Um ônibus de viagem e um caminhão carregado de rodas de veículos bateram de frente e se incendiaram deixando oito pessoas mortas, pelo menos outras seis feridas e interditando a rodovia BR-251, na altura do KM236, em Santa Cruz de Salinas, no Norte de Minas, por volta das 4h deste domingo (24/5).
Um dos corpos aparenta ser o de uma criança de 10 anos. Mais um acidente na rodovia que vem recebendo o nome de “Estrada do Medo” após seguidos desastres, como a recente morte de seis pessoas de uma mesma família, no dia 21 de abril, em Salinas, a 72 quilômetros do desastre deste domingo - fato que fez dobrar o número de mortes no primeiro bimestre.
Todos os mortos do acidente de Santa Cruz de Salinas estavam no ônibus, segundo informações do Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBMMG). O desastre ocorreu perto do Posto Santa Cruz e gerou um engarrafamento de mais de 15 km, de acordo estimativas da corporação.
O veículo de carga seguia no sentido Salinas e o de transporte de passageiros no sentido Bahia. Devido à complexidade dos destroços, necessidade de trabalho da perícia e de desencarceramento de corpos, não há ainda uma previsão de liberação da via, segundo o CBMMG.
Uma ambulância de Taiobeiras levou duas vítimas do sexo masculino. Outro socorro de Pedra Azul transportou três vítimas do sexo masculino (30, 38 e 42 anos) enquanto uma ambulância de Medina salvou uma vítima de 24 anos e sexo não divulgado.
Após a colisão inicial entre os veículos pesados houve vazamento de combustível e fluidos inflamáveis que provocaram um incêndio. O fogo se alastrou para os veículos e ameaçava atingir a vegetação nas bordas da rodovia.
O fogo gerou uma intensa cortina de fumaça escura, comprometendo as condições de visibilidade na pista e gerando ameaça de explosões. Diante do cenário de perigo, o fluxo viário nos dois sentidos do corredor rodoviário federal precisou ser bloqueado pelo CBMMG e Polícia Rodoviária Federal (PRF).
O local é uma subida estreita e em curva escavada entre dois barrancos no corte de um morro. Os destroços dos veículos ficaram esparramados ao entorno da área do acidente.
Informaçoes preliminares indicam que, devido à pista escorregadia, por causa de uma chuva fina, no final de uma descida, o motorista do ônibus perdeu o controle do veiculo, que entrou pela contramão, bateu em um barranco e retornou a pista contrária novamente, batendo de frente com a carreta. Na sequência, os dois veículos pegaram fogo.
Com o ônibus em chamas, não houve mais vitimas porque o motorista e passageiros do coletivo, em pânico, conseguiram escapar por saídas de emergência.
Duas vítimas com ferimentos atendidas pelo Samu relataram que precisaram pular do ônibus para escapar das chamas: um homem, de 72 anos, que apresentou escoriações na face e dor na perna esquerda; e uma mulher, de 61, que teve escoriações no rosto, hematomas na região do quadril e dor na perna esquerda.
Motoristas de outros veículos nos dois sentidos rapidamente manobraram para afastar das proximidades do desastre temendo que o fogo atingisse seus carros. Muitos deixaram os veículos e observaram de longe as chamas, enquanto outros ajudaram os feridos que conseguiram escapar.
Para atender ao desastre o CBMMG enviou quatro viaturas operacionais de Salinas. Os trabalhos das equipes de salvamento se dividiram entre o controle do incêndio e os procedimentos de socorro pré-hospitalar e desencarceramento das vítimas.
Os feridos foram atendidos no local e transferidos para unidades hospitalares de pronto-atendimento em cidades vizinhas, mas os boletins oficiais sobre o estado clínico atual e a identificação dos envolvidos ainda aguardam validação técnica.
O ônibus saíu de Aracaju (SE) com destino a São Bernardo do Campo (SP), com 15 passageiros. A carreta viajava no sentido contrário, com uma carga de sucata, que era transportada de Fortaleza (CE) para Piracicaba (SP).
Por que 'Estrada do Medo'?
A violência do ocorrido evoca a memória de outras perdas devastadoras registradas no mesmo corredor rodoviário, como o desastre com a morte de seis pessoas da mesma família e de seu cão de estimação em 21 de abril.
De acordo com informações do Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais, o sinistro ocorreu por volta das 4h45, no KM 164, entre o trevo de Curral de Dentro e o distrito de Planalto, em uma região predominantemente rural da rodovia.
A tragédia resultou na morte de seis pessoas de uma mesma família, que viajavam em um automóvel com placas de São Paulo, destruído pelo impacto contra uma carreta.
