Entre a Lagoa dos Patos e o Oceano Atlântico, Mostardas abriga uma das áreas naturais mais relevantes da América do Sul para aves migratórias. Flamingos que vêm do Chile e da Argentina encontram ali outras espécies que percorrem milhares de quilômetros entre continentes para se alimentar e repousar nas águas rasas do litoral gaúcho.
O refúgio no litoral gaúcho que recebe aves após viagens de até 8 mil km
Criado em 1986, o Parque Nacional da Lagoa do Peixe protege mais de 36 mil hectares de uma das principais rotas migratórias de aves do continente. Em 1993, a área conquistou o reconhecimento de Sítio Ramsar, concedido a zonas úmidas de relevância internacional, com apoio do ICMBio.
O parque já registrou 349 espécies de aves, incluindo 74 migratórias e 13 ameaçadas de extinção. Com profundidade média de apenas 60 centímetros e extensão aproximada de 35 km, a lagoa oferece condições favoráveis para a alimentação e o descanso de grandes bandos. De julho a novembro, flamingos rosados, cisnes-de-pescoço-preto e maçaricos marcam a paisagem de Mostardas, que se destaca entre os destinos brasileiros para a observação de aves.

A estreita faixa de terra entre o nascer e o pôr do sol
Mostardas ocupa uma faixa de terra estreita, com aproximadamente 100 km de costa voltada para o oceano e outros 100 km banhados pela Lagoa dos Patos. Essa configuração permite acompanhar o nascer do sol sobre o Atlântico e, no mesmo dia, observar o entardecer às margens das águas doces da lagoa.
A paisagem reúne 46 lagoas que formam um cordão lagunar, entremeado por dunas, banhados e vegetação de restinga. Capivaras, ratões-do-banhado, jacarés-de-papo-amarelo e grupos de emas habitam esse ambiente, compartilhado com pescadores artesanais e produtores de arroz.
Quais caminhos explorar no Parque Nacional da Lagoa do Peixe?
O parque conta com quatro trilhas que podem ser percorridas de forma independente ou na companhia de guias credenciados. Os dois trajetos principais atravessam o istmo em direção à praia ou às margens da lagoa.
- Trilha do Talhamar: com 6 km, acompanha as margens da Lagoa do Peixe e inclui pontos favoráveis à observação de flamingos e colhereiros.
- Trilha das Figueiras: caminho mais curto e acessível, indicado para quem está começando a praticar birdwatching.
- Trilha do Talha-mar Norte: percorre cerca de 10 km até o setor norte da lagoa, onde é possível encontrar cisnes-de-pescoço-preto e capororocas.
- Trilha das Dunas: são 13 km por áreas de restinga, banhados e dunas, em um percurso que chega à praia e permite observar maçaricos e batuíras.
Os quatro faróis históricos que marcam a costa de Mostardas
Construídos como referências para a navegação desde o século 19, os faróis fazem parte da paisagem litorânea de Mostardas. Erguido em 1858, o Farol de Mostardas tem 30 metros de altura e permanece como ponto de orientação para navegantes na costa atlântica. Já o Farol Cristóvão Pereira e o Farol Capão da Marca, situados na direção da Lagoa dos Patos, exigem veículos com tração 4×4 para chegar até eles.
Na orla oceânica, o Farol da Solidão atrai visitantes interessados na vista panorâmica do mar e das dunas. O acesso inclui trechos de estradas arenosas, que contribuem para o caráter rústico do passeio, conforme informações da Secretaria de Turismo do RS.

A herança açoriana do centro histórico e a tradição do cobertor mostardeiro
A ocupação de Mostardas por imigrantes açorianos começou em 1773, ano em que a freguesia foi instituída. Desde 1989, o centro histórico conta com tombamento municipal e conserva construções antigas com telhados de eira e beira, além de elementos religiosos tradicionais, como a representação da Pomba do Divino Espírito Santo.
Erguida também em 1773, a Igreja Matriz de São Luiz Rei está entre os templos mais antigos do Rio Grande do Sul. Outra expressão da cultura local é o cobertor mostardeiro, produzido artesanalmente com lã de ovelha crua e tingido com corantes naturais. A tradição permanece viva nas mãos das artesãs, que comercializam as peças diretamente no centro da cidade.
Quando viajar para o litoral médio gaúcho?
O clima é subtropical úmido, com temperatura média anual de 16,5°C e ventos constantes que moldam as dunas. A melhor janela para birdwatching vai de julho a novembro, quando chegam as aves migratórias.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.

As rotas para chegar à Pérola do Litoral Médio
Mostardas está a cerca de 200 km de Porto Alegre. Para chegar pelo acesso norte, o trajeto sai da capital pela RS-040 até Capivari do Sul e continua pela RST-101 até o município. Também existem linhas de ônibus diretas partindo da Rodoviária de Porto Alegre, com duração aproximada de cinco horas. Para percorrer as trilhas do parque, o ideal é utilizar um veículo com tração nas quatro rodas.
Onde o litoral brasileiro conecta diferentes hemisférios
Poucos municípios brasileiros concentram um santuário de aves migratórias reconhecido internacionalmente, faróis do século 19 e um centro histórico de origem açoriana em uma estreita faixa de terra cercada por águas dos dois lados. Mostardas oferece uma experiência incomum para quem busca paisagens naturais preservadas e tranquilidade, longe dos destinos de turismo de massa.
Percorrer a Trilha do Talhamar nas primeiras horas da manhã e observar flamingos rosados levantando voo sobre a Lagoa do Peixe é uma das experiências marcantes da região. A cena ajuda a compreender a importância desse trecho do litoral gaúcho como ponto de parada para aves que cruzam grandes distâncias em suas rotas migratórias.




