No sertão do Rio Grande do Norte, Mossoró reúne três acontecimentos históricos que marcaram o país. A cidade aboliu a escravidão cinco anos antes da Lei Áurea, resistiu à invasão do bando de Lampião em 1927 e entrou para a história do voto feminino no Brasil. Conhecida como Terra da Liberdade, preserva essas memórias em monumentos, museus e celebrações.
Três episódios históricos que deram fama à Terra da Liberdade
A trajetória abolicionista de Mossoró ganhou força em 6 de janeiro de 1883, quando foi fundada a Sociedade Libertadora Mossoroense. Seu objetivo era direto: recorrer a todos os meios lícitos para libertar a população escravizada. Conforme a Prefeitura de Mossoró, a abolição foi concretizada em 30 de setembro daquele ano, cinco anos antes da assinatura da Lei Áurea. Desde 1913, a data é feriado municipal e representa uma das principais celebrações cívicas da cidade.
Outro episódio decisivo aconteceu em 13 de junho de 1927, quando o grupo de Lampião tentou tomar Mossoró. O prefeito Rodolfo Fernandes não aceitou pagar o resgate exigido, e os moradores organizaram a resistência armada sem receber reforços da Força Nacional. Após aproximadamente uma hora de confronto, os cangaceiros bateram em retirada. No ano seguinte, a professora Celina Guimarães Viana se alistou como eleitora e votou, em um episódio que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) reconhece como o primeiro voto feminino do país.

Como é viver na Capital Nacional do Semiárido?
De acordo com o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Mossoró tem 264.577 habitantes e ocupa a segunda posição entre os municípios mais populosos do Rio Grande do Norte. O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) é de 0,720, enquanto a escolarização de crianças e adolescentes entre 6 e 14 anos alcança 98,56%. Em comparação com Natal e Fortaleza, os gastos cotidianos tendem a ser menores, sobretudo com habitação e alimentação.
A economia local combina atividades que colocam Mossoró em destaque nacional. O município lidera a produção brasileira de sal marinho e figura entre os principais produtores de petróleo em terra. A fruticultura irrigada também tem peso importante, especialmente pelo cultivo de melão destinado a mercados dos Estados Unidos e da Europa. Na área educacional, a Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN) e a Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA) atraem estudantes de áreas como engenharia, agronomia e petróleo.
Quais atrações visitar no Corredor Cultural?
A Avenida Rio Branco reúne diversos pontos históricos e culturais que podem ser percorridos a pé. Entre memoriais, igrejas e museus, o visitante encontra relatos da resistência ao cangaço, documentos ligados à abolição e registros da conquista do voto feminino.
- Memorial da Resistência Mossoroense: distribuído em três pavimentos, apresenta fotografias, painéis e biografias de moradores que enfrentaram o bando de Lampião. A entrada é gratuita.
- Estação das Artes Elizeu Ventania: a antiga estação ferroviária foi transformada em espaço cultural e se tornou um dos principais palcos do Mossoró Cidade Junina e do Auto da Liberdade.
- Museu Histórico Lauro da Escóssia: instalado no antigo edifício da Câmara Municipal, preserva documentos históricos, registros do cangaço e o título de eleitor de Celina Guimarães.
- Igreja de São Vicente: erguida em 1915, teve papel importante na resistência aos cangaceiros. As paredes ainda exibem marcas atribuídas aos disparos do confronto de 1927.
- Catedral de Santa Luzia: com origens que remontam ao século 18, abriga o marco zero de Mossoró e recebe, em dezembro, o Oratório de Santa Luzia.
- Museu do Petróleo: localizado no Corredor Cultural, apresenta a história da exploração de petróleo em terra no Rio Grande do Norte.
Os sabores sertanejos que marcam a culinária potiguar
A gastronomia de Mossoró valoriza ingredientes regionais e receitas fartas, características da cozinha do semiárido. Durante o Mossoró Cidade Junina, muitas dessas especialidades aparecem nas barracas de comida, ao lado de preparações tradicionais à base de milho.
- Carne de sol com macaxeira: um dos pratos mais emblemáticos da região, costuma ser servido com pirão de leite e paçoca feita no pilão, especialmente em restaurantes e estabelecimentos tradicionais do centro.
- Panelada: preparada com miúdos bovinos cozidos e temperados, é encontrada em mercados públicos e aparece com frequência nas festas populares.
- Bode guisado: a carne caprina é cozida com temperos frescos e geralmente acompanha arroz da terra nas casas de culinária regional.
- Doces de melão e melancia: aproveitam frutas produzidas na região e podem ser servidos ao natural ou preparados em calda.

Quando o forró toma conta das ruas de Mossoró?
Em junho, o centro da cidade se transforma em um grande arraial durante o Mossoró Cidade Junina. A programação ocupa a Estação das Artes e o Corredor Cultural por mais de 30 dias, com artistas nacionais, apresentações de quadrilhas e mais de 30 projetos culturais. Um dos momentos mais aguardados é o espetáculo Chuva de Bala no País de Mossoró, encenação ao ar livre com centenas de atores que revive a resistência contra o bando de Lampião.
Setembro é marcado pelo Auto da Liberdade, que reúne quatro episódios associados à história libertária do município: o Motim das Mulheres, de 1875; a abolição da escravidão, em 1883; a resistência aos cangaceiros, em 1927; e o voto feminino, em 1928. Os acontecimentos ganham vida em uma montagem teatral acompanhada pelo Cortejo da Liberdade. Já em dezembro, o Oratório de Santa Luzia encerra o calendário cultural com uma apresentação sobre a padroeira no adro da catedral.
Como chegar ao interior do Rio Grande do Norte?
Mossoró está a aproximadamente 280 km de Natal e 245 km de Fortaleza, com acesso pela BR-304. O trajeto de carro leva cerca de três horas e meia a partir de cada capital. O Aeroporto Dix-Sept Rosado atende voos regionais, enquanto linhas de ônibus intermunicipais fazem a ligação com rodoviárias de diferentes cidades do Nordeste.
Uma cidade onde a história permanece viva
Mossoró combina acontecimentos históricos singulares, uma das maiores festas juninas do Rio Grande do Norte e destaque nacional na produção de sal. Na Terra da Liberdade, o passado não fica restrito aos livros: aparece nos memoriais, nas encenações públicas e nas celebrações que ocupam as ruas ao longo do ano.
Cruzar o sertão potiguar é uma oportunidade de percorrer os lugares ligados à abolição antecipada, à resistência contra Lampião e à conquista do voto feminino, três episódios que ajudaram a construir a identidade histórica de Mossoró.