Segundo informações de testemunhas, o carro de passeio, que seguia no sentido Bahia, teria invadido a contramão de direção.
No sentido oposto, trafegava uma carreta que havia partido de Lauro de Freitas (BA) com destino a Imbituba (SC).
O condutor da carreta não sofreu ferimentos e permaneceu no local para prestar esclarecimentos às autoridades. Ele disse que não conseguiu desviar a tempo de evitar a batida de frente.
As vítimas foram um casal, sendo que o homem de 50 anos era o condutor, a mãe tinha 40 anos, três filhos (uma adolescente de 15 anos e duas crianças de 3 e 10 anos) e a avó materna de 60 anos. Eles eram naturais de Nova Canaã (BA), distante 446 quilômetros de Salvador, o destino do veículo envolvido na tragédia. Eles foram sepultados em Itapecerica da Serra, na Região Metropolitana de São Paulo, onde moravam.
O motorista da carreta declarou que o condutor do Palio invadiu a contramão, provocando o acidente.
O fluxo de veículos na BR-251, uma das principais rotas de integração entre o Sudeste e o Nordeste do país, sofreu retenções significativas durante toda a manhã.
Apenas três dias antes, em 18 de abril, outra colisão frontal em Grão Mogol, na mesma rodovia, deixou dois mortos e oito feridos, reforçando a periculosidade da via no período recente.
Um mês antes, em 21 de março de 2026, dois motoristas morreram em uma colisão entre caminhões no KM 273, também em Salinas.
Só no feriado prolongado de Tiradentes, os dois desastres registrados na BR-251 mais que dobraram o número de mortes na rodovia de janeiro a fevereiro de 2025 para o mesmo período de 2026, passando de sete para 15, segundo dados da PRF.
A reportagem do Estado de Minas reuniu as ocorrências da PRF de 2025 e de 2026 (janeiro e fevereiro) e mostra como o risco é crescente nos trechos mais mortais da BR-251.
Acidentes por cidades em 2026:
- O maior registro de acidentes até fevereiro de 2026 foi no município de Francisco Sá, com 16 ocorrências, cinco mortes e 58 pessoas feridas
- Em seguida, aparece Grão Mogol, com 14 sinistros, uma morte e 27 feridos
- Salinas aparece em terceiro, com dezenas de ocorrências que levaram a uma morte e a nove pessoas com ferimentos
- No ano passado, foram 18 pessoas mortas em 54 sinistros ocorridos em Grão Mogol, 14 óbitos em 57 sinistros em Francisco Sá e sete mortes em Salinas, resultadas de 32 sinistros
Acidentes por rodovias em 2025:
Em 2025, a Rodovia BR-251 foi a quinta com mais mortes, somando 51 óbitos em 271 sinistros e 374 feridos.
Antes dela estão:
BR-381, com 158 vítimas em 2.845 sinistros;
BR-040, com 153 mortes e 1.972 acidentes;
BR-116, com 124 óbitos e 1.412 sinistros;
BR-262, com 101 vidas perdidas e 1.095 ocorrências
O que causa acidentes?
A reportagem do Estado de Minas também analisou as ocorrências de 2025 e de 2026 (janeiro e fevereiro) nos trechos mais mortais da BR-251 para relacionar os fatores envolvidos na maioria dos desastres.
O trecho de Salinas e Santa Cruz de Salinas, onde ocorreu o sinistro do feriado de Tiradentes, é o terceiro mais crítico. Apresenta alto risco devido à combinação de pista simples e topografia acidentada (declives e curvas).
O comportamento humano é o principal catalisador, com destaque para a reação tardia, o descumprimento da distância de segurança e a fadiga (dormir ao volante), que transformam erros em sinistros graves.
As fatalidades e ferimentos graves estão concentrados em colisões frontais e transversais, quase sempre resultantes de invasões de contramão e ultrapassagens indevidas em áreas de visibilidade limitada.
Os pontos críticos entre o km 295 e o km 325 mostram uma recorrência de saídas de pista e tombamentos em curvas, evidenciando falhas na percepção de velocidade e traçado.
Adicionalmente, há um volume atípico de incêndios por falhas mecânicas no setor inicial (km 259-273), sugerindo que o effort motor exigido pelo relevo local expõe a precariedade da manutenção da frota.
Como prevenir acidentes?
Para mitigar os sinistros nesse trecho, a recomendação é o respeito à sinalização de proibição de ultrapassagem e a manutenção de distância segura, especialmente em declives.
Condutores devem realizar paradas estratégicas para descanso e vistorias preventivas no sistema de arrefecimento e freios antes de trafegar pelo trecho.
