Um painel de madeira que aguenta mais tempo em chamas do que o aço: esse é o paradoxo por trás do CLT, a madeira laminada cruzada que chegou à construção civil brasileira e já ergue edifícios de múltiplos pavimentos com até 70% menos tempo de obra do que o concreto armado convencional.
O que é a madeira laminada cruzada e por que ela não é madeira comum?
O CLT (Cross-Laminated Timber) é formado por camadas de tábuas coladas em direções alternadas, a 90 graus entre si. Esse arranjo perpendicular distribui cargas em dois eixos, resultando em resistência estrutural comparável à de uma laje de concreto.
A tecnologia surgiu na Alemanha e na Áustria na década de 1980 e evoluiu até permitir painéis com espessuras e dimensões industriais. A diferença para o compensado comum está na espessura das lamelas e na capacidade de atuar como parede, piso e estrutura autoportante ao mesmo tempo.

Como o CLT se comporta em um incêndio melhor do que o aço?
A resposta está na carbonização controlada: quando exposto ao fogo, o CLT forma uma camada de carvão na superfície que isola termicamente o miolo, preservando a resistência mecânica do núcleo. O processo é previsível e calculável, o que permite dimensionar a segurança com precisão.
O CLT recebe classificação REI 90, ou seja, mantém capacidade de carga e integridade estrutural por até 90 minutos em situação de incêndio. O aço, em comparação, começa a perder metade da resistência estrutural em cerca de 15 minutos de exposição direta ao calor.
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Por que a obra com CLT termina muito mais rápido?
Os painéis chegam ao canteiro pré-fabricados, cortados com precisão milimétrica em fábrica. A montagem funciona como um sistema modular: encaixe, fixação e avanço para o próximo pavimento, sem a espera de cura do concreto ou a complexidade das formas metálicas.
Estudos do setor apontam que sistemas em madeira engenheirada permitem montagens até 70% mais rápidas que o concreto convencional. O canteiro fica mais limpo, gera menos resíduo e exige menos mão de obra operacional para a estrutura principal.
Quais países já usam CLT em arranha-céus e o que o Brasil herda dessa experiência?
A pesquisa publicada na revista Sustainability e indexada pelo IDEAS/RePEC, conduzida por Victor De Araujo e André Christoforo da Universidade Estadual Paulista e da Universidade Federal de São Carlos, mapeou quase cem fabricantes de CLT em todos os continentes habitáveis, com concentração no hemisfério norte.
Os principais casos de referência internacional são:
- Canadá: o edifício Brock Commons, em Vancouver, tem 18 andares e foi erguido em menos de 70 dias de estrutura.
- Suécia: referência em normatização de edifícios de madeira acima de 8 pavimentos desde os anos 1990.
- Áustria: país de origem do desenvolvimento técnico do CLT; possui a maior densidade de fabricantes por habitante do mundo.
- Brasil: capacidade produtiva de madeira engenheirada cresceu 45% nos últimos três anos, com investimentos acima de R$ 1,2 bilhão em novas unidades fabris, segundo a Indústria Brasileira de Árvores (IBÁ).

O Brasil tem condições técnicas e normativas para construir com CLT?
Sim. A ABNT NBR 7190 regula o projeto de estruturas de madeira no país, e a norma está em atualização para incorporar o CLT de forma mais abrangente. A IT 08/2025, instrução técnica do corpo de bombeiros, formalizou em 2025 os requisitos de segurança contra incêndio para construções em madeira engenheirada.
O Brasil tem uma das maiores áreas de florestas plantadas do mundo, com alta produtividade de pinus e eucalipto, as espécies mais usadas na produção de CLT. Essa combinação de matéria-prima abundante, mercado crescente e novo marco normativo posiciona o país para avançar rapidamente no setor.
No vídeo a seguir, o canal do André Pereira, fala um pouco sobre esse método:
O CLT é uma alternativa viável ao concreto armado no longo prazo?
As vantagens técnicas são concretas: estrutura mais leve, que reduz a carga sobre as fundações; carbono sequestrado durante o crescimento da árvore e armazenado na edificação; e desempenho comprovado em incêndios, sismos e cargas estruturais em edifícios de até 18 andares.
O custo inicial ainda é superior ao do concreto em muitos cenários brasileiros, mas a economia no tempo de obra, na redução de fundação e no atendimento a metas ambientais muda o cálculo para projetos de médio e alto padrão. O CLT não substitui o concreto em toda obra, mas abre um caminho real para construir mais rápido, com menos emissões e, paradoxalmente, com mais segurança contra o fogo.










