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O bairro de São Paulo que cresceu dentro de uma cratera de 3,6 km aberta por um asteroide: o que a USP encontrou em Parelheiros e por que a Cratera de Colônia é um dos registros mais bem preservados do tipo no Brasil

Por João Victor
05/09/2026
Em Curiosidades
Bairro paulistano dentro da Cratera de Colônia

Bairro paulistano dentro da Cratera de Colônia. Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

Quem desce a Avenida José Lutzenberger, em Vargem Grande, no extremo sul de São Paulo, vê casas de dois andares, comércio de esquina, ônibus lotado. O que não se vê da calçada é o desenho maior: as casas estão no fundo de um círculo quase perfeito de 3,6 quilômetros de diâmetro, cercado por um anel de morros, e esse círculo, segundo a Universidade de São Paulo, foi aberto por um asteroide há milhões de anos.

A Cratera de Colônia, em Parelheiros, é conhecida dos geólogos desde a década de 1960, mas por muito tempo carregou uma dúvida: seria mesmo obra de um corpo celeste ou apenas uma depressão esculpida por erosão e falhas? Em 2026, um estudo liderado pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP publicou o que a equipe chama de impressão digital do impacto: grãos de zircão com marcas que só se formam sob pressões que nenhum processo comum da crosta alcança.

Por que a Cratera de Colônia, em Parelheiros, virou notícia de asteroide em 2026?

Porque um mineral minúsculo respondeu a uma pergunta de 60 anos.

O artigo “Shock-Related Microstructural Deformation in Zircon from the Colônia Impact Crater, Brazil”, de Victor Velázquez Fernandez e quatro coautores, saiu no periódico Earth and Planetary Science (volume 5, número 1, publicado em 26 de março de 2026). A equipe, da USP e do Instituto de Pesquisas Ambientais de São Paulo, examinou 200 lâminas delgadas de rocha retiradas de sondagens no interior da cratera e separou 40 grãos de zircão maiores que 50 micrômetros. Seis foram destrinchados ao microscópio, e é neles que aparece a prova que faltava.

O que o zircão guarda que outras rochas apagam?

Zircão analisado no laboratório da USP
Zircão analisado no laboratório da USP. Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

O zircão é um dos minerais mais resistentes que existem, e por isso é o melhor arquivista de catástrofes.

A equipe descreveu cinco tipos de deformação nos grãos, entre elas as feições de deformação planar, conhecidas pela sigla em inglês PDF. Segundo a reportagem do Jornal da USP sobre a descoberta, essas feições são linhas de cerca de 1 micrômetro de largura que atravessam o cristal em planos paralelos e só surgem sob onda de choque. Velázquez resumiu ao Jornal da USP: “Os PDFs são praticamente uma impressão digital de que houve impactos de asteroides para a formação de crateras”. Pela mesma fonte, a pressão necessária fica em torno de 40 quilobares, algo como 40 mil vezes a pressão atmosférica, com temperatura próxima de 5.000 °C no instante da colisão.

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Como funciona a identificação de uma cratera de impacto no Brasil?

Não basta ser redonda. Vulcões e bacias de erosão também desenham círculos no mapa.

A hipótese de impacto para Colônia foi proposta em 1961 e ganhou corpo com trabalhos de Alvaro Crósta e de Claudio Riccomini nas décadas seguintes. Em 2013, Velázquez, Riccomini e mais cinco autores publicaram no International Journal of Geosciences a primeira evidência direta de metamorfismo de choque nas brechas da cratera: feições planares em quartzo, feldspato e mica, além de vestígios de rocha fundida, obtidos em furos de sondagem de 142 e 197 metros. Esse artigo de 2013 também mediu um relevo de 120 metros entre a borda e o piso da cratera e uma sequência de depósitos com cerca de 275 metros de espessura. O que o estudo de 2026 acrescenta é o zircão chocado, um tipo de prova que, segundo o Jornal da USP, nunca tinha sido descrito em uma estrutura brasileira dessa categoria.

De onde vem a idade estimada da Cratera de Colônia?

A resposta honesta é: de um intervalo, não de uma data.

