Com 31 mil transplantes realizados em 2025, o Brasil bateu um recorde histórico. O avanço reflete melhorias na medicina e na estrutura hospitalar, mas ainda convive com um obstáculo fora das salas cirúrgicas, a desinformação e a recusa familiar, que continuam limitando o crescimento do número de transplantes.
Mesmo com os índices históricos, quase metade das famílias brasileiras ainda recusa a autorização para a doação após a confirmação da morte encefálica. Hoje, a negativa acontece em cerca de 45% dos casos.
Para o médico Lucas Nacif, membro da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos, o desafio atual vai além da estrutura hospitalar. Segundo ele, a principal barreira continua sendo a falta de informação clara sobre como o processo funciona.
“As campanhas de conscientização voltadas à população precisam ser mais incisivas e constantes. É fundamental ampliar a divulgação em rádios, TV e redes sociais, além de dar espaço para médicos, pacientes transplantados e familiares compartilharem suas experiências”, afirma.
O especialista explica que muitos familiares ainda chegam ao momento da decisão carregando dúvidas e medos sobre o diagnóstico de morte encefálica. Um dos mitos mais comuns é acreditar que o paciente ainda pode acordar.
“Muitas pessoas ainda acreditam que o paciente pode se recuperar, quando, na verdade, a morte encefálica é confirmada por protocolos médicos rigorosos e irreversíveis”, diz o médico.
No Brasil, a autorização da família é obrigatória mesmo quando a pessoa manifestou em vida o desejo de ser doadora. Por isso, médicos e entidades ligadas aos transplantes reforçam constantemente a importância de conversar sobre o assunto dentro de casa.
Além das dúvidas sobre a morte encefálica, outra desconfiança frequente envolve a chamada "fila única nacional". Muitas pessoas também alegam acreditar que pacientes ricos ou famosos conseguem prioridade, mas o sistema segue critérios técnicos definidos pelo Sistema Nacional de Transplantes.
Segundo o médico, a ordem da fila não funciona apenas pelo tempo de espera. São levados em consideração fatores como a gravidade do estado de saúde do paciente, o tempo de espera, a compatibilidade entre doador e receptor e até a urgência do caso.
Em situações críticas, pacientes mais graves podem passar à frente justamente porque correm risco iminente de morte. A compatibilidade sanguínea e imunológica também influencia diretamente na escolha do receptor.
Os rins seguem como os órgãos mais transplantados no país, seguidos pelo fígado. Especialistas apontam que os avanços em técnicas cirúrgicas, preservação de órgãos e medicina robótica ajudaram a elevar o número de procedimentos bem-sucedidos nos últimos anos.
Ainda assim, o crescimento da demanda continua maior do que a quantidade de órgãos disponíveis.
Um único doador pode salvar até dez vidas por meio da doação de órgãos e tecidos. Mas o tema ainda é cercado por medo, dificuldades em diálogos e informações incorretas que dificultam novas autorizações.
Para Lucas Nacif, o recorde histórico alcançado pelo Brasil mostra que o sistema de transplantes avançou, mas também evidencia um desafio urgente. O aumento do número de cirurgias depende não apenas da medicina, mas da confiança da população em um processo que ainda é pouco compreendido.
*Estagiária sob supervisão de Paulo Floro.
