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Início Cidades

A Capital Nacional do Calçado virou um dos maiores polos industriais do país sem perder a herança alemã de 1826

Por Maura Pereira
08/08/2026
Em Cidades, Turismo

Casas em enxaimel construídas há quase dois séculos, um centro histórico tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e uma vocação industrial reconhecida por lei federal. Novo Hamburgo, na Região Metropolitana de Porto Alegre, transformou a herança dos imigrantes alemães em um dos polos econômicos mais importantes do sul do Brasil.

Da expansão de São Leopoldo à cidade da Capital do Calçado

A ocupação nasceu da leva migratória mais famosa do Rio Grande do Sul. Os imigrantes alemães chegaram ao estado em 1824, quando o Governo Imperial os direcionou para a Colônia de São Leopoldo, e a região que hoje corresponde a Novo Hamburgo começou a ser ocupada em 1826 como expansão daquela colônia. Os primeiros colonos batizaram o povoado de Hamburguer Berg, ou Colina de Hamburgo, em homenagem à cidade alemã de origem de muitas famílias.

A cidade oficializou o nome atual no início do século XX. Segundo a Prefeitura Municipal de Novo Hamburgo, o município foi emancipado em 1927 e passou a se chamar Novo Hamburgo, mantendo a referência direta à Hamburgo alemã. A partir dali, a herança arquitetônica, gastronômica e cultural dos imigrantes começou a se misturar ao acelerado desenvolvimento industrial que definiria a vocação econômica do município.

O ciclo dourado do calçado veio no século XX. Segundo a Prefeitura, durante os anos de ouro da exportação de calçados, bairros como Santo Afonso e Canudos receberam milhares de famílias vindas do interior do estado em busca de melhores condições de vida em uma vaga nas fábricas. A cidade viveu um cinturão de comunidades que cresceram ao redor do núcleo original de povoamento e formou uma malha urbana que ainda define a organização territorial.

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A cidade de Novo Hamburgo fica a 40 km de Porto Alegre e faz parte da rota turística da Serra Gaúcha. // Créditos: Wikipédia

Como Novo Hamburgo virou a Capital Nacional do Calçado?

O título é oficial e federal. A cidade é reconhecida como Capital Nacional do Calçado pela Lei Federal nº 13.399, de 2016, sancionada em reconhecimento à vocação industrial construída ao longo de quase dois séculos. O ecossistema local reúne toda a cadeia produtiva, desde os curtumes até o design final, e responde por parcela expressiva das exportações brasileiras do setor.

A tradição vem da imigração. As técnicas artesanais de curtimento de couro e confecção de calçados chegaram com os alemães no século XIX e evoluíram para o parque industrial contemporâneo. Hoje, Novo Hamburgo exporta para mais de 100 países e mantém complexos industriais que integram desde os produtores de matérias-primas até as marcas de moda com atuação internacional.

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O calendário reforça a posição de liderança. A cidade sedia o Centro de Convenções da Fenac, referência em feiras nacionais e internacionais do setor de calçados e moda, com eventos que atraem compradores e expositores de vários países. A programação anual movimenta a rede hoteleira, a gastronomia e o comércio local, consolidando um circuito econômico que ultrapassa a atividade fabril.

Um centro histórico tombado com 70 imóveis alemães

A herança da colonização virou patrimônio nacional. Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o Centro Histórico de Hamburgo Velho foi tombado em 2015, com cerca de 70 imóveis que recontam a história do município e o seu desenvolvimento arquitetônico. O conjunto federal inclui, além dos imóveis, o acervo da Fundação Ernesto Frederico Scheffel.

As técnicas construtivas preservadas são raras. Segundo o IPHAN, o Centro Histórico reúne exemplares de enxaimel, estilo neoclássico, art déco e, principalmente, o chamado frontão recortado, desenvolvido exclusivamente na região no início do século XX. Entre os imóveis preservados estão igrejas, um cemitério e o Parque Henrique Luiz Roessler, apelidado de Parcão, considerado o último lote íntegro da colonização alemã na área urbana.

A joia arquitetônica é anterior ao próprio Centro Histórico. A Casa Schmitt-Presser, construída por volta de 1830 em técnica enxaimel, foi o primeiro imóvel do estilo tombado pelo IPHAN, em 8 de setembro de 1986. Hoje, funciona como Museu Comunitário e conta a história da imigração alemã na região, sendo um dos raros exemplares tão antigos preservados no país.

