Podcast do Correio

Heloísa Schurmann conta como voltas ao mundo acenderam o alerta sobre poluição dos oceanos

Em entrevista ao Podcast do Correio, Heloisa Schurmann e Iran Magno tratam sobre a urgência do cuidado com os oceanos, responsáveis por cerca de 50% do oxigênio produzido no planeta

A preservação dos oceanos deixou de ser uma pauta puramente contemplativa para se tornar uma questão de sobrevivência global. Em entrevista ao Podcast do Correio, a velejadora e escritora Heloisa Schurmann, fundadora do Instituto Voz dos Oceanos, e o engenheiro florestal Iran Magno, estrategista da ONG Oceana, traçaram um panorama crítico sobre a poluição marinha e a necessidade imediata de mudanças legislativas e de comportamento no Brasil. 

Heloisa Schurmann, que já completou quatro voltas ao mundo, acompanhada da família, relatou como sua conexão com o mar se transformou ao longo das décadas. Se antes o oceano era apenas uma "estrada que leva para as partes do mundo", com o tempo se tornou o cenário de um desastre ambiental visível. Às jornalistas Mariana Niederauer e Sibele Negromonte, ela relatou que o impacto começou a ser notado de forma mais intensa em 2015, quando, em uma ilha deserta, recolheram mais de 10 sacos de 100 litros de garrafas PET em apenas 100 metros de praia.

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Circulando pelos oceanos, percebiam cada vez mais a presença de lixo nos mares, foi quando tomaram a decisão, de volta ao Brasil em 2018, de fundar o Instituto Voz dos Oceanos. O relato mais alarmante, porém, veio de sua expedição recente à Indonésia em 2025. "Literalmente eu fui agredida, levei tapas de lixo", afirmou Heloísa ao descrever um mergulho onde potes de iogurte e embalagens de xampu a forçaram a sair da água. Ela reforça que o problema é onipresente: "A gente achava que era um problema do Brasil... Mas fomos vendo que não, é realmente um problema global".

Plástico de uso único, os maiores vilões

Iran Magno diz que o primeiro passo para uma mudança seria o entendimento comum de que a poluição vista no mar não vem direto das lixeiras de casa para o oceano, mas que uma carreira de decisões foram feitas até esse resultado. 

Ele também destacou que o Brasil ocupa uma posição vergonhosa no cenário mundial: é o oitavo maior poluidor de oceanos do mundo e o primeiro na América Latina. Anualmente, o país produz mais de 500 bilhões de itens de plástico de uso único, materiais que duram séculos na natureza, mas são utilizados por apenas alguns minutos.

Magno ressaltou a irracionalidade da produção atual: "No século 21, não faz mais sentido a gente pegar um material que dura tanto e empregar num item que a gente vai usar por cinco minutos e vai virar lixo". Esse descarte desenfreado alimenta o que chamam de "tsunami de plástico", cujos efeitos já chegaram à saúde humana por meio dos microplásticos. A campanha Pare o tsunami de plástico, articulação entre diversas entidades do terceiro setor, deriva dessa percepção do avanço da poluição nos oceanos.

Heloisa cita uma pesquisa científica realizada em parceria com a Universidade de São Paulo (USP) revelou que 100% do território litorâneo brasileiro está contaminado por microplásticos. A análise laboratorial de mariscos mostrou resultados assustadores para a segurança alimentar. "Equivale a um pastel de microplástico que você está comendo ao consumir esses alimentos", alerta Heloísa, citando um dos professores que participou do estudo. Na segunda-feira (9/6), ela participou de sessão solene no Senado Federal em homenagem o Dia Mundial dos Oceanos.

Além da contaminação direta, a indústria resiste a mudanças necessárias. Iran Magno explicou que muitos plásticos rotulados como "biodegradáveis" são, na verdade, uma falsa solução, pois sua estrutura molecular é idêntica à do plástico comum.

Projeto de lei propõe Economia Circular do Plástico

A grande aposta das organizações ambientais no Brasil é a aprovação do Projeto de Lei nº 2.524/2022, que propõe uma Economia Circular do Plástico. O projeto visa "fechar a torneira" da produção de plásticos descartáveis problemáticos, como canudos e talheres que não têm cadeia de reciclagem eficiente.

Embora já tenha sido aprovado em comissões, o projeto está parado há quase dois anos, sob a relatoria do senador Otto Alencar (PSD/BA). Magno enfatiza que mais de 140 países já adotaram leis de restrição semelhantes, citando o exemplo do Chile, onde sacolas plásticas em supermercados foram banidas de forma definitiva.

Um dos pontos centrais da discussão foi desmistificar a ideia de que apenas as florestas sustentam a vida na Terra. "O mundo tem dois pulmões, um verde e o outro azul", lembrou Heloisa, destacando que os fitoplânctons produzem mais oxigênio do que todas as árvores juntas.

O oceano também é o principal regulador do clima, tendo absorvido 90% do calor excedente do planeta desde 1970. Fenômenos extremos como o El Niño, que causam secas e tempestades devastadoras, são reflexos diretos do desequilíbrio térmico das águas.

Para combater a crise, Heloisa aposta na educação oceânica, defendendo que o tema faça parte do currículo escolar para formar novas gerações. Com isso em mente, ela lançou livros infantis, como Kat - A Guardiã dos Oceanos, para engajar as crianças na causa.

“Meu desejo é que todas as gerações futuras não apenas reflitam sobre como estão agindo, mas ativamente mudem a forma de agir. É fundamental que haja mudança, que, mesmo na escola, no dia a dia, mantenham isso em mente”, reflete Heloisa. 

Magno também diz que a geração atual precisa tomar responsabilidade para que as futuras não precisem passar pelos mesmos problemas. As ações e dados produzidos pela ONG sobre a preservação dos oceanos estão disponíveis no site brasil.oceana.org.

Prestes a completar 80 anos, a velejadora deixou um apelo final: "Descasque mais e rasgue menos", referindo-se à redução do uso de embalagens. Ela reforça que a tecnologia atual permite o conhecimento necessário para agir: "Vocês têm uma fonte incrível de tecnologia para saber. Não agir é um erro. Preservem os oceanos e sejam uma voz dos oceanos!".

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