O cheiro de sobá escapa da Feira Central enquanto araras-canindé cruzam a Avenida Afonso Pena. Em Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul, o cotidiano mistura fauna silvestre, culinária de imigração e um ritmo urbano que quem vem de metrópole demora a acreditar.
O que faz uma capital cheia de araras parecer tão tranquila?
O Índice de Progresso Social (IPS) 2025 avaliou 57 indicadores em 5.570 municípios. Campo Grande ficou em 2º lugar entre as capitais, atrás apenas de Curitiba, e em 13º no ranking geral. O levantamento considera saúde, educação, segurança, saneamento e qualidade ambiental.
Os números ajudam a explicar por que a cidade aparece tão bem posicionada. Em 2025, o PIB local cresceu 5,2%, acima da média nacional, enquanto mais de 30 mil empregos formais foram criados. Para quem chega de uma metrópole, outro contraste aparece no bolso: moradia e alimentação ainda apresentam custos mais acessíveis que os encontrados em muitas capitais do Sudeste e do Sul.

De onde veio a cor que virou sobrenome da cidade?
A expressão Cidade Morena apareceu nos anos 1920, quando o arcebispo Dom Francisco de Aquino Correia passou por Campo Grande e chamou atenção para a terra avermelhada que cobria as ruas de chão batido. Naquele período, a paisagem urbana era marcada por poeira, cavalos e caminhos de barro. O apelido acabou permanecendo e se transformou em uma das marcas mais conhecidas da capital.
A cidade havia sido fundada em 1899, por colonizadores mineiros atraídos pelas pastagens e pelas águas da região. O crescimento ganhou velocidade com a chegada da ferrovia e, em 1977, Campo Grande se tornou capital do recém-criado Mato Grosso do Sul, após a divisão do antigo Mato Grosso. Ao longo desse processo, indígenas, japoneses, árabes, paraguaios e gaúchos ajudaram a formar uma identidade cultural marcada por diferentes tradições.
Por que as araras fazem parte da rotina de quem vive em Campo Grande?
Campo Grande tem um ritmo urbano que ainda lembra o interior. As avenidas largas ajudam a manter o trânsito relativamente fluido, e moradores conseguem atravessar grandes trechos da capital em cerca de 30 minutos. Nas ruas arborizadas, não é raro encontrar araras, tucanos, capivaras e quatis circulando pelo perímetro urbano, criando uma convivência incomum entre fauna silvestre e vida cotidiana.
Essa relação com o verde também aparece na estrutura da cidade. Campo Grande recebeu o reconhecimento Tree City of the World, concedido pela FAO/ONU, por suas políticas de arborização e manejo das áreas verdes. A capital mantém mais de 32 parques e praças reformados nos últimos anos, entre eles o Parque das Nações Indígenas, que ocupa 119 hectares e abriga mais de 300 espécies de aves, além de pistas para caminhada e corrida, áreas de exercícios e espaços para piqueniques.
Campo Grande é uma capital arborizada e o principal portal para o Pantanal. O vídeo do canal Melhores Cidades para Morar, que conta com mais de 34 mil inscritos, destaca o Parque das Nações Indígenas, a força do agronegócio e a proximidade com Bonito:
O que se come na terra do sobá e do tereré?
A culinária campo-grandense é resultado direto da imigração. O prato mais emblemático é o sobá, uma adaptação do macarrão de Okinawa trazido por imigrantes japoneses em 1908. A receita ganhou versão própria, com caldo de carne, omelete e cebolinha, e foi registrada como patrimônio cultural imaterial do município.
- Sobá: macarrão em caldo com carne, omelete e cebolinha, servido nos 28 restaurantes da Feira Central.
- Tereré: erva-mate com água gelada, bebida diária que acompanha qualquer conversa entre amigos.
- Arroz com pequi: herança do Cerrado, sabor forte e presença obrigatória em almoços de família.
- Pacu assado: peixe de rio preparado na brasa, tradição pantaneira que chegou à mesa urbana.

A Feira Central é patrimônio e ponto de encontro
Fundada em 1925, a Feira Central e Turística ocupa a antiga Esplanada Ferroviária, na Rua 14 de Julho. O espaço reúne cerca de 200 lojas de artesanato e 28 restaurantes de sobá. Funciona às quartas, sextas, sábados e domingos, e é ponto de encontro de famílias, turistas e trabalhadores.
Todo mês de agosto, o Festival do Sobá atrai milhares de visitantes com shows, exposições de orquídeas, danças japonesas e concurso de cosplay. A Feira Central está em processo de registro como patrimônio cultural imaterial em nível nacional, junto ao IPHAN.
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Quando o clima favorece cada atividade ao ar livre?
O clima é tropical, com verão quente e chuvoso e inverno seco e ameno. No inverno, a umidade pode cair abaixo de 20%, e geadas leves ocorrem em noites frias.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar e o que fica perto da capital?
O Aeroporto Internacional de Campo Grande recebe voos diretos de São Paulo, Brasília, Curitiba e outras capitais. A cidade fica a 694 km de Cuiabá pela BR-163 e a 1.014 km de São Paulo pela BR-267. A apenas 260 km está Bonito, e o acesso ao Pantanal sul-mato-grossense parte da própria capital.
Uma capital com alma de interior
Campo Grande é o tipo de lugar onde o pôr do sol pinta o céu de laranja sobre ruas arborizadas, enquanto araras pousam nos fios de luz como se a cidade fosse delas. A combinação de indicadores sólidos, custo de vida equilibrado e contato diário com a natureza explica por que tanta gente chega para ficar.
Você precisa experimentar a Cidade Morena, andar descalço pela terra vermelha e entender por que quem mora aqui raramente pensa em ir embora.