Recomenda-se ainda atenção redobrada ao entrar na via em interseções e rotatórias, onde a percepção de fluxo tem se mostrado falha.
Quais os perigos dos dois trechos mais críticos da BR-251?
O trecho mais violento da BR-251 corta o município de Francisco Sá, onde foram registradas 19 mortes e 129 feridos em 73 sinistros, sendo o segmento mais violento entre o km 470 e o km 475. A geometria da via é o fator ambiental determinante para a alta severidade dos sinistros.
Uma combinação de pista simples, curvas acentuadas e declives pronunciados cria um cenário onde as causas são velocidade incompatível do veículo e situações de pista escorregadia resultam em perdas de controle.
A alta incidência de óbitos e feridos graves está diretamente ligada à falha de frenagem e ao excesso de confiança em trechos de serra.
Os tipos de acidentes mais recorrentes são as saídas de pista e o tombamento (intimamente relacionado a veículos de transporte de carga), concentrados nos pontos de declividade acentuada onde a inércia dos veículos de carga sobrecarrega os sistemas de segurança.
Colisões frontais e laterais no sentido oposto também são críticas, frequentemente disparadas por tentativas de ultrapassagem indevida ou perda de aderência em dias de chuva.
O km 474 se destaca como o ponto de maior letalidade, com sete mortes em sete sinistros e 55 feridos. As falhas mecânicas e a alta velocidade resultam em múltiplos feridos por evento.
O comportamento dos condutores revela uma negligência quanto à distância de segurança e ao estado de manutenção dos veículos, evidenciado por sinistros causados por "problemas com o freio" e "pneus desgastados".
Fatores humanos, como condutor dormindo e ingestão de álcool, aparecem em trechos mais retilíneos (km 491-506), mas é a imperícia no controle da velocidade em descidas que define o perfil de risco deste segmento.
O segundo município crítico é Grão Mogol, com 19 mortos e 116 feridos em 68 sinistros. O trecho rural de pista simples apresentou fatores críticos como a velocidade incompatível e a pista escorregadia.
Fatores comportamentais como fadiga (condutor dormindo) e a ausência de reação indicam um perfil de tráfego de longa distância negligente às variações geométricas da via, resultando em altos índices de feridos.
As saídas de pista e os tombamentos predominam em segmentos sinuosos e declives (especialmente nos kms 427, 428 e 441), sendo potencializados por condições de chuva.
As colisões frontais e laterais em curvas se destacam pela extrema letalidade, frequentemente resultantes de invasão de pista ou reações tardias em períodos noturnos e de visibilidade reduzida.
Os pontos críticos entre os kms 420 e 450 concentram a maior carga de vítimas, com destaque trágico para o km 441, que registrou nove mortes sob chuva.
Já nos trechos de reta, há uma recorrência atípica de incêndios por falhas mecânicas e colisões traseiras, sugerindo déficit de manutenção veicular e desrespeito sistemático à distância de segurança.
O que está sendo feito para reduzir medo e mortes?
As tragédias constantes registradas na BR-251 impõem medo para as pessoas que precisam percorrer constantemente a estrada. O trecho compreende 300 quilômetros entre Montes Claros e a BR-116 (Rio-Bahia).
A apreensão é vivida nos pequenos municípios do Norte de Minas que são “cortados” ou estão localizados próximo da rodovia e seus moradores, inevitavelmente, precisam pegar a perigosa estrada nos seus deslocamentos, principalmente nas viagens até Montes Claros, cidade-polo da região, para tratamento de saúde e outros compromissos.
Entre essas cidades estão: Francisco Sá, Grão Mogol, Botumirim, Cristália, Fruta de Leite, Josenópolis, Padre Carvalho, Novorizonte, Rubelita, Santa Cruz de Salinas e Salinas, a “Capital da Cachaça”.
A BR-251 encontra-se em processo de concessão para a iniciativa privada, conduzido pela ANTT, que prevê melhorias no trecho. Lideranças do Norte de Minas iniciaram movimento exigindo mudanças no projeto, já que no processo está prevista a duplicação de apenas 24,2 quilômetros da estrada e elas pleiteiam a duplicação de todo o trajeto da BR-251 (300 quilômetros) ou de pelo menos nos trechos mais perigosos.
O processo de concessão iniciado pela ANTT, além da BR-251, envolve o trecho mineiro da BR-116 (Leste de Minas e Vales do Mucuri e do Jequitinhonha). A proposta abrange o total de 734,90 quilômetros das duas rodovias.
