PORTO ALEGRE

Rio Guaíba volta a subir, mas risco é menor que na enchente de 2024

Lago que banha a capital gaúcha pode atingir o nível de 2,60m por causa das fortes chuvas dos últimos dias no estado. Mas Serviço Geológico do Brasil assegura que são poucas as chances de uma inundação semelhante àquela de 2024

Monitoramento do Guaíba indica baixa possibilidade de transbordamento, tal como em 2024, quando parte de Porto Alegre ficou debaixo d'água -  (crédito: Gustavo Mansur/Palácio Piratini)
Monitoramento do Guaíba indica baixa possibilidade de transbordamento, tal como em 2024, quando parte de Porto Alegre ficou debaixo d'água - (crédito: Gustavo Mansur/Palácio Piratini)

O Lago Guaíba pode atingir a cota de alerta, de 2,60m, no Cais Mauá, em Porto Alegre. O alerta é do Serviço Geológico do Brasil (SGB), que faz o monitoramento diário das condições hidrológicas no Rio Grande do Sul após as chuvas registradas nos últimos dias. O boletim destaca, porém, que não há previsão de um evento extremo semelhante à enchente histórica de maio de 2024, que inundou a maior parte da capital gaúcha.

O SGB aponta a possibilidade de o lago atingir a cota de inundação, de 3m, uma vez que as chuvas dos últimos dias interromperam a tendência de redução dos níveis do Guaíba. Isso levou a nova elevação das águas em direção à Região Metropolitana de Porto Alegre — onde o volume de chuva foi de aproximadamente 40 milímetros.

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Segundo o engenheiro agrônomo Charles Dayler, a elevação do Guaíba resulta da convergência das águas de diferentes origens. "O sistema Guaíba é constituído por várias bacias hidrográficas. Cada uma delas recebe contribuição de chuva e todas direcionam a água para o mesmo local, o delta do Jacuí, no Guaíba. Toda essa contribuição de água é canalizada para a mesma saída, afunilando o volume", explica.

Entre as bacias monitoradas, o Rio Taquari registrou acumulados superiores a 100 milímetros de chuva em 24 horas e segue com elevação do nível da água. Na Bacia do Rio Caí, os acumulados chegaram a cerca de 80 milímetros no mesmo período, também com tendência de alta. Nas demais bacias, os acumulados ficaram próximos de 50 milímetros.

Dayler destaca que o elevado volume de precipitação registrado em bacias como a do Taquari aumenta a pressão sobre o sistema. "Uma vez que a chuva cai na cabeceira do rio, ela leva um tempo até chegar ao delta. O que pode acontecer é as chuvas de diferentes bacias hidrográficas chegarem ao mesmo tempo, gerando um 'engarrafamento' de água na saída e afunilando um volume muito grande. Outro aspecto é o vento no delta, que, se estiver soprando contra, dificulta o escoamento da água", afirma.

Na Bacia do Rio Uruguai, o cenário é diferente. A ausência de chuvas nas últimas horas favoreceu a redução gradual dos níveis em municípios como São Borja, Itaqui e Uruguaiana. Em contrapartida, cidades localizadas no trecho médio da bacia, como Iraí (RS) e Itapiranga (SC), seguem com tendência de elevação devido ao deslocamento das águas das chuvas registradas nos dias anteriores.

Dados do painel de Monitoramento de Abrigos e Abrigados do Governo do Rio Grande do Sul mostram que o estado contabilizava, até ontem, 14 abrigos ativos distribuídos em 14 municípios, com 1.035 pessoas acolhidas. O número voltou a crescer após atingir 395 pessoas no dia 28 de julho.

O Vale do Taquari concentra 64,8% dos desabrigados, seguido pelo Vale do Caí (18,6%) e pelo Vale do Paranhana (8,2%). Lajeado é o município com o maior número de pessoas em abrigos, com 432 acolhidos, seguido por São Sebastião do Caí (117), Estrela (108), Taquara (85) e Montenegro (76).

