Para os 5,2 milhões de crianças e adolescentes que vivem nas regiões de campo do país, os desafios escolares começam muito antes da chegada à sala de aula e têm início ainda na estrada que os leva até as unidades de ensino. Os entraves, muitas vezes, têm início já na porta de casa. Sem possibilidade de transporte por todo o trajeto, muitos começam o percurso a pé até encontrar o ponto de ônibus mais próximo. Essa é a realidade de uma família de baixa renda na região rural do Distrito Federal, acompanhada pela reportagem do Correio na ultima semana. Em um dia, pai e mãe percorrem seis vezes cerca de 1 km de estrada de chão para permitir que quatro filhas tenham acesso à educação regular.
São pouco mais de 10h30 quando Eliane Francisca de Jesus e Adelson Soares da Silva deixam a Chácara Folhas de Palmeiras, na Ponte Alta de Cima, zona rural do Gama. A caminhada que começa ali faz parte de uma rotina repetida todos os dias — faça Sol forte, chuva ou frio — até o ponto onde as filhas embarcam para a escola.
Durante uma manhã inteira, a reportagem percorreu o mesmo caminho de terra batida, ladeiras íngremes, buracos e poeira que as crianças enfrentam diariamente para estudar. A cada passo, os pais relatam que a maior preocupação vai além da distância: envolve segurança, infraestrutura precária e o desgaste físico imposto às filhas. "A gente, que é grande, não aguenta isso aqui. Imagina as crianças", resume Eliane Francisca de Jesus, de 35 anos, trabalhadora rural.
A família deixou Minas Gerais há alguns anos em busca de melhores oportunidades no Distrito Federal e encontrou trabalho na zona rural do Gama, onde vive atualmente. O sonho de oferecer uma vida melhor às quatro filhas, porém, esbarra em um obstáculo diário: garantir que elas consigam chegar à escola. Enquanto caminham, as meninas param algumas vezes para beber água e recuperar o fôlego — o calor da seca aumenta o desgaste. "Para não precisar ir correndo, a gente sai mais cedo e vai parando, porque está Sol e as crianças não dão conta", conta Eliane.
Dificuldades ignoradas
Segundo a mãe, a cobrança da escola pela frequência dos alunos frequentemente desconsidera as condições enfrentadas pelas famílias que vivem na área rural. "A escola só fala que tem que ter presença. Eu falei: a menor tem dor nas pernas, eu não vou mandar todo dia. Eles falam do Conselho Tutelar. Eu digo: manda, porque é bom o Conselho Tutelar vir conhecer a dureza que essas crianças passam", afirma.
A filha mais nova, Mayara Claudete de Jesus Silva, de 7 anos, enfrenta o cansaço constante provocado pela longa caminhada até a escola. Segundo os pais, ela já acumula mais de 16 faltas neste ano letivo, pois, em muitos dias, não consegue concluir o trajeto. "Como é que manda uma criança totalmente molhada para a escola? Elas saem de casa, começam a se molhar no caminho e precisam voltar. Depois a escola questiona por que não tem atestado", relata Adelson.
As filhas mais novas utilizam o transporte escolar, mas o veículo não consegue chegar até a chácara. O ônibus para apenas na rodovia, obrigando as estudantes a percorrerem um longo trecho de estrada de terra até a residência. Maria Eduarda Jesus Silva, de 13 anos, enfrenta o mesmo deslocamento diário. As irmãs usam ônibus diferentes porque estudam em escolas distintas.
Para a filha mais velha da família, de 17 anos, que cursa o ensino médio, o desafio começa ainda mais cedo. Todos os dias, ela sai de casa por volta das 5h30 para chegar até a BR e embarcar em um ônibus de linha, já que a região não oferece essa etapa de ensino. "Aqui não tem ensino médio. Todos os alunos caminham até a pista para pegar ônibus", explica Adelson.
