Quem caminha pelo Vale da Lua, na Chapada dos Veadeiros, em Goiás, costuma ouvir que aquelas rochas cheias de crateras são restos de lava. A explicação parece fazer sentido, mas está errada. As formas que lembram a superfície lunar foram esculpidas pela água de um rio, que dissolveu aos poucos o material que unia pedras muito antigas. O resultado é um dos cenários mais estudados e fotografados da região, que também exige atenção de quem visita.
As rochas do Vale da Lua são vulcânicas?
Não. Segundo o estudo publicado pela Comissão Brasileira de Sítios Geológicos e Paleobiológicos (Sigep), o Vale da Lua é formado pela melhor exposição conhecida do Paraconglomerado São Miguel, a camada que forma a base do Grupo Paranoá, um grande conjunto de rochas da região. O mesmo estudo descreve o vale como um cenário modelado pela erosão do rio.
Conglomerado é uma rocha formada por pedras de vários tamanhos unidas por um material mais fino. Segundo a revista In The Mine, que reproduz o estudo de geólogos da Universidade de Brasília (UnB), essas pedras vão de milímetros a mais de 50 centímetros, com blocos que chegam a cerca de 1 metro, envolvidas por uma matriz arenosa de cor arroxeada e cinza-esverdeada, rica em carbonato.

Como a água esculpiu o Vale da Lua?
Dissolvendo o cimento das rochas. Um material didático do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (USP) explica que os grãos da matriz do conglomerado são cimentados por carbonato de cálcio, que se dissolve com mais facilidade que o quartzo. Quando a água do Ribeirão São Miguel passa pela rocha, esse cimento vai sendo removido, e surgem as formas curiosas que dão nome ao vale.
O rio corre encaixado nas fendas. O estudo da Sigep registra que o Ribeirão São Miguel corre pelas fraturas da rocha, aprofundando canais e formando cavidades arredondadas, conhecidas como marmitas. O processo leva um tempo enorme e continua até hoje, o que faz do Vale da Lua uma paisagem em transformação lenta.
Como o Vale da Lua se formou, passo a passo?
A paisagem resulta de uma longa sequência de processos geológicos. Estes são os principais, de forma simplificada.

Quais cuidados tomar no Vale da Lua?
Atenção ao rio. O mesmo processo que esculpiu o vale torna o lugar perigoso em dias de chuva. O nível do Ribeirão São Miguel pode subir de repente com chuvas nas cabeceiras, fenômeno conhecido como cabeça d’água, que transforma o leito tranquilo em correnteza forte em poucos minutos.
A visita exige planejamento. O ideal é visitar na estação seca, respeitar a sinalização e as cordas de proteção, evitar se aproximar das bordas dos cânions e sair imediatamente da água ao perceber o rio ficando turvo ou subindo. Para o visitante, entender a geologia ajuda a admirar a paisagem e também a respeitar a força da água que a criou.
Como é o clima no Vale da Lua ao longo do ano?
O ano se divide entre uma estação de chuvas intensas e uma seca bem marcada. Em Alto Paraíso de Goiás, porta de entrada da chapada, novembro concentra 386 mm de chuva em média, enquanto julho registra apenas 1 mm, e as temperaturas ficam entre 16°C e 29°C.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo, com dados de Alto Paraíso de Goiás. Condições podem variar.

Uma paisagem esculpida pela água, não pelo fogo
O Vale da Lua mostra que nem tudo o que parece vulcânico tem origem no fogo. As rochas cheias de crateras são, na verdade, um conglomerado antigo cujo cimento de carbonato foi dissolvido pela água do Ribeirão São Miguel ao longo de muito tempo. Esse processo criou marmitas, canais e formas que lembram a Lua, e segue em ação, lembrando que a paisagem do cerrado também está em constante transformação.
Você precisa caminhar pelas rochas do Vale da Lua em um dia seco, observar as marmitas e os canais esculpidos pelo rio e lembrar que tudo aquilo foi feito pela água para entender por que esse cenário é tão especial.




