Poucas cidades do mundo transformaram uma condição climática em vocação econômica. Fundada em 1834 no coração do Cariri Paraibano, Cabaceiras tem uma das menores médias pluviométricas do Brasil, cerca de 300 mm de chuva por ano, e virou a preferida da indústria audiovisual nacional graças ao céu limpo e à luminosidade constante. Mais de 50 filmes, séries e documentários já foram gravados nas ruas da cidade e nas formações rochosas do Lajedo de Pai Mateus, o que rendeu ao município o apelido de Roliúde Nordestina, anunciado por um letreiro de 70 metros na entrada da cidade.
Como uma cidade do sertão paraibano virou a Roliúde Nordestina?
A primeira gravação registrada em Cabaceiras é de 1929, com o curta Sob o Céu Nordestino, segundo a Secretaria de Turismo do município. A vocação cinematográfica se consolidou décadas depois, com a estreia de O Auto da Compadecida, longa-metragem de Guel Arraes baseado na peça de Ariano Suassuna, com Selton Mello e Matheus Nachtergaele. O filme colocou a cidade no mapa nacional e abriu caminho para dezenas de outras produções.
Segundo o jornal A União, publicação oficial do Governo da Paraíba, Cabaceiras já foi cenário de mais de 30 séries, documentários, novelas e filmes, entre eles Cinema, Aspirinas e Urubus (2005) e Canta Maria. O segredo é a luz natural. Por ser um dos municípios mais secos do país, o sol aparece quase todos os dias, o que reduz custos de produção e oferece luminosidade ideal para as câmeras. A cidade também tem população disposta a colaborar com as filmagens, muitas vezes emprestando móveis e objetos pessoais para decorar cenas.

O que é o Lajedo de Pai Mateus?
O Lajedo de Pai Mateus é a atração natural mais famosa de Cabaceiras. Trata-se de uma extensa formação de granito com blocos arredondados enormes que parecem flutuar sobre o piso de pedra, criando uma paisagem que lembra outro planeta em pleno semiárido brasileiro. Fica a cerca de 19 km do centro urbano, dentro da área do Hotel Fazenda Pai Mateus, aberta também aos visitantes não hospedados.
A formação mais fotografada é a Pedra do Capacete, batizada pelo formato que lembra um capacete militar antigo. Algumas das pedras guardam pinturas rupestres feitas por povos indígenas que habitaram a área. O nome do lajedo vem de uma lenda local: o curandeiro Pai Mateus teria vivido na região no século XVIII, e até hoje os moradores descrevem o lugar como místico. O pôr do sol entre as rochas é considerado um dos mais bonitos da Paraíba, e o local ganhou projeção nacional em 2002, quando Gilberto Gil gravou ali o documentário Viva São João! com Dominguinhos e Marines.
O que ver no Centro Histórico da Roliúde Nordestina?
O centro histórico é compacto e reúne os principais cenários das filmagens em poucos quarteirões percorríveis a pé. Muitas fachadas são repintadas a cada nova produção, o que mantém o visual sempre variado.
- Igreja de Nossa Senhora da Conceição: cenário central de O Auto da Compadecida e ponto de partida para o roteiro cinematográfico da cidade.
- Letreiro Roliúde Nordestina: estrutura de 5 metros de altura e 70 metros de comprimento na entrada da cidade, ao lado do Morro do Cruzeiro, inaugurada em 5 de maio de 2007.
- Casarões coloridos: construções de estilo neoclássico com fachadas repintadas ao longo dos anos, cenário recorrente em produções audiovisuais.
- Morro do Cruzeiro: mirante natural com vista panorâmica da cidade e do letreiro Roliúde.
- Museu Cinematográfico: acervo com objetos e fotografias das principais produções gravadas na cidade.

Como funciona a Festa do Bode Rei?
A Festa do Bode Rei é o principal evento cultural do calendário de Cabaceiras e acontece anualmente em junho. A festa homenageia o animal que sustenta a economia rural da região há gerações, com desfiles, competições, música ao vivo, gastronomia típica e a coroação do bode com as melhores características da raça. É uma celebração da identidade sertaneja e ajudou a fortalecer o turismo cultural no município.
