Poucas cidades brasileiras conseguem sintetizar dois tempos tão distantes em um mesmo território. Rondonópolis, no sudeste do Mato Grosso, virou sinônimo de soja, algodão e trilhos de trem no ranking de exportações do país. A poucos quilômetros das lavouras, porém, paredões de arenito guardam pinturas rupestres deixadas por povos que viveram ali milhares de anos antes do agronegócio existir como conceito.
Como Rondonópolis se tornou a Capital Nacional do Agronegócio?
A história moderna da cidade começa em 10 de dezembro de 1953, quando o povoado se emancipou politicamente e ganhou o nome definitivo em homenagem ao Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, responsável pela construção das linhas telegráficas que cruzaram o Mato Grosso entre 1907 e 1909. Antes disso, a região passou por três décadas de esvaziamento populacional causado por enchentes, epidemias e a corrida por diamantes na vizinha Poxoréu.
A virada veio nos anos 1970, com a chegada de migrantes sulistas e a mecanização das lavouras. Segundo a Tribuna MT, o marco definitivo foi o desenvolvimento da semente Cristalina pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) em meados dos anos 1980, que transformou a soja no maior produto de exportação da região. Na década de 1990, Rondonópolis já ostentava o título de Capital Nacional do Agronegócio.

O que a Cidade de Pedra guarda dos primeiros habitantes do Cerrado?
A resposta está em um complexo rochoso a poucos quilômetros do centro. Segundo o Oeste Geral, o Parque Ecológico João Basso, Reserva Particular do Patrimônio Natural criada em 1997, abriga a famosa Cidade de Pedra, com cerca de 3.624 hectares de formações de arenito esculpidas pela erosão ao longo de milhões de anos.
Paredões que chegam a 100 metros de altura guardam pinturas rupestres e vestígios de fogueiras deixados por povos que ocuparam a região há pelo menos 5 mil anos, segundo dados do IBGE registrados no sítio arqueológico Ferraz Egreja. Uma cooperação entre o Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP e o Museu de História Natural de Paris pesquisa o local há mais de três décadas e já catalogou mais de 25 mil artefatos. A região ainda abriga a Reserva Indígena Tadarimana, do povo Bororo, dentro dos limites do município.
Quais outras atrações naturais visitar em Rondonópolis?
A geografia da região reúne cachoeiras, cerrado preservado e áreas verdes urbanas espalhadas em um raio de poucas dezenas de quilômetros do centro. Boa parte funciona o ano todo, mas rende mais na estação seca.
- Complexo Turístico do Carimã: circuito de nove cachoeiras acessado por trilha de pouco mais de 1 km, a cerca de 55 km do centro pela BR-163, com hospedagem em chalés rústicos e área de camping.
- Parque Ecológico João Basso: além da Cidade de Pedra, oferece trilhas guiadas por formações rochosas, mirantes naturais e sítios arqueológicos abertos à visitação.
- Horto Florestal (Bosque Municipal Isabel Dias Goulart): refúgio verde no centro da cidade, com pista de caminhada, academia ao ar livre e fauna silvestre como macacos e jabutis.
- Parque do Escondidinho: mirante urbano, fonte interativa e uma das maiores pistas de skate da região.
- Rodovia do Peixe: trecho de estrada conhecido pelo turismo rural, com pesqueiros, restaurantes e opções de lazer voltadas para famílias.
O que ver no centro histórico e cultural da cidade?
Apesar da imagem de cidade nova ligada ao agro, Rondonópolis preserva um núcleo histórico que conta a formação do povoado desde as primeiras famílias vindas de Goiás e Cuiabá.
- Casario: conjunto de 24 casas de adobe e alvenaria erguidas a partir de 1930, restaurado pela prefeitura e transformado em espaço cultural com shows de MPB, exposições e feiras temáticas.
- Museu Municipal Rosa Bororo: acervo dedicado à passagem do Marechal Rondon pela região e à cultura indígena Bororo, com peças históricas do início do século XX.
- Universidade Federal de Rondonópolis (UFR): instalada na cidade com cursos como Medicina, Engenharia e Psicologia, atrai estudantes de todo o Centro-Oeste.
- Exposul Rural: uma das maiores feiras agropecuárias do Centro-Oeste, movimenta economia, turismo e cultura regional durante o período de realização.
O que provar na gastronomia mato-grossense de Rondonópolis?
A cena gastronômica combina raiz sertaneja, tradição pantaneira e a herança dos migrantes sulistas que ajudaram a formar a economia moderna da cidade.
- Peixes de rio: pintado e pacu aparecem grelhados, assados ou em caldos, servidos em restaurantes especializados e nos pesqueiros da Rodovia do Peixe.
- Churrasco mato-grossense: preparo tradicional em espeto ou grelha, valorizado pela produção pecuária local.
- Arroz carreteiro: prato da culinária gaúcha adaptado aos ingredientes locais, herança dos migrantes sulistas que se instalaram na região.
- Doces do cerrado: baseados em frutos nativos como pequi, buriti e cagaita, presentes em cafeterias e mercados municipais.
Leia também: A “Cidade do Aço” combina indústria forte, boa gestão e um dos melhores zoológicos gratuitos do estado.
Como é o clima e a melhor época para visitar Rondonópolis?
A cidade tem clima tropical com duas estações bem definidas. O verão traz chuvas fortes e vegetação exuberante, enquanto o inverno é seco, ensolarado e ideal para trilhas, cachoeiras e visitas aos sítios arqueológicos.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.

Como chegar a Rondonópolis?
De carro, o acesso mais direto a partir de Cuiabá é pela BR-163, com trajeto de cerca de 215 km e viagem média de três horas. A cidade fica no cruzamento com a BR-364, o que a torna um dos maiores entroncamentos logísticos do Centro-Oeste.
O aeroporto regional local recebe voos executivos, mas quem chega por transporte aéreo comercial costuma desembarcar no Aeroporto Internacional Marechal Rondon, em Várzea Grande, próximo a Cuiabá, com trecho final por rodovia. Ônibus regulares saem de várias capitais do Centro-Oeste e do Sudeste em direção à cidade.
O coração do agronegócio brasileiro no meio do Cerrado
Rondonópolis reúne uma combinação difícil de encontrar em outro município brasileiro: a segunda maior economia de Mato Grosso, um sítio arqueológico com milênios de ocupação humana e um complexo rochoso que os pesquisadores continuam mapeando. A soja convive com as pinturas rupestres, o Casario com as universidades federais, o Cerrado com as rodovias que atravessam o país inteiro.
Você precisa conhecer Rondonópolis e subir até um mirante da Cidade de Pedra, provar um pintado grelhado às margens da Rodovia do Peixe e entender por que a Capital Nacional do Agronegócio guarda 5 mil anos de história a poucos quilômetros das lavouras que exportam para o mundo.




