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Carros automáticos fazem motoristas perderem a prática com os manuais?

Especialista explica como o desuso pode reduzir a fluidez ao dirigir veículos manuais, embora ainda faltem estudos específicos

Nos últimos anos, os veículos automáticos deixaram de ser um item restrito a modelos de luxo e passaram a ocupar a maior parte das vendas de carro novos no país     -  (crédito: Freepik)
Nos últimos anos, os veículos automáticos deixaram de ser um item restrito a modelos de luxo e passaram a ocupar a maior parte das vendas de carro novos no país - (crédito: Freepik)

Com os carros automáticos dominando cada vez mais as ruas brasileiras, uma situação tem se tornado comum: motoristas habilitados para dirigir veículos manuais descobrem que já não conseguem conduzi-los com a mesma facilidade de antes. A dificuldade levanta uma dúvida: será que é possível perder a prática de dirigir um carro manual depois de anos usando apenas automáticos?

O cenário ajuda a explicar a discussão. Nos últimos anos, os veículos automáticos deixaram de ser um item restrito a modelos de luxo e passaram a ocupar a maior parte das vendas de carro novos no país. Hoje, também são maioria nas buscas feitas por consumidores interessados em trocar de carro, refletindo uma mudança no comportamento dos brasileiros. Em muitos segmentos, como o de SUVs, encontrar um modelo com câmbio manual já se tornou exceção. Essa transformação no mercado faz com que muitos motoristas passem anos sem precisar usar embreagem ou trocar marchas. 

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Apesar da percepção de que muitas pessoas “desaprenderam” a dirigir carros manuais, no entanto, ainda não existem estudos científicos que tenham acompanhado motoristas que passam anos dirigindo exclusivamente carros automáticos para medir como eles se saem ao voltar com o câmbio manual. 

Segundo o pesquisador da Faculdade de Ciência e Tecnologia em Engenharia (FCTE) da Universidade de Brasília (UnB), Francisco Vieira Garonce, dirigir um carro manual é uma habilidade sensório-motora complexa que, com a prática, passa a ser executada quase de forma automática pelo cérebro. 

"Um período prolongado sem executar essa habilidade pode reduzir a fluidez, a precisão temporal, a adaptação ao ponto da embreagem e a confiança. Isso não significa necessariamente que a habilidade tenha sido apagada. Algumas representações motoras permanecem, mas velocidade, coordenação e automatismo podem se deteriorar e precisar ser recalibrados", explica ao Correio

Na prática, isso significa que a pessoa continua sabendo como dirigir um carro manual, mas pode precisar de alguns minutos (ou até de algumas horas de aulas prática) para recuperar movimentos que antes eram naturais, como controlar a embreagem em uma subida ou realizar trocas de marcha de forma suave. 

Pode ser necessário um treinamento 

Uma ampla revisão científica publicada em 2025 na revista Psychological Bulletin reforça essa explicação. Os pesquisadores Corey E. Tatel e Phillip L. Ackerman analisaram 457 estudos sobre retenção de habilidades procedurais e concluíram que o desempenho tende a diminuir quanto maior é o período sem prática. A velocidade dessa perda varia conforme a complexidade da tarefa, a frequência de uso e o tipo de treinamento recebido. Embora a pesquisa não tenha avaliado especificamente a condução de veículos com câmbio manual, seus resultados ajudam a compreender por que habilidades motoras complexas exigem prática contínua para manter o mesmo nível de automatismo. 

Outras pesquisas apontam que o próprio uso do câmbio automático reduz a carga de trabalho do motorista. Um estudo publicado na revista Gerontology, em 2012, verificou que motoristas idosos apresentaram melhor desempenho ao dirigir veículos automáticos do que manuais, justamente porque não precisavam dividir a atenção entre o trânsito e as trocas de marcha.

Para Garonce, esse conjunto de evidências mostra que a dificuldade relatada por muitos motoristas não deve ser interpretada como um "esquecimento" completo da habilidade.

"O cérebro continua armazenando parte desse aprendizado. O que pode acontecer é uma perda de precisão, velocidade e confiança, fazendo com que movimentos antes automáticos passem novamente a exigir atenção consciente", afirma.

Embora ainda faltem pesquisas específicas sobre motoristas que migraram definitivamente para carros automáticos, especialistas avaliam que a tendência é que cada vez mais brasileiros passem longos períodos sem utilizar o câmbio manual. Com isso, recuperar a familiaridade com a embreagem e as trocas de marcha pode deixar de ser apenas uma questão de memória e passar a exigir um novo período de adaptação.

Ou seja, há quem diz que desaprendeu e que até precisaria de ajuda para dirigir novamente um carro manual, e há quem diz que não esqueceu e que mesmo usando o carro automático há mais de 4 anos, acredita não ter desaprendido.

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postado em 25/07/2026 09:00
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