Moradia, bairros e a rotina no Vale do Sinos

A escolha por Novo Hamburgo cresceu na última década. A cidade tem cerca de 235 mil habitantes distribuídos em 224 km², e o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) calculado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) é 0,747, classificado como alto. A escolarização municipal chega a 98,84%, resultado de uma rede de ensino consolidada e de instituições privadas de peso.

Os bairros oferecem perfis variados. O Centro reúne comércio de rua, serviços e infraestrutura completa. Hamburgo Velho preserva a herança arquitetônica alemã com casarões históricos e ruas arborizadas, sendo procurado por quem valoriza patrimônio. Vila Rosa combina tranquilidade com crescimento imobiliário e atrai famílias que buscam condomínios modernos. Lomba Grande, na zona rural, oferece vida no campo com proximidade da cidade e propriedades maiores.

O ensino superior reforça a economia. A Universidade Feevale, principal instituição da região, mantém cursos de graduação e pós-graduação em várias áreas, com campus preparado para atender a demanda regional. O Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul) oferece formação técnica em áreas como Mecatrônica, mão de obra qualificada absorvida pela indústria local. A ligação com Porto Alegre pela BR-116 duplicada facilita o deslocamento diário para trabalho ou estudo.

O que fazer entre casarões alemães, museus e a Serra Gaúcha

O roteiro combina patrimônio arquitetônico, cultura industrial e áreas verdes urbanas. A maioria dos atrativos fica em raio curto no centro urbano e no distrito de Hamburgo Velho.

  • Centro Histórico de Hamburgo Velho: 70 imóveis tombados pelo IPHAN em 2015, com técnicas de enxaimel, art déco e frontão recortado, típico da região.
  • Casa Schmitt-Presser: construída em 1830, o primeiro imóvel em enxaimel tombado pelo IPHAN, hoje Museu Comunitário.
  • Parque Henrique Luiz Roessler (Parcão): último lote íntegro da colonização alemã na área urbana, com áreas de lazer e caminhada.
  • Museu Nacional do Calçado: acervo dedicado à trajetória da indústria calçadista, com peças históricas e maquinário antigo.
  • Fundação Ernesto Frederico Scheffel: espaço cultural com acervo de arte integrado ao tombamento do Centro Histórico.
  • Casa do Imperador: no Parque Floresta Imperial, patrimônio histórico tombado no âmbito municipal e ligado à memória do calçado.
  • Fenac: centro de convenções que sedia as principais feiras nacionais e internacionais de calçados e moda.
A "Capital Nacional do Calçado" é gaúcha e oferece vida boa e tranquila a somente 40 km de Porto Alegre
Novo Hamburgo, cidade que une tradição alemã com arte, esporte e cultura vibrante // Créditos: depositphotos.com / alle2009

A mesa alemã e a herança do Vale

A gastronomia acompanha as tradições dos imigrantes com adaptações gaúchas. Restaurantes típicos e cafés coloniais dominam o cardápio local.

  • Café colonial: mesa farta com cucas, pães, embutidos, geleias e queijos, herança direta das famílias alemãs da região.
  • Marreco recheado: prato símbolo da culinária alemã do sul, servido com repolho roxo e batata.
  • Chucrute e eisbein: preparo tradicional do porco com o repolho fermentado, presença certa em restaurantes típicos.
  • Cucas: tortas doces em versões com uva, banana, maçã ou coco, herança das padarias familiares.

Como chegar à Capital do Calçado

Novo Hamburgo fica a cerca de 42 km de Porto Alegre pela BR-116 duplicada, em pouco mais de meia hora fora dos horários de pico. O Aeroporto Internacional Salgado Filho, na capital gaúcha, é a principal porta aérea nacional e internacional. A cidade também é atendida pelo Trensurb, o trem metropolitano que liga Porto Alegre a São Leopoldo, com integração para linhas de ônibus até o centro hamburguense.

Leia também: Cresce 44% o número de brasileiros indo viver na cidade do 2º maior porto do Brasil, PIB per capita de R$ 182 mil e o 4º m² mais caro do país em 12 anos se tornando a nova joia catarinense.

A Capital do Calçado

Poucos destinos brasileiros combinam quase dois séculos de colonização alemã preservada em nível federal, o principal polo calçadista do país e infraestrutura de metrópole em raio tão curto. Novo Hamburgo entrega herança arquitetônica única, indústria de peso e a proximidade da Serra Gaúcha em uma rotina mais leve do que a das capitais do Sudeste.

Você precisa conhecer Novo Hamburgo e caminhar pelo Hamburgo Velho para entender por que a Capital do Calçado virou uma das cidades mais desejadas do sul do Brasil para morar.

Tags: Novo HamburgoRio Grande do Sul
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