Medo
Além da infraestrutura precária, a insegurança é outra preocupação permanente. Adelson acompanha diariamente as filhas até o ponto de ônibus. "Eu não deixo elas saírem sozinhas. Já vimos gente usando droga na parada, homem sangrando, pessoas dormindo no ponto. Às 5h ainda está escuro. Não tem polícia rural aqui", afirma. Para ele, a ausência de patrulhamento aumenta o risco para as crianças e adolescentes que esperam o transporte. "Se tivesse uma patrulha rural, a gente teria mais confiança. Hoje a segurança é muito pouca."
Depois da caminhada, ainda resta a viagem até a escola. Segundo os pais, as crianças chegam cansadas, cobertas de poeira na seca e completamente enlameadas na época das chuvas. "Chegam suadas, cansadas. Tem que levar até desodorante. Na chuva, o sapato fica pesado de tanta lama", descreve Adelson. Para Eliane, esse desgaste acaba afetando diretamente o rendimento escolar: "As crianças já chegam cansadas na escola."
De acordo com dados do Ministério dos Transportes, o Brasil tem 75,8 mil quilômetros de estradas pavimentadas, sendo que 10,4 mil quilômetros ainda não têm pavimentação. No país, existem atualmente 50 mil escolas na área rural. Parece um número elevado à primeira vista, mas já foi muito maior. Em 1996, ou seja, há 30 anos, eram 270 mil, de acordo com os dados escolares levantados pelo Ministério da Educação à época. A nação vive uma onda acelerada de fechamento de escolas, o que obriga os estudantes e professores a percorrerem distâncias cada vez mais longas. Em razão do agravamento do problema, em 2007, foi lançado o programa Caminhos da Escola, que adquiriu 66 mil ônibus.
Procurado, o Departamento de Estradas de Rodagem do Distrito Federal (DER-DF) informou que realiza obras de asfaltamento do acesso à Escola Classe Ponte Alta de Cima, no Gama, com previsão de entrega ainda neste ano. Os serviços incluem etapas de terraplenagem, pavimentação, drenagem, sinalização, além de obras complementares e a implantação do canteiro de obras. Em relação ao Centro de Ensino Fundamental Ponte Alta de Baixo (CEF PAB), que também fica na região, ainda não há projeto de pavimentação asfáltica. Mas o governo do DF afirma que está sendo criado um grupo de trabalho em conjunto com a Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal (SEEDF) para analisar a demanda.
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Consequências
Os entraves para chegar à sala de aula têm impacto significativo nos dados educacionais e podem perseguir os brasileiros por toda a vida. Dados do Instituto Nacional de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que, em 2024, um total de 8,7 milhões de jovens de 15 a 29 anos tinham deixado a escola antes de completar a educação básica, ou nunca ingressaram em uma unidade de ensino. O dado apresentou queda de 2,5% em relação a 2023, quando eram 9,3 milhões, mas ainda representa uma parcela significativa da força de trabalho e de estudo.
A professora Zuleide Feitosa, doutora em transporte e trânsito e pesquisadora colaboradora da Universidade de Brasília (UnB), destaca que uma infraestrutura precária está diretamente ligada ao abandono escolar. "Na medida em que o acesso é precário e a infraestrutura é escassa, provocamos uma reação imediata nessas pessoas, que já nascem influenciadas pelo meio. No sentido de que, se elas não têm como se deslocar de um ponto a outro, seja para qualquer necessidade, inclusive para ir à escola, esse fator é fortíssimo e acaba sendo determinante para que tenhamos dados tão alarmantes de evasão escolar", explica.
A pesquisadora reforça que os prejuízos que começam na escola se estendem para a vida profissional e financeira. "Se você não tem um meio de deslocamento, seja uma bicicleta, um carro, um ônibus, seja uma motocicleta, como esse indivíduo terá estímulo para se manter em uma sala de aula? E o agravamento da vida econômica vai se acentuando, porque, se não tem formação acadêmica, não consegue ocupar vagas de emprego no mercado de trabalho", completa.
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