Poucas cidades brasileiras conseguem transformar um fenômeno geológico em modelo de turismo durante três séculos consecutivos. Caldas Novas, no sul de Goiás, a cerca de 170 km de Goiânia, faz isso desde 1722, quando bandeirantes em busca de ouro descobriram fontes de água morna surgindo direto do chão. Sem um único vulcão nas proximidades, o município se tornou a maior estância hidrotermal do mundo, com águas que brotam entre 37 e 57 graus, e recebe mais de 2 milhões de turistas todos os anos.
Como o bandeirante Anhanguera descobriu as fontes de Caldas Novas em 1722?
A resposta começa no ciclo do ouro brasileiro. O registro mais antigo das águas quentes da região aparece em 1722, durante uma expedição de Bartolomeu Bueno da Silva Filho, o Anhanguera, em busca de metais preciosos pelo interior de Goiás. Segundo o portal oficial da Goiás Turismo, os relatos dos bandeirantes mencionavam fontes que surpreendiam os viajantes, acostumados ao calor do cerrado, mas não à água saindo morna direto do solo.
O povoamento oficial só começou em 1777, quando terras foram doadas ao fazendeiro Antônio Sanches, considerado o fundador da cidade. Por muito tempo as águas atraíram visitantes em busca das chamadas propriedades terapêuticas, e o município se emancipou oficialmente em 1911. O nome vem do português arcaico: caldas significa exatamente fontes de água quente que surgem naturalmente do solo, expressão que definiu a identidade da cidade desde os primeiros mapas coloniais.

Por que as águas brotam quentes sem vulcão por perto?
A resposta está em um fenômeno chamado geotermia. Não há vulcanismo em Caldas Novas, mas a água da chuva se infiltra pelas fissuras da Serra de Caldas e desce a mais de 1.000 metros de profundidade. Em contato com o gradiente geotérmico das rochas, a água aquece e retorna à superfície pela diferença de pressão, já morna, sem cheiro de enxofre e cristalina, o que a diferencia das fontes de origem vulcânica encontradas em outras partes do mundo.
As temperaturas de afloramento variam entre 37°C e 57°C, chegando a 70°C em alguns pontos captados por parques aquáticos. O turismo ganhou escala definitiva nos anos 1970, quando os primeiros hotéis com piscinas termais transformaram a cidade em destino nacional. Entre os anos 1990 e 2010, uma segunda onda de complexos hoteleiros com parques aquáticos integrados fez de Caldas Novas o principal polo termal do Centro-Oeste.
O que fazer nas fontes termais e parques aquáticos de Caldas Novas?
A cidade tem dezenas de hotéis com piscinas termais e parques aquáticos abertos ao público. Boa parte funciona 24 horas para hóspedes e concentra atrações a poucos minutos do centro.
- Lagoa Quente de Pirapitinga: nascente histórica onde tudo começou, com águas que afloram naturalmente a até 57°C e o famoso “poço do ovo”, ponto mais aquecido.
- Parques aquáticos temáticos: complexos hoteleiros oferecem piscinas com temperatura controlada, toboáguas, saunas naturais e áreas para crianças, abastecidos exclusivamente por água termal natural.
- Museu das Águas Termais Oscar Santos: acervo dedicado à história das fontes, à formação geológica da Serra de Caldas e ao desenvolvimento turístico da cidade desde o século XVIII.
- Cachaçaria Vale das Águas Quentes: destilaria tradicional que combina produção artesanal com um contexto histórico ligado ao cerrado goiano.
- Monumento às Águas: marco urbano dedicado ao fenômeno geotérmico que faz da cidade um destino único no país.

