Em maio de 2007, caçadores inupiat arrastaram para a praia de Barrow, no extremo norte do Alasca, uma baleia-da-groenlândia de porte comum. O que não era comum estava dentro dela: ao retalhar a carne, alguém encontrou cravado na omoplata direita um pedaço de metal que ninguém reconhecia. O fragmento seguiu para um especialista e voltou com fabricante e data: era a ponta de uma lança explosiva feita em New Bedford, nos Estados Unidos, com desenho patenteado em 1879. O animal carregava aquilo desde o século 19.
O achado rodou o mundo, mas não foi o que provou a idade da espécie. A prova veio de um lugar bem menos vistoso: o cristalino do olho. Uma década antes, o biólogo John Craighead George e colegas haviam publicado no Canadian Journal of Zoology a análise química dos olhos de baleias abatidas por comunidades do Alasca, e o número mais alto da tabela era 211 anos. Foi ali que a baleia que vive 200 anos deixou de ser lenda de caçador e virou dado de laboratório.
Por que uma baleia que vive 200 anos guarda a idade dentro do olho?
Baleia não tem anel de árvore nem dente que se corte ao meio. A baleia-da-groenlândia é um misticeto, filtra o alimento com barbatanas de queratina, e o método usado em golfinhos e cachalotes, que contam camadas nos dentes, não serve para ela.
A saída encontrada por George e pela equipe do Departamento de Manejo de Vida Silvestre do North Slope Borough, no Alasca, foi a racemização do ácido aspártico. O núcleo do cristalino se forma no útero e nunca mais é renovado: as proteínas presentes no nascimento são as mesmas da morte. Com o tempo, um aminoácido dessas proteínas, o ácido aspártico, muda da forma L para a forma D num ritmo previsível. Medir a proporção entre as duas é ler um relógio químico que começou a correr no dia em que o animal nasceu.
Quantos anos tinha o animal mais velho da tabela?

O número que ficou famoso pertence a um macho. Segundo o artigo de George e colegas no Canadian Journal of Zoology, volume 77, um dos indivíduos analisados teve a idade estimada em 211 anos, e outros três machos passaram de um século.
A estimativa vem com margem de erro, e os próprios autores tratam o 211 como o centro de uma faixa, não como certidão de nascimento. Mesmo assim, o conjunto mudou o consenso: até os anos 1990, a ciência estimava que a espécie vivesse de 50 a 60 anos, como registra a página de estimativa de idade do North Slope Borough. O banco de dados de longevidade animal AnAge, da Universidade de Liverpool, registra os 211 anos como a maior longevidade conhecida entre os mamíferos.
De onde vem a ponta de arpão do século 19 encontrada em 2007?
A baleia de Barrow não foi a primeira com metal antigo no corpo: pontas de pedra e de ferro já tinham aparecido em animais abatidos nos anos 1980 e 1990, segundo o North Slope Borough.
O fragmento de 2007, porém, podia ser datado. De acordo com o comunicado do New Bedford Whaling Museum, a peça foi identificada por John Bockstoce, curador adjunto do museu, como parte de uma lança-bomba. O desenho correspondia ao modelo patenteado em 1879 por Ebenezer Pierce, fabricante de New Bedford, e a peça teria sido produzida entre 1879 e 1885. O museu estimou o tiro por volta de 1885 a 1890, quando a baleia já era grande o bastante para ser alvo. O museu calculou que o animal tinha mais de 100 anos ao ser abatido, e os olhos foram encaminhados para a mesma análise química do estudo de 1999.
O arpão provou ou o cristalino provou?
O senso comum inverteu a ordem. A história costuma ser contada como se o arpão tivesse revelado a idade da espécie e a ciência tivesse corrido atrás. Foi o contrário.
Em 2007, a datação por racemização já tinha oito anos de publicação e o 211 já circulava em periódico revisado por pares. O que o fragmento de New Bedford fez foi dar ao público uma prova que qualquer pessoa entende: um objeto com data de fabricação, fincado num animal vivo 120 anos depois. Mas prova apenas que aquela baleia tinha mais de um século. Quem estabeleceu que a espécie passa dos 200 foi a química do olho.
O que o genoma da baleia-da-groenlândia revelou em 2015?
Se a espécie vive tanto, alguma coisa no DNA deve explicar. Em janeiro de 2015, Michael Keane, João Pedro de Magalhães e uma equipe internacional publicaram na revista Cell Reports o primeiro genoma completo da baleia-da-groenlândia.
Segundo o artigo, os achados apontam para reparo de DNA e controle do ciclo celular:
- ERCC1 modificado: mutações exclusivas da baleia num gene de reparo de DNA cuja falha, em camundongos, encurta muito a vida e acelera o envelhecimento.
- PCNA duplicado: uma cópia extra de outro gene de reparo, com sinais de seleção positiva e as duas cópias ativas em vários tecidos.
- UCP1 truncado: uma proteína de regulação térmica com o fim da sequência cortado, associada pelos autores ao metabolismo de um animal de água gelada.
Há um enigma de fundo, destacado no mesmo artigo: uma baleia tem cerca de mil vezes mais células do que um humano, e cada célula é uma chance de câncer. Deveria adoecer muito mais do que nós, e não adoece. A hipótese dos autores é que as mudanças no reparo do DNA sejam parte da resposta.
O que a lei brasileira tem a ver com uma baleia do Ártico?
A baleia-da-groenlândia nunca desce ao Atlântico Sul, mas a caça que a perseguiu no século 19 também passou pela costa brasileira, e a lei que encerrou esse ciclo aqui é uma das mais diretas do país.
A Lei 7.643, de 18 de dezembro de 1987, diz no artigo 1º: “Fica proibida a pesca, ou qualquer forma de molestamento intencional, de toda espécie de cetáceo nas águas jurisdicionais brasileiras”. O artigo 2º fixa pena de dois a cinco anos de reclusão, mais multa. O efeito aparece na jubarte, que nos anos 1980 caminhava para sumir do litoral. O censo aéreo de 2022 do Projeto Baleia Jubarte, feito com a empresa Socioambiental, percorreu 6.204 quilômetros de costa entre São Paulo e o Rio Grande do Norte e estimou a população brasileira em cerca de 25 mil animais. Um peixe-boi que sobreviveu a um atropelamento mudou regras de navegação num único parque; no Brasil, foram as baleias que mudaram a lei. A idade só se revela quando alguém decide medir, seja no olho de uma baleia, seja nos exames que um cão pequeno passa a fazer depois dos 10 anos.
O que convém lembrar sobre a baleia que vive 200 anos?
Quando alguém repetir que “o arpão provou a idade”, corrija a ordem: o cristalino provou em 1999, o arpão ilustrou em 2007. Guarde o nome do método, racemização do ácido aspártico, um relógio químico que começa no útero e nunca reinicia. Trate os 211 anos como estimativa com margem, porque é assim que os autores tratam. Ao ler sobre “genes da longevidade”, procure ERCC1, PCNA e a palavra reparo. E, se for ver baleias no litoral brasileiro, observe a distância do barco: a Lei 7.643/1987 proíbe qualquer molestamento intencional.
Tudo o que está reunido aqui tem função informativa e foi extraído de artigos científicos publicados, de um comunicado de museu e do texto da lei brasileira; as idades citadas são estimativas dos próprios pesquisadores, e quem quiser os detalhes de método deve recorrer aos trabalhos originais de George et al. (1999) e Keane et al. (2015).




