TECNOLOGIA

Ex-chefe do WhatsApp no Brasil cria ONG para confrontar big techs

Ao Correio, Daniela da Silva conta que a ideia da organização CTRL+Z é desfazer a internet como conhecemos hoje e receber denúncias

"Desfazer a distopia, retomar a internet". É com esse lema que a jornalista Daniela da Silva, ao lado da também jornalista Tatiana Dias e do especialista em direitos digitais Luã Cruz, criou a ONG CTRL+Z, voltada para receber denúncias contra big techs.

O nome da iniciativa remete ao comando no teclado de computadores usado para reverter ações em sistemas operacionais. Ao Correio, Daniela, que é ex-chefe de políticas publicas do WhatsApp no Brasil, disse que a ideia da ONG é desfazer a internet como conhecemos hoje.

Rebeca Figueiredo - Tatiana Dias, Daniela da Silva e Luã Cruz

"Aquilo que foi construído para maximizar nosso engajamento e drenar o máximo possível a nossa atenção, pode ser construído com outros valores em mente. Mas para isso vamos ter que responsabilizar as empresas que estão tomando essas decisões, nos escritórios na Califórnia, no Vale do Silício. Vamos precisar de ação popular organizada muito firme para que isso seja uma possibilidade", afirma Daniela.

A CTRL+Z foi lançada em abril sob três pilares: valorização do jornalismo investigativo, litigância estratégica e mobilização de pessoas. A iniciativa ainda é um projeto piloto, mas prioriza receber denúncias relacionadas ao banimento de conta sem aviso ou de maneira arbitrária, perfis falsos, vazamento de dados pessoais e bloqueio temporário injustificado. As denúncias são recebidas por meio da plataforma Arquivo de danos digitais (ADD+).

"Estamos entendendo ainda qual é o tipo de caso que recebemos, qual é o tipo de atuação judicial que podemos intermediar", cita Daniela. Ainda segundo a jornalista, o objetivo da ONG é fazer o enfrentamento ao modelo de operação das gigantes de tecnologia. "Somos uma organização orgulhosamente brasileira, mas com pretensões globais. Queremos mexer com questões estruturais que sabemos que tem impacto no mundo", frisa.

Daniela saiu do cargo que ocupava na Meta em janeiro de 2025, após perceber alguns movimentos políticos da empresa. O estopim foi quando ela viu o vídeo em que Mark Zuckerberg, CEO da Meta, anunciou o fim do programa de checagem de fatos. Ela avaliou que esse posicionamento representou uma "guinada radical" e "retórica perigosa" do bilionário, principalmente pela forma com que ele usou os termos liberdade de expressão e censura.

"As palavras não são neutras. Elas trazem uma carga, especialmente no contexto histórico que estamos vivendo. Eu senti que ele (Zuckerberg) estava finalizando um alinhamento no campo político não apenas de direita, como de extrema direita, que entende liberdade de expressão e censura de uma maneira a confundir as pessoas, como se liberdade de expressão fosse liberar todo tipo de discurso", conta a jornalista.

Daniela cobra a responsabilização das big techs em casos de violações e defende a regulamentação das plataformas é como uma medida essencial. "Uma das grandes missões da nossa organização é de reverter essa sensação de apatia e de impotência que as pessoas têm em relação ao que viraram as redes sociais, ao que virou a internet", pontua.

"Há a sensação de que essas empresas têm o poder infinito, que nada pode ser feito, Está todo mundo se sentindo sobrecarregado de informação, sentindo a saúde mental prejudicada, com medo do que vai acontecer com os filhos crescendo com tanto tempo de tela e como controla o acesso a certos tipos de conteúdo", finaliza.

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