Vale a pena estender o roteiro até Rio Quente e o Hot Park?
Vale, e boa parte dos visitantes de Caldas Novas inclui o município vizinho no roteiro. Segundo o site oficial do Rio Quente Resorts, o Hot Park, dentro do complexo, foi inaugurado em 1997 e ocupa cerca de 55 mil metros quadrados, sendo considerado o maior parque de águas quentes da América Latina.
- Praia do Cerrado: praia artificial de 25 mil metros quadrados com areia branca, piscina de ondas e cerca de 5,5 milhões de litros de água renovados a cada 3 horas, apresentada como a maior praia artificial de águas quentes naturais do mundo.
- Parque das Fontes: conjunto de 18 nascentes principais em oito piscinas de águas naturalmente quentes a até 37,5°C, com duchas termais, saunas e ofurôs em meio à mata.
- Rio das Águas Quentes: com 12 km de extensão e vazão superior a 150 milhões de litros por dia, é considerado o maior rio de águas naturalmente quentes do planeta, segundo dados divulgados pela Prefeitura de Rio Quente.
- Toboáguas: brinquedos radicais como o Half Pipe, o Xpirado e a Tobomba complementam a programação para famílias e grupos que buscam adrenalina.
Quais atrações históricas e naturais visitar em Caldas Novas?
Além das águas termais, a cidade preserva um núcleo histórico e uma reserva natural que ajudam a explicar o próprio fenômeno geológico.
- Parque Estadual da Serra de Caldas Novas (PESCaN): primeira unidade de conservação do estado, protege a área de captação da chuva que abastece o lençol termal, com cachoeiras de água fria, trilhas e mirantes a mais de mil metros de altitude.
- Casarão dos Gonzaga: uma das construções mais antigas da cidade, erguida em 1907, com arquitetura goiana típica do início do século XX, hoje centro de apoio ao artesão.
- Igreja Nossa Senhora das Dores: templo de 1850, tombado como patrimônio histórico estadual, marco arquitetônico do centro urbano.
- Santuário de Nossa Senhora Salette: no Morro do Capão, oferece vista contemplativa da cidade e virou ponto de peregrinação religiosa.
- Represa de Corumbá: lago artificial próximo ao município, com opções de pesca, passeios de barco e resorts à beira d’água.
- Jardim Japonês: espaço dedicado à tradição budista, com jardins zen e áreas de meditação.
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O que provar na gastronomia goiana em Caldas Novas?
A cena gastronômica combina raiz caipira do centro-oeste, ingredientes do cerrado e uma cena mais contemporânea impulsionada pelo turismo termal. Restaurantes ficam concentrados no centro e no entorno dos grandes hotéis.
- Empadão goiano: prato-símbolo da culinária local, com massa amanteigada e recheio farto de frango, ovos, azeitona, guariroba e linguiça, servido em restaurantes tradicionais.
- Pequi: fruto do cerrado presente em arroz, galinhada e conservas, considerado sabor identitário do estado.
- Peixes de água doce: pintado, pacu e tilápia da represa de Corumbá, servidos grelhados ou em ensopados nos restaurantes da região.
- Galinhada com pequi: prato clássico do centro-oeste, combina frango caipira, arroz e o pequi cozido em ponto tradicional.
- Cachaça artesanal: produção local abastece bares e restaurantes da cidade e é vendida em cachaçarias como a Vale das Águas Quentes.

Como é o clima e a melhor época para visitar Caldas Novas?
O clima é tropical de savana, com duas estações bem definidas. Verão quente e chuvoso, inverno seco e ensolarado, ideal para aproveitar as águas termais em manhãs frescas e passar o dia nos parques aquáticos.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar a Caldas Novas?
De carro, o acesso a partir de Goiânia é pela BR-153 até o trevo de Morrinhos, seguindo pela GO-213, com trajeto de cerca de 170 km e viagem média de duas horas e meia. Quem vem de Brasília percorre cerca de 310 km, também pela BR-153.
Quem prefere avião pode desembarcar no Aeroporto Nelson Ribeiro Guimarães, a cerca de 7 km do centro, com voos sazonais das principais capitais. Alternativamente, o Aeroporto Santa Genoveva, em Goiânia, e o Aeroporto Juscelino Kubitschek, em Brasília, oferecem opções regulares com trecho final por rodovia.
A maior estância hidrotermal do mundo no coração do cerrado
Caldas Novas reúne uma combinação difícil de encontrar em outro município brasileiro: fontes termais que brotam entre 37 e 57 graus sem qualquer atividade vulcânica na região, um circuito hoteleiro que abastece mais de dois milhões de turistas por ano, uma reserva natural que protege o lençol termal e a vizinhança com Rio Quente, que abriga o maior parque de águas quentes da América Latina. O ciclo do ouro deixou um legado surpreendente no interior goiano.
Você precisa conhecer Caldas Novas e mergulhar em uma piscina termal ao amanhecer, subir até um mirante da Serra de Caldas ao entardecer e entender por que a cidade descoberta pelo Anhanguera em 1722 continua sendo a maior estância hidrotermal do mundo três séculos depois.



