No imaginário de muita gente, o Nordeste é sinônimo de calor o ano inteiro, e a altitude costuma ficar fora dessa conta. Em Piatã, no sul da Chapada Diamantina, na Bahia, a sede urbana está a 1.268 metros acima do nível do mar, e as madrugadas de inverno costumam ficar cerca de 10°C mais frias que as da capital baiana. O mesmo relevo que esfria as noites ajudou a cidade a produzir o café campeão do principal concurso de cafés especiais do país em 2022.
Por que faz frio numa cidade da Bahia?
Por causa da altitude. Segundo a Prefeitura de Piatã, o município é a cidade mais alta e mais fria da Bahia e de toda a Região Nordeste, com sede a 1.268 metros, e tem clima tropical de altitude, variação do clima tropical em que a elevação do terreno derruba as temperaturas, sobretudo à noite.
A explicação física é simples: quanto mais alto, mais rarefeito o ar e menor a capacidade de reter calor depois que o sol se põe. Em Piatã, isso se traduz em mínimas médias de 13°C em julho e agosto, segundo o Climatempo, e máximas que raramente passam dos 23°C nesses meses. Para ter uma medida, em Salvador, a mínima média de julho é de 23°C, também segundo o Climatempo. São cerca de 10°C de diferença entre o litoral e a serra no mesmo estado, contraste que transforma o casaco em item obrigatório na mala de quem sobe a Chapada no meio do ano.

Como o café de Piatã chegou ao topo do Brasil?
Com uma nota de 91,41 pontos numa escala de 0 a 100. De acordo com a Alliance for Coffee Excellence (ACE), organização internacional responsável pelo concurso Cup of Excellence, o café de Antonio Rigno de Oliveira Filho, inscrito pela região da Chapada Diamantina, ficou em primeiro lugar na edição brasileira de 2022, e o segundo colocado também veio da mesma região. O lote campeão foi produzido na Fazenda Tijuco, em Piatã.
O resultado mostra como o frio da serra trabalha a favor da lavoura. Em temperaturas mais baixas, o fruto do café amadurece mais devagar, e esse tempo extra ajuda a formar açúcares e aromas mais complexos, característica valorizada pelos júris de cafés especiais. Os números da edição de 2022 ajudam a dimensionar a conquista.

Onde fica o ponto mais alto do Nordeste?
Bem perto de Piatã, na mesma cadeia de serras. Segundo estudo de campo de estudantes de geografia da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), o Pico do Barbado, no município vizinho de Abaíra, é a maior elevação do Nordeste, com 2.033 metros de altitude.
O mesmo trabalho descreve o sul da Chapada Diamantina como um planalto alongado, com elevações alinhadas de sudeste a noroeste e topos aplainados sobre rochas do pré-cambriano, período geológico que terminou há mais de 500 milhões de anos. É nesse relevo antigo e elevado que Piatã se encaixa, cercada por serras que moldam o clima, a paisagem e a vocação agrícola da cidade.
Como é o clima de Piatã durante o ano?
O ano se divide entre um verão de chuvas moderadas e um inverno quase sem chuva. Novembro é o mês mais chuvoso, com 166 mm em média, enquanto agosto registra apenas 8 mm.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
O frio que virou identidade no alto da Bahia
Piatã desmonta com números a ideia de um Nordeste uniformemente quente. A altitude que coloca a cidade no topo da região também produz mínimas de 13°C no inverno e cria o ambiente lento e fresco onde o café ganha complexidade, a ponto de vencer um concurso internacional. Cercada por serras antigas, a poucos passos do ponto mais alto do Nordeste, a cidade mostra que a geografia pode reescrever o que se espera de um lugar.
Você precisa subir até Piatã numa noite seca de julho, pedir uma xícara do café local e sentir, de casaco, que a Bahia também sabe ser serra.




