
Proibidos no Brasil pela Anvisa desde 2009, os dispositivos eletrônicos para fumar continuam ganhando espaço de forma ilegal. Com aparência moderna, sabores adocicados e forte apelo nas redes sociais, os chamados vapes viraram febre entre adolescentes e adultos jovens, acendendo um alerta na saúde pública às vésperas do Dia Mundial Sem Tabaco, celebrado em 31 de maio.
Para Márcio Almeida, oncologista e membro da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), a expansão desses dispositivos representa um novo e perigoso desafio. “Estamos vendo uma nova geração se tornar dependente da nicotina por meio de produtos que passam uma falsa ideia de segurança. O problema é que os danos existem e já aparecem de forma evidente”, alerta o médico.
Falsa sensação de segurança
Embora comercializados como alternativas “menos prejudiciais”, os vapes estão longe de ser inofensivos. Estudos apontam que os produtos contêm nicotina em altas concentrações, metais pesados, solventes químicos e compostos potencialmente cancerígenos. O vapor inalado causa inflamações pulmonares, lesões respiratórias e rápida dependência. Outro agravante é a dupla dependência, já que muitos usuários combinam o vape com o cigarro convencional.
O apelo visual e o marketing digital contribuem para a banalização do consumo. “O cigarro eletrônico foi associado à modernidade e ao estilo de vida jovem. Isso faz com que muitos adolescentes iniciem o uso sem dimensão das consequências”, afirma o oncologista.
Retrocesso preocupa especialistas
O impacto dessa tendência já se reflete nas estatísticas. Dados da pesquisa Vigitel apontam um retrocesso inédito: após décadas de queda, o percentual de fumantes adultos no Brasil saltou de 9,3% em 2023 para 11,6% em 2024 — uma alta de cerca de 25%.
Entre os adolescentes, o cenário é ainda mais alarmante. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024) revelou que a experimentação de cigarros eletrônicos entre jovens de 13 a 17 anos quase dobrou, saltando de 16,8% para 29,6%. “A exposição precoce à nicotina aumenta drasticamente o risco de dependência química crônica”, explica Almeida.
Câncer de pulmão segue como ameaça
Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o tabagismo continua sendo o principal fator evitável de morte no mundo. O câncer de pulmão, um dos mais letais, tem 85% de seus casos diagnosticados associados ao consumo de derivados do tabaco. Para o triênio 2026-2028, a estimativa é de 32 mil novos casos anuais da doença no Brasil. Além disso, o hábito eleva o risco de tumores na boca, laringe, esôfago e estômago.
“Muitos acreditam que trocar o cigarro convencional pelo eletrônico elimina os riscos, mas isso é um mito. O vape mantém o vício e agride o organismo, criando uma nova geração exposta a graves doenças crônicas”, conclui o oncologista.

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