A queda nos homicídios detectada pelo Atlas da Violência 2026, divulgado nesta terça-feira (26/5), pode esconder uma subnotificação que leva a um resultado distorcido. Segundo números colhidos em 2024, foram contabilizados oficialmente 42.590 assassinatos, o que representa uma taxa de 20,1 mortes por 100 mil habitantes e uma redução de 6,9% em números absolutos. Porém, os pesquisadores que partciparam do levantamento chama a atenção que essa redução pode não ser verdadeira devido ao fenômeno dos "homicídios ocultos".
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Prova disso é que a chamadas Mortes Violentas por Causa Indeterminada (MVCI) cresceram 88,6%, entre 2023 e 2024 — saltaram de 3.755 para 7.083 casos reclassificados possivelmente como homicídios. Representa que o total estimado de assassinatos no Brasil chegaria a 49.673, o que reduziria a queda real em relação a 2023 para apenas 0,4%.
Fatores como envelhecimento populacional, que reduz o contingente de jovens — perfil principal das vítimas —, acomodações na guerra entre facções do narcotráfico e aprimoramento da gestão da segurança em territórios específicos são apontados como as principais causas para o recuo nos índices.
No ano de análise, apenas 99 municípios (1,8% do total) concentraram 50% dos homicídios, e as 10 cidades mais violentas responderam por 19,4% das mortes nacionais. O Amapá registrou a maior taxa oficial de assassinatos (45,7), enquanto São Paulo manteve o menor índice (6,6).
Maranguape (CE) está no topo do ranking municipal de letalidade estimada para cidades com mais de 100 mil habitantes, com taxa de 87,2. É seguida por Jequié (BA), com 79,4, e Maracanaú (CE), com 74,1. As cidades menos violentas se concentram no Sudeste e Sul — Jaraguá do Sul (SC) apresenta o menor índice, com apenas 2,0.
Cor e gênero
O relatório reforça que a letalidade no Brasil tem cor e gênero definidos. A população negra representa 77% das vítimas de homicídio. Em 2024, foram assassinados 32.820 negros, média de 89,9 mortes por dia. Além disso, o risco de uma pessoa negra ser assassinado é 2,7 vezes maior do que um não negro.
No caso das mulheres, foram 3.642 feminicídios (taxa de 3,4), sendo que 67,5% das vítimas eram negras. As notificações de violência não letal contra mulheres subiram 6,1% em 2024, totalizando 293.842 vítimas, com 64% dos casos ocorrendo no ambiente doméstico. O índice de reincidência é alto: 66,2% das mulheres atendidas na rede de saúde já haviam sofrido violência antes.
Sobre os jovens assassinados entre 15 a 29 anos, foram 19.801 em 2024 (taxa de 42,2). Nos últimos 11 anos, o Brasil perdeu mais de 301 mil jovens para a violência.
No caso da violência sexual contra crianças e adolescentes, na faixa de zero a quatro anos as notificações cresceram mais de quatro vezes em uma década. Entre cinco a 14 anos, o aumento foi de 6.594 para 29.135 registros, entre 2014 e 2024.
As notificações de violência contra homossexuais e bissexuais subiram 5,5% (10.250 casos) — contra transexuais e travestis foi de 2,6% (5.575 casos). O uso de arma de fogo esteve presente em 70,1% dos homicídios (29.870 casos), a menor proporção em 10 anos.
O Atlas da Violência 2026 foi elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
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