A tradição está diretamente ligada ao artesanato em couro de bode, uma das principais atividades econômicas locais. Cabaceiras concentra oficinas que produzem sandálias, bolsas, chapéus, cintos, mochilas e acessórios usando couro curtido artesanalmente. Os produtos são comercializados em lojas do centro e enviados para várias capitais brasileiras, e a rota do couro é hoje um dos circuitos temáticos oficiais do turismo local, ao lado dos circuitos de ecoturismo, história e cinema.
Quais são as outras atrações turísticas de Cabaceiras?
A cidade tem uma rede de atrações que se distribuem entre o núcleo urbano e as formações rochosas do entorno. Vale reservar pelo menos dois dias para conhecer o principal em ritmo tranquilo.
- Rota do Couro: circuito por oficinas artesanais onde é possível acompanhar todo o processo de curtimento e produção do couro de bode.
- Pinturas rupestres: registros pré-históricos deixados por povos indígenas em formações rochosas espalhadas pelo entorno do Lajedo de Pai Mateus.
- Pôr do sol no Lajedo: horário mais buscado para visitar as formações rochosas, com jogo de luz que enfatiza o formato arredondado das pedras.
- Passeios de bicicleta: as estradas de terra do entorno criam roteiros de cicloturismo entre a cidade e o Lajedo.
- Ruínas de fazendas antigas: construções coloniais em ruínas espalhadas pelo território, testemunhas da colonização portuguesa do sertão paraibano.
O que comer em Cabaceiras?
A cozinha local reflete a criação de bode que sustenta a economia rural e os pratos tradicionais do sertão paraibano. Os restaurantes concentram-se no centro e nos arredores do Lajedo de Pai Mateus, e servem preparos tradicionais herdados das famílias sertanejas.
- Bode assado: prato-símbolo da cidade, servido com farofa, arroz e feijão-verde, presente em praticamente todos os restaurantes locais.
- Buchada de bode: prato tradicional feito com miúdos do animal recheados no próprio bucho, cozidos com temperos regionais.
- Rabada: cozido feito com a cauda do bode ou do boi, com molho encorpado e temperos sertanejos.
- Carne de sol: carne bovina levemente salgada e seca ao sol, servida com macaxeira ou baião de dois.
- Queijo coalho: produzido artesanalmente na região, servido puro ou grelhado como aperitivo.
Como é o clima de Cabaceiras ao longo do ano?
Cabaceiras tem clima semiárido típico do Cariri paraibano, com sol praticamente o ano inteiro e uma das menores médias de chuva do Brasil. A curta estação chuvosa se concentra entre fevereiro e abril, e o restante do ano se caracteriza pelo céu limpo e pela luminosidade que atraiu a indústria audiovisual. As temperaturas são altas durante o dia e caem à noite, quando o ar seco proporciona conforto térmico.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar a Cabaceiras?
Cabaceiras fica a cerca de 180 km de João Pessoa e a 70 km de Campina Grande, com acesso principal pela BR-230 combinada com rodovias estaduais que cortam o Cariri paraibano. O trajeto de carro a partir de Campina Grande dura cerca de uma hora. O aeroporto mais próximo é o Aeroporto Presidente João Suassuna, em Campina Grande, com voos regulares de várias capitais brasileiras. Ônibus intermunicipais operam a linha entre Campina Grande e Cabaceiras com frequência regular.
Vá à Roliúde Nordestina e conheça o único sertão que virou set de cinema
Cabaceiras é o tipo de destino que provou ser possível transformar aridez em oportunidade. A cidade com uma das menores médias de chuva do Brasil, cerca de 300 mm por ano, virou a preferida da indústria audiovisual nacional graças ao céu limpo e à luminosidade constante. Mais de 50 filmes, séries e documentários já foram gravados nas ruas do centro histórico, na Igreja de Nossa Senhora da Conceição e nas formações rochosas do Lajedo de Pai Mateus, incluindo o clássico O Auto da Compadecida. Some a isso a Festa do Bode Rei em junho, o artesanato em couro que sustenta oficinas familiares e o pôr do sol entre as pedras arredondadas do Lajedo, e fica claro por que a Roliúde Nordestina virou parada obrigatória do Cariri paraibano.
Você precisa reservar pelo menos dois dias em Cabaceiras, subir até a Pedra do Capacete no fim de tarde e caminhar pelo centro histórico para entender por que essa pequena cidade paraibana virou o único município do Nordeste em que a estiagem sertaneja se transformou em vocação econômica reconhecida nacionalmente.