A previsão do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) indica tempo estável para hoje, com aumento gradual da nebulosidade e intensificação dos ventos no litoral, onde foi emitido alerta amarelo para ventos costeiros. Para amanhã, a aproximação de uma frente fria deve provocar chuva e trovoadas em praticamente todo o estado. A previsão indica acumulados superiores a 50 milímetros, em 24 horas, em diversas regiões. O Inmet emitiu alerta laranja para tempestades na fronteira com o Uruguai, abrangendo municípios como Uruguaiana, Santana do Livramento, Bagé e Santa Vitória do Palmar. O restante do estado permanece sob alerta amarelo para tempestades.

Para Dayler, eventos como esse tendem a se tornar mais frequentes em razão das mudanças climáticas. "As mudanças climáticas favorecem o acontecimento de eventos extremos, como chuvas muito fortes, períodos de seca prolongados e ondas de calor. Isso também altera a intensidade do El Niño. Quando esse fenômeno ocorre com maior intensidade, como aconteceu em 2024 e volta a ocorrer agora, a Região Sul registra excesso de chuva. A alta emissão de carbono tende a intensificar as mudanças climáticas, colaborando para eventos cada vez mais severos", conclui.

Rio sem luz e estragos em São Paulo

O Rio de Janeiro acordou, ontem, com mais de 500 mil imóveis sem energia elétrica devido aos fortes ventos que chegaram a mais de 100 km/h na Região Sudeste, anteontem, que diminuíram a intensidade. Mas, ao longo do dia, vários bairros continuavam sem fornecimento de luz — alguns completaram 24h às escuras. A previsão é de que apenas hoje o problema esteja solucionado, quando houver a remoção total de árvores e postes que caíram e a rede voltar a funcionar.

De acordo com o Márcio Bueno, meteorologista da Tempo OK, a expectativa é que a situação se estabilize gradualmente. Ele explica que a frente fria responsável pelos ventos mais intensos se afastou em direção ao oceano, fazendo com que as rajadas diminuam de forma significativa. "Nos próximos dias, os ventos ainda podem ocorrer, mas com intensidade bem menor do que a observada na última quarta-feira", afirmou.

O prefeito do Rio, Eduardo Cavaliere, afirmou, ontem, que o vendaval foi muito além do previsto por institutos de meteorologia. Ele ainda disse que a ventania estava relacionada aos efeitos do El Niño. "O aviso feito ontem (quarta-feira), no começo da tarde, era de ventos muito menos intensos do que os que acabaram ocorrendo. Realmente, foi um evento extremo, relacionado ao Super El Niño, mais intenso do que o previsto pelas estações meteorológicas", disse. Porém, para o Climatempo não é possível dizer que o fenômeno climático El Niño tenha sido responsável direto pela ventania.

A ventania registrou cinco mortes. Em São Paulo, foram três: em Santos, um homem em situação de rua morreu atingido por uma árvore; em Cesário Lange, Região Metropolitana de Sorocaba, outra árvore caiu sobre um carro, matando o motorista; e em São Sebastião, um pescador morreu após o naufrágio de uma embarcação. No Rio de Janeiro, houve duas mortes provocadas pela queda de um muro, no bairro de Santa Teresa.

A Polícia Civil do Rio também investiga se a morte de três pessoas por descarga elétrica dentro de uma casa, na madrugada de ontem, tem relação com a ventania. Uma mulher sobreviveu e está em estado grave.

Para hoje, o Inmet prevê que em São Paulo pode ter ventos de até 11 km/h, com temperatura mínima de 14° e máxima de 25°. Segundo o Centro de Operações e Resiliência, o Rio terá ventos úmidos e moderados vindo do oceano. Há previsão de céu nublado a parcialmente nublado e chuvisco/chuva fraca isolada durante a madrugada/manhã.

Por causa dos ventos que afetaram a região, o governo federal anunciou um plano de R$ 1,335 bilhão para ações de prevenção e resposta aos efeitos do El Niño. A ministra-chefe da Casa Civil, Miriam Belchior, afirmou que há alta probabilidade de o país enfrentar um evento de forte intensidade. (Colaborou Fernanda Strickland)

* Estagiários sob a supervisão de Fabio Grecchi

 

 

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CY
postado em 31/07/2026 03:55
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