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Início Cidades

As rochas com cara “lua” no cerrado goiano onde um rio dissolveu o cimento natural de pedras antigas e esculpiu buracos na paisagem

Por Maura Pereira
27/10/2026
Em Cidades, Turismo

Quem caminha pelo Vale da Lua, na Chapada dos Veadeiros, em Goiás, costuma ouvir que aquelas rochas cheias de crateras são restos de lava. A explicação parece fazer sentido, mas está errada. As formas que lembram a superfície lunar foram esculpidas pela água de um rio, que dissolveu aos poucos o material que unia pedras muito antigas. O resultado é um dos cenários mais estudados e fotografados da região, que também exige atenção de quem visita.

As rochas do Vale da Lua são vulcânicas?

Não. Segundo o estudo publicado pela Comissão Brasileira de Sítios Geológicos e Paleobiológicos (Sigep), o Vale da Lua é formado pela melhor exposição conhecida do Paraconglomerado São Miguel, a camada que forma a base do Grupo Paranoá, um grande conjunto de rochas da região. O mesmo estudo descreve o vale como um cenário modelado pela erosão do rio.

Conglomerado é uma rocha formada por pedras de vários tamanhos unidas por um material mais fino. Segundo a revista In The Mine, que reproduz o estudo de geólogos da Universidade de Brasília (UnB), essas pedras vão de milímetros a mais de 50 centímetros, com blocos que chegam a cerca de 1 metro, envolvidas por uma matriz arenosa de cor arroxeada e cinza-esverdeada, rica em carbonato.

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O Vale da Lua, em Alto Paraíso de Goiás, é conhecido por suas formações rochosas que lembram a superfície lunar. // Créditos: depositphotos.com / bermed2009.hotmail.com

Como a água esculpiu o Vale da Lua?

Dissolvendo o cimento das rochas. Um material didático do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (USP) explica que os grãos da matriz do conglomerado são cimentados por carbonato de cálcio, que se dissolve com mais facilidade que o quartzo. Quando a água do Ribeirão São Miguel passa pela rocha, esse cimento vai sendo removido, e surgem as formas curiosas que dão nome ao vale.

O rio corre encaixado nas fendas. O estudo da Sigep registra que o Ribeirão São Miguel corre pelas fraturas da rocha, aprofundando canais e formando cavidades arredondadas, conhecidas como marmitas. O processo leva um tempo enorme e continua até hoje, o que faz do Vale da Lua uma paisagem em transformação lenta.

Como o Vale da Lua se formou, passo a passo?

A paisagem resulta de uma longa sequência de processos geológicos. Estes são os principais, de forma simplificada.

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Sedimentos antigos Areia, cascalho e pedras de vários tamanhos se acumulam e são unidos por um cimento natural rico em carbonato.
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A rocha se forma Com o tempo e a pressão, esse material vira um conglomerado, a base de um grande conjunto de rochas da região.
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Movimentos da Terra Camadas de rocha são empurradas e dobradas, e uma unidade geológica passa por cima de outra, trazendo o conglomerado à superfície.
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A água entra em ação O Ribeirão São Miguel corre pelas fendas e dissolve o carbonato, que é mais frágil que o quartzo.
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As marmitas Buracos arredondados e canais aparecem na rocha, criando a paisagem que lembra a superfície da Lua.
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A Chapada dos Veadeiros, em Goiás, possui uma área de aproximadamente 240 mil hectares protegidos pelo parque nacional. // Créditos: depositphotos.com / Elena Skalovskaia

Quais cuidados tomar no Vale da Lua?

Atenção ao rio. O mesmo processo que esculpiu o vale torna o lugar perigoso em dias de chuva. O nível do Ribeirão São Miguel pode subir de repente com chuvas nas cabeceiras, fenômeno conhecido como cabeça d’água, que transforma o leito tranquilo em correnteza forte em poucos minutos.

A visita exige planejamento. O ideal é visitar na estação seca, respeitar a sinalização e as cordas de proteção, evitar se aproximar das bordas dos cânions e sair imediatamente da água ao perceber o rio ficando turvo ou subindo. Para o visitante, entender a geologia ajuda a admirar a paisagem e também a respeitar a força da água que a criou.

Como é o clima no Vale da Lua ao longo do ano?

O ano se divide entre uma estação de chuvas intensas e uma seca bem marcada. Em Alto Paraíso de Goiás, porta de entrada da chapada, novembro concentra 386 mm de chuva em média, enquanto julho registra apenas 1 mm, e as temperaturas ficam entre 16°C e 29°C.

☀️ Verão Dez-Fev
Média: 19-26°C
Chuva: Muito alta
Cachoeiras cheias, mas atenção às trombas d’água.
🍂 Outono Mar-Mai
Média: 18-26°C
Chuva: Média
Rios ainda cheios e chuva em queda.
❄️ Inverno Jun-Ago
Média: 16-27°C
Chuva: Muito baixa
Seca total, céu limpo e trilhas firmes.
🌸 Primavera Set-Nov
Média: 19-29°C
Chuva: Alta
Volta das chuvas a partir de outubro.
💡 Dica do especialista: no período chuvoso, o nível do Ribeirão São Miguel pode subir de forma repentina com chuvas nas cabeceiras, mesmo que o céu esteja limpo no local. Entre maio e setembro, a chuva quase desaparece e a visita fica mais segura. Siga sempre as orientações dos condutores e da sinalização.

Temperaturas aproximadas com base no Climatempo, com dados de Alto Paraíso de Goiás. Condições podem variar.

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Chapada dos Veadeiros atrai milhares de turistas anuais por sua importância ambiental e belezas naturais. // Reprodução: Wikimedia Commons

Leia também: A vila escondida nas montanhas de Minas Gerais que reúne casas coloridas, clima de interior e uma tirolesa nas alturas.

Uma paisagem esculpida pela água, não pelo fogo

O Vale da Lua mostra que nem tudo o que parece vulcânico tem origem no fogo. As rochas cheias de crateras são, na verdade, um conglomerado antigo cujo cimento de carbonato foi dissolvido pela água do Ribeirão São Miguel ao longo de muito tempo. Esse processo criou marmitas, canais e formas que lembram a Lua, e segue em ação, lembrando que a paisagem do cerrado também está em constante transformação.

Você precisa caminhar pelas rochas do Vale da Lua em um dia seco, observar as marmitas e os canais esculpidos pelo rio e lembrar que tudo aquilo foi feito pela água para entender por que esse cenário é tão especial.

Tags: chapada dos veadeirosGoiás
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