A página oficial do Parque Natural Municipal da Cratera de Colônia, mantida pela Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, adota a estimativa de aproximadamente 35 milhões de anos para o impacto e menciona sedimentos de até 400 metros de profundidade. O Earth Impact Database, catálogo internacional de crateras confirmadas, registra a idade entre 5 e 36 milhões de anos, no Neógeno. A diferença não é descuido: o artigo de 2013 deixou claro que nenhuma datação isotópica de rocha fundida por impacto tinha sido feita, e é esse o passo que falta. Mais precisa é a idade do lago que se formou depois: um estudo de cronoestratigrafia publicado em 2020 na revista Quaternary Geochronology reconstruiu um registro sedimentar contínuo de cerca de 1,5 milhão de anos na bacia de Colônia, um dos arquivos de clima mais longos do sudeste do Brasil.

Quem mora dentro da cratera e por que ela segue preservada?

A imagem mental de cratera de asteroide é um deserto vazio. Colônia é o contrário: é bairro.

Segundo a Wikipédia em inglês, a porção norte da cratera começou a receber loteamentos irregulares a partir de 1989, e Vargem Grande abriga hoje entre 35 mil e 40 mil pessoas. A reportagem do Olhar Digital de 7 de agosto de 2026 registra ainda que dentro do perímetro funciona desde 2009 a Penitenciária Joaquim Fonseca Lopes, com 1.451 detentos. A preservação da estrutura não está na ausência de gente, e sim no que ficou embaixo dela. Selada pelo lago e pela turfa, a rocha de impacto ficou protegida da erosão que apagou outras estruturas semelhantes, e é por isso que a prefeitura descreve o sítio como um dos mais importantes do país.

Quais proteções legais o sítio já recebeu?

A cratera acumulou títulos em três esferas, mesmo com a ocupação avançando. Todos constam da página do parque na prefeitura.

  • Condephaat, 2003: tombamento estadual da cratera como patrimônio natural.
  • SIGEP, 2005: reconhecimento como sítio geológico pela Comissão Brasileira de Sítios Geológicos e Paleobiológicos.
  • Decreto Municipal 48.423, de 11 de junho de 2007: criação do Parque Natural Municipal da Cratera de Colônia, com cerca de 53 hectares, unidade de proteção integral dentro da APA Capivari-Monos.
  • CoMGeo-SP, 2009: declaração de monumento geológico pelo conselho estadual.

O parque fica a cerca de 40 quilômetros do centro e, segundo a mesma página oficial, é fechado ao público: só recebe grupos de estudo e pesquisa com agendamento. Quem conhece parques abertos, como o parque de cânions no topo do Rio Grande do Sul, vai estranhar a regra, mas o que interessa em Colônia está no subsolo, e a mata é a tampa. Área protegida sob pressão urbana tampouco é exclusividade de Parelheiros, como mostra o parque goiano que encolheu e depois recuperou área até virar Patrimônio Mundial.

O que convém lembrar sobre a Cratera de Colônia e o estudo da USP?

Separe fato de estimativa. Fato: 3,6 quilômetros de diâmetro, localização em Parelheiros e zircão com deformação de choque encontrado pela USP em 2026, a prova mais forte já obtida de origem por impacto. Estimativa: a idade, entre 5 e 36 milhões de anos conforme a fonte, porque a datação isotópica das rochas fundidas ainda não foi feita. Para visitar, peça agendamento à Secretaria do Verde como grupo de estudo; o parque de 53 hectares não abre para turismo. Se ler que a cratera é “a única do Brasil”, desconfie: o Jornal da USP contabiliza oito estruturas de impacto confirmadas no país. Quem mora na região deve observar que a área central é unidade de proteção integral, o que limita construção e loteamento.

Tudo o que está reunido nestas linhas é informativo e vem de fontes públicas: o artigo científico de 2026, a cobertura do Jornal da USP, a página oficial da Prefeitura de São Paulo e a literatura geológica anterior. Idade e população são estimativas dessas fontes, sujeitas a revisão.

Tags: AsteroideCratera de ColôniaCuriosidadesUSP
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