Pelo projeto, serão duplicados 24,2 quilômetros na BR-251 enquanto na BR-116 serão duplicados 154,2 quilômetros – ou seja 86,4% do total (178,4 quilômetros) de duplicação prevista no projeto de concessão das duas rodovias.
No dia 10 de abril, insatisfeitos com o teor da proposta do Governo Federal, prefeitos e dirigentes de entidades de classe da região fizeram um protesto no estacionamento de um posto de combustíveis às margens da rodovia, no trecho entre Montes Claros e Francisco Sá, cobrando alterações no processo de concessão.
Eles solicitam o aumento do percurso a ser duplicado e pedem que sejam feitas intervenções nos trechos mais perigosos da estrada, como a Serra de Francisco Sá e a Serra de Salinas.
Desastre em Santa Cruz de Salinas
- Horário do fato: o acionamento e o desastre ocorreram por volta das 6h de domingo
- Localização: o impacto frontal foi registrado na altura do quilômetro 236 da BR-251, em Santa Cruz de Salinas, no Norte de Minas
- Veículos: a batida envolveu um ônibus de viagem, um caminhão carregado de sucata e um carro de passeio
- Vazamento de fluidos: os combustíveis inflamáveis se espalharam pela pista logo após o impacto inicial
- Incêndio: as chamas consumiram os três veículos envolvidos diretamente na colisão frontal
- Risco ambiental: o fogo gerou intensa cortina de fumaça e ameaçou atingir as margens da vegetação nativa
- Bloqueio da pista: os dois sentidos do corredor federal foram interditados para garantir a segurança viária
- Atendimento de emergência: o Corpo de Bombeiros enviou quatro viaturas operacionais de Salinas para conter o perigo
- Procedimento das equipes: os trabalhos se dividiram entre o controle do incêndio, desencarceramento e socorro pré-hospitalar
- Balanço de vítimas: o desastre resultou em cinco mortes confirmadas no ônibus e cinco pessoas feridas levadas a hospitais
Mapeamento dos trechos mais perigosos e riscos descritos
- Quilômetro 236 em Santa Cruz de Salinas: o alto risco de colisão por pista simples e topografia acidentada
- Segmento inicial entre os quilômetros 259 e 273: o volume atípico de incêndios veiculares por falhas mecânicas sob esforço motor
- Quilômetro 273 em Salinas: a recorrência de batidas graves envolvendo a circulação de caminhões e veículos pesados
- Faixa entre os quilômetros 295 e 325: a alta incidência de saídas de pista e tombamentos em curvas sinuosas
- Perímetro geral de Francisco Sá: o segmento considerado mais violento da rodovia pelo histórico de mortes acumuladas
- Trecho entre os quilômetros 470 e 475 em Francisco Sá: a geometria complexa com declives pronunciados e curvas acentuadas
- Quilômetro 474 em Francisco Sá: o ponto de maior letalidade associado a falhas de frenagem e excesso de velocidade
- Segmento retilíneo entre os quilômetros 491 e 506 em Francisco Sá: o risco acentuado por cansaço do condutor e consumo de álcool
- Perímetro rural de Grão Mogol: o perigo gerado pelo tráfego de longa distância associado à velocidade incompatível
- Pontos sinuosos nos quilômetros 427 e 428 em Grão Mogol: a perda de controle e saídas de pista potencializadas em dias de chuva
- Quilômetro 441 em Grão Mogol: a extrema severidade em colisões frontais sob condições climáticas adversas e visibilidade reduzida
Recomendações de prevenção, proteção e segurança viária
- Respeito à sinalização: evitar qualquer tipo de ultrapassagem em áreas de faixa contínua ou visibilidade limitada
- Distância de segurança: manter o distanciamento adequado em relação aos demais veículos, especialmente em declives
- Paradas estratégicas: programar repousos regulares para evitar a fadiga e episódios de sono ao volante
- Sistema de frenagem: vistoriar preventivamente as pastilhas e componentes de freio antes de iniciar a viagem
- Sistema de arrefecimento: checar o nível dos fluidos para evitar superaquecimento do motor em trechos de serra
- Estado dos pneus: monitorar o desgaste da banda de rodagem para assegurar a aderência em pista escorregadia
- Controle de velocidade: adequar o ritmo às condições da via e reduzir a velocidade sob chuva ou neblina
- Entrada em interseções: redobrar a atenção e calcular o fluxo de veículos ao acessar rotatórias e cruzamentos
- Manutenção da frota: combater falhas mecânicas com revisões periódicas severas em veículos de transporte de carga
- Percepção de risco: redobrar os cuidados em viagens noturnas devido às variações geométricas e relevo do traçado
