam esses.

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