Toda grande onda migratória começa com um primeiro contato, quase sempre esquecido. Em Governador Valadares, no leste de Minas Gerais, esse contato veio nos anos 1940, quando americanos chegaram atrás da mica usada em rádios durante a Segunda Guerra Mundial. Décadas depois, a cidade ganharia o apelido de “Valadólares” por fazer o caminho inverso.
Por que os americanos foram a Governador Valadares na Segunda Guerra?
Foram buscar a mica, mineral que se separa em lâminas finas e resistentes ao calor, valioso como isolante elétrico na fabricação de rádios. Segundo artigo publicado pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da UFMG (Cedeplar), empresas e cidadãos dos Estados Unidos chegaram ao Vale do Rio Doce na década de 1940 para explorar o mineral e trabalhar na ampliação da Estrada de Ferro Vitória-Minas.
A cidade já conhecia bem o movimento de gente. Nos anos 1940 e 1950, Valadares atraía migrantes de várias regiões do país em busca de trabalho, e a convivência com os americanos somou a essa experiência uma imagem concreta da “América”. Para a socióloga Sueli Siqueira, da Universidade Vale do Rio Doce (Univale), foi dessa combinação que nasceu uma cultura de migrar para o exterior.

Como os primeiros valadarenses chegaram aos EUA?
Chegaram como estudantes, não como trabalhadores. O ciclo da mica perdeu força no fim dos anos 1940 e início dos 1950, e a cidade entrou em estagnação na década de 1960. Entre os primeiros a partir estavam jovens de classe média, alunos de inglês do Instituto Brasil-Estados Unidos (IBEU), que viajaram em intercâmbio, conforme estudo publicado pela Universidade Estadual do Tocantins (Unitins).
O mesmo estudo traz um detalhe que fecha o círculo: uma das professoras desses intercambistas era Dona Geraldina Simpson, esposa de um dos engenheiros americanos que tinham chegado à cidade nos anos 1940. Os pioneiros diziam ter partido por aventura, mas alguns estenderam a estadia e voltaram com dólares no bolso, e as cartas e histórias que traziam despertaram em vizinhos e parentes o desejo de seguir o mesmo caminho.
Quando a emigração virou fenômeno em massa?
A virada veio na segunda metade dos anos 1980, quando a crise econômica brasileira, com inflação alta e falta de emprego, encontrou uma rede de contatos já montada nos EUA. Quem partia raramente ia no escuro: casa e trabalho costumavam estar combinados antes da viagem. Pesquisas citadas pelo Cedeplar indicam que cerca de 37% dos emigrantes da microrregião entraram nos EUA sem documentos, pela fronteira do México.
O fenômeno atravessou todas as camadas da cidade. Estudo publicado pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) mostra que até a 8ª Região da Polícia Militar, sediada em Valadares, perdeu integrantes para a emigração. Os EUA continuam como destino principal, mas pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) mostra que também existe um fluxo para Portugal, com perfil diferente de idade e sexo.
O que acontece com quem volta para Valadares?
A crise imobiliária americana de 2006 atingiu em cheio os emigrantes que trabalhavam na construção civil, e a partir de 2007 muitos voltaram antes de cumprir o plano de ganhar dinheiro e investir no Brasil. A pesquisadora Sueli Siqueira classifica o retorno em quatro tipos, citados no estudo do Cedeplar.
Para quem volta sem planejar, a readaptação costuma ser difícil. Os estudos registram o estranhamento de quem passou anos fora e não reconhece mais a própria rua, os vizinhos e até os carros que circulam pela cidade.

Onde a emigração aparece na paisagem de Governador Valadares?
Aparece nas casas, no comércio e no preço dos imóveis. Pesquisa publicada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) identificou marcas materiais da emigração em seis cidades do Vale do Rio Doce, dos utensílios domésticos ao mercado imobiliário, e lembra que o braço ilegal do fenômeno chegou a motivar uma CPI no Congresso.
A cidade que mira o exterior também guarda um marco que serviu de referência para quem chegava. O Pico da Ibituruna, com 1.123 metros, foi batizado pelo bandeirante Fernão Dias Paes e é tombado como monumento natural desde 1989, segundo o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA). Do alto, a paisagem do Rio Doce explica parte da história: um vale de passagem, onde sempre houve gente chegando e partindo.
A cidade que aprendeu a viver entre dois países
Governador Valadares mostra como um encontro passageiro pode mudar o destino de uma cidade inteira. A mica foi embora, os engenheiros também, mas ficou a imagem de um lugar possível do outro lado do continente, transmitida de carta em carta e de família em família.
Você precisa conhecer Governador Valadares e subir a Ibituruna para entender, do alto, a cidade que nunca deixou de olhar para o horizonte.




