Saúde

Você não vê, mas consome: o perigo dos microplásticos na saúde humana

Presentes na água, nos alimentos, nas roupas e no ar que respiramos, os microplásticos deixaram de ser apenas um problema ambiental para entrar definitivamente na pauta da saúde

Os micro e nano plásticos mal são visíveis a olho nu -  (crédito: Reprodução/Freepik)
Os micro e nano plásticos mal são visíveis a olho nu - (crédito: Reprodução/Freepik)

Eles estão na água que corre da garrafa para o copo, nas fibras que se desprendem da roupa durante a lavagem, na poeira que se acumula silenciosamente nos móveis e até na embalagem daquele alimento aquecido às pressas no micro-ondas. Invisíveis a olho nu, os microplásticos são partículas menores que cinco milímetros resultantes da degradação de materiais plásticos ou produzidas intencionalmente para uso industrial e cosmético. Esses pequenos resíduos deixaram de ser apenas um problema ambiental para ocupar, cada vez mais, espaço em uma discussão urgente: o impacto sobre a saúde humana.

Antes a preocupação estava concentrada em oceanos, rios e aterros sanitários, agora a ciência volta os olhos para dentro do próprio corpo. Nos últimos anos, estudos identificaram micro e nano plásticos em tecidos humanos como sangue, pulmões, intestino, fígado, rins, placenta, leite materno, sêmen, testículos e até no cérebro, achados que reforçam o quanto a exposição já faz parte da rotina contemporânea. As principais portas de entrada são a ingestão e a inalação — água engarrafada, alimentos ultraprocessados, frutos do mar, poeira doméstica, ar urbano e fibras liberadas por tecidos sintéticos estão entre as fontes mais comuns.

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"Hoje, sabemos que a exposição é ampla e praticamente inevitável", explica o clínico geral Lucas Albanaz, diretor clínico do Hospital Santa Lúcia Gama. Segundo ele, embora parte dessas partículas provavelmente seja eliminada pelo organismo por meio de fezes, urina, bile e secreções respiratórias, algumas menores, especialmente os nano plásticos, podem atravessar barreiras biológicas, circular pela corrente sanguínea e se alojar em diferentes tecidos, ainda sem que a ciência saiba exatamente por quanto tempo permanecem ali ou qual carga corporal pode representar risco clínico.

O médico Igor Trotte, especialista em ginecologia endócrina e reprodutiva, explica que ainda não é possível obter uma resposta concreta em relação aos danos a curto, médio e longo prazos nos seres humanos, mas estudos laboratoriais e observacionais apontam associações entre a presença de microplásticos e processos inflamatórios, estresse oxidativo, alterações hormonais, disfunções metabólicas, impactos reprodutivos e até eventos cardiovasculares.

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O que são microplásticos?

São pequenas partículas de plástico, com 5 milímetros ou menos de diâmetro, invisíveis ou mal visíveis a olho nu. Quando menores, em escala nanométrica, são chamados de nanoplásticos. 

 

De onde vêm? 

Da fragmentação de plásticos maiores, como garrafas, sacolas, embalagens, pneus, tintas, tecidos sintéticos ou de partículas fabricadas intencionalmente, como algumas usadas em cosméticos, produtos industriais e abrasivos. A degradação ocorre por luz solar, calor, atrito, lavagem, uso repetido e descarte ambiental.  

 

Como entram no organismo?

As principais vias são ingestão e inalação, como em água, alimentos, sal, frutos do mar, ultraprocessados, poeira doméstica, ar urbano, fibras têxteis e contato de alimentos com embalagens plásticas. A absorção pela pele parece ser menos relevante, embora ainda estudada. Partículas menores, especialmente nanoplásticos, têm maior chance de atravessar barreiras biológicas.  

 

Fontes cotidianas de microplásticos 

  • Garrafas plásticas 

  • Potes

  • Embalagens

  • Copos descartáveis

  • Tábuas de corte plásticas

  • Saquinhos de chá plásticos 

  • Utensílios riscados 

  • Roupas sintéticas, como poliéster, nylon e acrílico

  • Carpetes 

  • Produtos de higiene e beleza

  • Poeira doméstica 

 

Como evitar ou reduzir a exposição

Na cozinha e na alimentação:

  • Evite plásticos quentes: não aqueça alimentos no micro-ondas em recipientes plásticos.

