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Início Curiosidades

As pás das turbinas eólicas são a única parte da máquina que nenhum ferro-velho aceita, e enquanto um aterro nos Estados Unidos acumula mais de mil delas, uma cimenteira encontrou um jeito de moer 7 mil pás como combustível; o Brasil já tem mais de 10 mil torres e a mesma dúvida

Por João Victor
06/09/2026
Em Curiosidades
Pás de turbina enterradas no aterro de Wyoming

Pás de turbina enterradas no aterro de Wyoming. Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

O que acontece com uma pá de 40 metros quando a turbina eólica chega ao fim da vida? Aço, cobre e concreto têm comprador na porta. A pá, não. Ela é feita de fibra de vidro colada com resina, um material que o ferro-velho não derrete e que nenhuma sucata compra. É por isso que a reciclagem de pás de turbina eólica virou o ponto cego de uma indústria que se vende como limpa.

Nos Estados Unidos, o problema já tem endereço. Um aterro em Casper, no Wyoming, enterrou mais de mil pás entre 2019 e 2020. No Missouri, uma cimenteira encontrou o caminho oposto: moer as pás e queimá-las no forno, no lugar do carvão. O Brasil, com mais de 12 mil aerogeradores girando e os primeiros parques completando 20 anos, tem a mesma pergunta pela frente.

Por que as pás de turbina eólica são a parte que o ferro-velho recusa?

Cerca de 90% de uma turbina é reciclável. O que sobra está quase todo nas três pás.

O número aparece no material do workshop que a ABEEólica realizou em maio de 2025 na fábrica da Aeris Energy, em Caucaia, no Ceará, com 21 empresas do setor. A pá é um compósito de fibra de vidro impregnada com resina epóxi ou poliéster, com núcleo de madeira balsa ou espuma. Depois de curada, a resina não volta a derreter: não dá para fundir, como o metal, nem reprocessar, como o plástico comum.

O que aconteceu no aterro de Casper, em Wyoming?

Parque eólico no litoral do Nordeste com pá sendo trocada
Parque eólico no litoral do Nordeste com pá sendo trocada. Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

Em maio de 2019, o Casper Regional Landfill começou a receber pás desativadas de parques vizinhos. Em setembro de 2020 a contagem chegava a 1.124. Os números são do próprio aterro, citados numa checagem do site Snopes de outubro de 2020. As pás, de cerca de 36 metros, eram cortadas em três pedaços antes de descer para a vala. Para o aterro municipal foi um bom negócio: a gerente de resíduos Cindie Langston estimou, ao Cowboy State Daily em agosto de 2019, receita de US$ 675 mil com o projeto até a primavera de 2020. Enterrar uma pá é a resposta mais barata que o setor tem e a única que ninguém se orgulha de dar.

Como funciona o forno de cimento que moeu 7 mil pás?

Em dezembro de 2020, a GE Renewable Energy assinou com a Veolia o primeiro contrato de reciclagem de pás em escala nos Estados Unidos. O destino é uma cimenteira.

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A unidade fica em Louisiana, cidade do Missouri a cerca de 110 quilômetros de Saint Louis. Ali as pás são trituradas até virar um pó que entra no forno de clínquer. A conta divulgada pela Veolia: 90% de cada pá é aproveitada, 65% como matéria-prima do cimento (a sílica da fibra substitui areia e calcário) e 28% como energia, porque a resina queima. Uma pá de 7 toneladas poupa cerca de 5 toneladas de carvão, e o processo emite 27% menos CO2 do que a produção convencional, segundo a consultoria Quantis, citada pela empresa. A página do programa de reciclagem de pás da Veolia informa mais de 7 mil pás processadas desde 2020. É coprocessamento, não reciclagem estrita: parte vira cimento, o resto vira calor.

De onde vem a ponte de pás de Atlanta?

Nem toda pá precisa ser moída. Em Atlanta, duas delas atravessam um córrego.

A BladeBridge do Beaverbrook Park foi concluída em junho de 2025 pela rede acadêmica Re-Wind, liderada nos Estados Unidos pelo professor Russell Gentry, da Georgia Tech, segundo a revista CompositesWorld. As duas pás, de 49 metros cada, vieram de um parque no Colorado e foram doadas pela Siemens Gamesa. Deitadas sobre o riacho, funcionam como vigas de uma passarela de pelo menos 15 metros. É uma saída elegante, mas pequena: uma ponte usa duas pás, e um parque aposentado libera centenas.

