O Brasil registrou redução nas áreas atingidas por queimadas em 2025. O valor registrado foi 31% abaixo da média histórica anual, estimada em 18,4 milhões de hectares, com 12,7 milhões de hectares queimados ao longo do ano passado. Os números são da segunda edição do Relatório Anual do Fogo no Brasil, produzido pelo MapBiomas divulgado ontem (21/7).
O resultado interrompe uma sequência de expansão das queimadas observada nos últimos anos e representa um retorno a patamares historicamente mais baixos. Para Ane Alencar, diretora de Ciências do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e coordenadora do MapBiomas Fogo, a série histórica vai além da medição da área atingida pelas queimadas.
"Mais do que mostrar o quanto o Brasil queimou em um determinado ano, a série histórica do MapBiomas Fogo permite entender como o regime de fogo está mudando ao longo do tempo. Saber onde o fogo é recorrente, com que frequência ele retorna, qual é sua severidade potencial e quais áreas estão queimando mais ou menos é essencial para definir prioridades, orientar ações preventivas e implementar, de forma mais eficiente, a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo", afirma.
Na avaliação da professora Mercedes Bustamante, do Departamento de Ecologia da Universidade de Brasília (UnB), a queda de quase 50% da área queimada no Brasil em 2025 está diretamente ligada à redução dos incêndios registrados na Amazônia. "A redução da área queimada no Brasil está correlacionada à redução significativa de fogo na Amazônia em relação ao ano anterior, em que observamos valores muito altos de incêndios e queimadas", afirma.
Segundo a pesquisadora, o resultado também reflete as condições climáticas observadas nos anos anteriores. "É importante lembrar que 2023 e 2024 foram anos de seca na Amazônia e que tais condições favorecem a propagação de incêndios. Por exemplo, o estado do Amazonas registrou mais de 25 mil focos de queimadas em 2024", destaca.
A principal responsável pela queda nacional foi a Amazônia. O bioma registrou 3,1 milhões de hectares queimados em 2025, o menor valor de toda a série histórica de 41 anos. O resultado contrasta com o cenário observado em 2024, quando a região havia alcançado o recorde de 15,8 milhões de hectares queimados.
Mesmo com a redução, Amazônia e Cerrado continuam concentrando a maior parte das áreas atingidas pelo fogo no país. Juntos, os dois biomas respondem por 86% de toda a superfície brasileira que queimou pelo menos uma vez desde 1985.
O Cerrado permaneceu como o bioma mais afetado em 2025, com 8,7 milhões de hectares queimados. Embora o número esteja abaixo da média histórica anual de 9,6 milhões de hectares, a região segue liderando os registros de incêndios no país.
O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) atribui a redução das queimadas em 2025 à combinação de condições climáticas mais favoráveis e ao fortalecimento das políticas públicas de prevenção e combate aos incêndios florestais.
Segundo a pasta, 2025 foi um ano com condições climáticas dentro da normalidade, diferentemente de 2023 e 2024, marcados por secas severas em diversas regiões do país. Além disso, o ministério destaca que houve ampliação dos esforços do Governo Federal para combater incêndios florestais e reduzir o desmatamento nos diferentes biomas brasileiros.
O MMA também ressalta que um dos principais avanços ocorreu com a sanção da Lei nº 14.944/2024, que instituiu a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo (PNMIF). A legislação criou uma nova estrutura de governança para o manejo do fogo no Brasil, estabelecendo responsabilidades compartilhadas entre União, estados, Distrito Federal, municípios, sociedade civil e entidades privadas, que devem atuar de forma articulada e cooperativa.
Redução no Pantanal
O Pantanal apresentou a maior redução proporcional entre todos os biomas brasileiros. Foram registrados 121 mil hectares queimados, volume 85,6% inferior à média histórica e o menor já observado desde o início da série do MapBiomas.
A Caatinga foi a única exceção ao cenário de queda. O bioma registrou 505 mil hectares queimados, resultado acima de sua média histórica.
Em nível nacional, 64% das áreas queimadas apresentaram severidade baixa ou moderada. Já na Mata Atlântica, no Pantanal e no Pampa, as queimadas de alta e muito alta severidade representaram metade ou mais da área atingida, indicando impactos mais intensos sobre a vegetação.
Os dados históricos mostram ainda que o fogo permanece recorrente em grande parte do território brasileiro. Desde 1985, cerca de 64% das áreas que já queimaram voltaram a ser atingidas pelo fogo pelo menos uma segunda vez.
Entre essas áreas de recorrência, 52% registraram novos incêndios em intervalos de até quatro anos, reduzindo o tempo de recuperação da vegetação.
Na Amazônia, a situação chama atenção pelo curto intervalo entre os episódios de fogo. Segundo o levantamento, 31,6% das áreas queimadas no bioma voltam a registrar incêndios em até dois anos, comprometendo a regeneração da floresta. De acordo com Luiz Felipe Martenexen, pesquisador da equipe MapBiomas Fogo e do Ipam, esse cenário aumenta a vulnerabilidade do bioma.
"Na Amazônia, onde a vegetação não é adaptada ao fogo, intervalos tão curtos entre os eventos reduzem o tempo de recuperação da floresta e aumentam o risco de novos incêndios, mais intensos e degradantes. Esse processo pode comprometer progressivamente a regeneração e tornar a floresta cada vez mais vulnerável ao fogo", explica.
No Cerrado, o estudo mostra que 66% de toda a área queimada no bioma sofreu mais de um episódio de fogo ao longo dos últimos 41 anos, tornando-o o bioma brasileiro com a maior proporção de queimadas repetidas.
Segundo Vera Laísa Arruda, pesquisadora da equipe MapBiomas Cerrado, da equipe MapBiomas Fogo e do Ipam, embora o fogo faça parte da dinâmica natural do Cerrado, o aumento da frequência e da intensidade das queimadas pode comprometer o equilíbrio do bioma. "No Cerrado, o fogo faz parte da dinâmica natural do bioma, mas a dinâmica atual, marcada por eventos mais frequentes e extensos, pode ultrapassar a capacidade de recuperação da vegetação. Quando esse regime se intensifica, aumentam os riscos de perda de biodiversidade e degradação do bioma", destaca.
*Estagiário sob a supervisão de Victor Correia