  • Troque os utensílios: substitua tábuas de corte, tigelas e espátulas de plástico por opções de madeira, vidro ou aço inoxidável.

  • Beba água filtrada.

  • Reduza ultraprocessados: alimentos embalados em plástico, como comida congelada, têm maior contaminação.

  • Evite saquinhos de chá.

Roupas e têxteis:

  • Prefira fibras naturais: escolha roupas de algodão, lã, seda ou linho, evitando poliéster, nylon e acrílico, que soltam microfibras.

  • Lave sintéticos com cuidado: lave roupas sintéticas com menos frequência, use água fria e considere sacos de lavagem especiais que retêm fibras.

Produtos de higiene e casa:

  • Evite microesferas: verifique a composição de esfoliantes e pastas de dente para evitar polietileno (microplásticos);

  • Reduza a poeira: passe aspirador de pó regularmente, pois a poeira doméstica, frequentemente, contém fibras plásticas de tapetes e móveis.

Hábitos de consumo:

  • Evite descartáveis: Troque sacolas, canudos e garrafas de plástico por opções reutilizáveis.

 

Possíveis danos e riscos

  • Inflamação e danos celulares: a presença de microplásticos gera reações inflamatórias crônicas, citotoxicidade (destruição de células) e genotoxicidade.

  • Desregulação endócrina: substâncias químicas presentes nos plásticos (como bisfenóis e ftalatos) agem como desreguladores hormonais, interferindo no sistema endócrino e nos hormônios sexuais.

  • Problemas cardiovasculares e respiratórios: estudos associam a presença dessas partículas a doenças cardíacas e problemas pulmonares, como asma, pneumonia e rinite alérgica, devido à inalação de microplásticos no ar.

 

Efeitos na fertilidade

  • Feminina: estudos em animais e células mostram possível impacto em ovários, folículos, qualidade dos óvulos, inflamação e hormônios sexuais.

  • Masculina: microplásticos já foram detectados em testículos e sêmen, e estudos experimentais sugerem efeitos sobre espermatogênese, inflamação testicular, estresse oxidativo e hormônios como testosterona. 

 

Políticas públicas 

Segundo o clínico geral Lucas Albanaz as principais políticas públicas a serem debatidas sobre os microplásticos seriam: reduzir plástico descartável; restringir microplásticos intencionais; regular aditivos como bisfenóis, ftalatos e PFAS; exigir testes padronizados em água, alimentos e embalagens; melhorar tratamento de esgoto; controlar emissão de fibras têxteis e desgaste de pneus; rotular embalagens seguras para aquecimento; incentivar vidro, inox e materiais reutilizáveis; e financiar estudos independentes de longo prazo. A OMS reconhece que ainda há incertezas, mas recomenda melhorar o monitoramento e reduzir a poluição plástica.


Palavra do especialista

Há relação entre essas partículas e alterações metabólicas?

Existe uma associação entre a exposição a microplásticos e alterações metabólicas, incluindo resistência insulínica, ganho de peso e disfunções da tireoide. Isso acontece porque algumas substâncias presentes nesses materiais podem interferir diretamente na ação hormonal e nos mecanismos inflamatórios do organismo.

 

O que se sabe sobre impactos em puberdade precoce ou menopausa?

Quando falamos em puberdade precoce e menopausa, os desreguladores endócrinos presentes nos microplásticos também entram em discussão. A exposição excessiva a essas substâncias pode influenciar o desenvolvimento hormonal de crianças e adolescentes, acelerando/antecipando a puberdade, além de potencialmente impactar a função ovariana ao longo da vida. São temas que ainda exigem mais estudos clínicos robustos, mas que merecem atenção, principalmente pela exposição contínua da população.

 

Existe possível relação com obesidade?

A possível relação entre microplásticos, obesidade e síndrome metabólica é uma das áreas mais investigadas atualmente. Alguns compostos químicos associados a essas partículas são chamados de ‘obesogênicos’, justamente por poderem alterar mecanismos de saciedade, armazenamento de gordura e gasto energético. Isso significa que a exposição ambiental pode funcionar como mais um fator contribuinte para doenças metabólicas, somando-se à genética, alimentação inadequada e sedentarismo.

Fernanda Parra é médica formada pela Universidade Cidade de São Paulo (Unicid), com pós-graduação em endocrinologia e metabologia

*Estagiária sob a supervisão de Sibele Negromonte

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postado em 17/05/2026 06:00 / atualizado em 17/05/2026 06:00
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