Quantas torres o Brasil já tem e quando as primeiras envelhecem?

O Brasil tem 12.038 aerogeradores em 1.147 parques, somando 33,9 GW em operação comercial. Os dados são da ABEEólica, no boletim Infovento de agosto de 2025.

O título fala em “mais de 10 mil torres” e a realidade já passou disso com folga. A Bahia lidera com 368 parques, segundo o mesmo boletim da ABEEólica. A pergunta que importa é a idade. As primeiras turbinas giraram no litoral do Ceará no fim dos anos 1990, em escala experimental; a geração de porte chegou com o Proinfa, criado pela Lei 10.438 em 2002: o complexo de Osório, no Rio Grande do Sul, inaugurou as primeiras torres em 2006 e chegou a 75 aerogeradores e 150 MW no ano seguinte, e Rio do Fogo, no Rio Grande do Norte, começou a operar no mesmo ano com 62 torres. As pás são projetadas para 20 anos pela norma IEC 61400-1. A conta fecha agora. Um levantamento publicado pela Tribuna do Norte em setembro de 2025 aponta 38 parques brasileiros completando duas décadas até 2030 e cerca de mil turbinas, ou 3 mil pás, aptas ao descomissionamento já em 2027.

O que o Brasil planeja fazer com as pás velhas?

Não existe, até aqui, uma regra federal específica para o destino das pás. O que existe é a lei geral de resíduos e a licença ambiental de cada parque.

A Política Nacional de Resíduos Sólidos, a Lei 12.305/2010, atribui ao gerador a responsabilidade pela destinação correta, e as licenças de instalação já preveem uma etapa de descomissionamento, como registrou a Tribuna do Norte. A Aneel entrou por outro lado: a Lei 14.182/2021 permitiu prorrogar os contratos do Proinfa, o que, segundo a nota técnica da EPE de 2023 sobre eólicas ao fim da vida útil, dá fôlego para repotenciar em vez de desmontar. Nove turbinas de 6 MW substituem as 62 torres de Rio do Fogo, mas as 186 pás antigas continuam sem destino. As alternativas em discussão seguem o roteiro americano: pás trituradas viram grânulos para pisos, paletes e tubos, ou painéis resistentes a fogo e umidade, rotas tratadas no workshop da ABEEólica na Aeris. O coprocessamento em cimenteira é viável no Brasil, mas depende de alguém pagar o transporte de uma pá de 40 metros do sertão até a fábrica. Assim como o vento define a cabeceira de decolagem, como mostra este texto sobre os números pintados nas pistas dos aeroportos, a logística decide o que é possível. E o país, que já viu o que um ciclo de energia faz com um município, como nesta reportagem sobre uma cidade fluminense movida a royalties do petróleo, precisa decidir quem paga essa conta antes de a primeira pá cair no chão.

O que convém lembrar sobre pás de turbina eólica e reciclagem?

Quando ler que um parque eólico será descomissionado ou repotenciado, a pergunta a fazer é sempre a mesma: para onde vão as pás? Guarde três referências. Uma turbina tem cerca de 90% de material reciclável, e o resto são as pás. Um forno de cimento aproveita 90% de cada pá e é hoje a única rota em escala industrial, com mais de 7 mil tratadas nos Estados Unidos. E o Brasil tem cerca de 3 mil pás chegando à aposentadoria até 2027, sem fábrica dedicada e sem regra específica. Quem mora perto de um parque antigo pode consultar a licença ambiental no órgão estadual e verificar o que ela exige na desmontagem. Quem acompanha o setor deve observar se as prorrogações do Proinfa passarão a exigir um plano para as pás.

Este apanhado é informativo e se apoia em dados divulgados pelas próprias empresas, pela ABEEólica, pela EPE e por veículos que checaram os números do aterro de Casper; volumes e datas de descomissionamento podem mudar conforme os contratos forem renegociados, e quem tiver interesse direto num parque deve consultar a licença e o contrato daquele empreendimento.

Tags: ABEEólicaenergia eólicameio ambientereciclagem
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